sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Dorian Gray (2009)


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Dorian Gray de Oliver Parker é uma longa-metragem britânica cujo argumento de Toby Finlay tem como base a obra de Oscar Wilde e que aqui tem como protagonistas Ben Barnes e Colin Firth.
Dorian Gray (Barnes) chega à Londres vitoriana sedento de conhecer um mundo novo. Depois de convencido por Basil (Ben Chaplin) a posar para um retrato que a todos seduz, Dorian fica enfeitiçado pela beleza nele reflectida e numa conversa informal com  Lord Henry (Firth), afirma não se importar de estabelecer um pacto com o diabo para manter dessa forma a sua eterna juventude.
Mas o quadro desaparece - pelas suas mãos - e Dorian parece nunca envelhecer em contraste com todos os seus amigos londrinos pelos quais o tempo e as vivências passaram. É quando se apaixona por Lady Emily (Rebecca Hall), filha de Henry, que todas as verdades serão, finalmente, descobertas.
Tal como já muito discutido sobre a obra original, também esta longa-metragem levanta uma - apenas uma - grande questão; até que ponto está o Homem disposto a ir para alcançar a eterna juventude? Num meio consumido pela mudança, por uma vã ideia de modernidade e pelo claro choque entre urbano e rural tudo é, para este jovem "Dorian", uma novidade que não espera por ser descoberta. Tudo precisa - necessita - ser experimentado e vivido como se não existisse uma outra oportunidade; desde as drogas ao sexo, de uma ilusória experiência sobre o "viver depressa" sem, pelo meio, esquecer a paixão... a paixão ardente e sem complexos.
É neste ambiente que o nosso protagonista se vê lançado e no qual tenta sobreviver da melhor forma que pode... misturando-se nos demais e deixando-se levar pelas hipóteses que a experiência lhe proporciona. E é desta forma que o ideal de um fascínio pela beleza, pelo jovem e pelo eterno que "Dorian" encara como a sua missão se tornam na sua própria cela a céu aberto. Colhido por uma ambição desmesurada e por um sentido de "eterno" que só ele possui, os anos passam - mas não por ele - e sim na figura retratada de um quadro que se torna o símbolo do seu pacto com um diabo nunca visto. "Dorian" protege-o e vive para ele. Todos os que se colocam no seu caminho são peças dispensáveis de uma vida com a qual ele não se assume. A beleza pode ser eterna... e desta forma também o seu poder com os demais que o estranham mas que vivem fascinados com aquilo que os seus olhos presenciam esquecendo aquilo que, no fundo, nenhum deles parece (já) ter... uma alma.
É nesta ilusão que todos vivem... o que é eterno?! E vivem-na com uma duplicidade de considerações que se esfumaçam com o tempo. Se inicialmente todos parecem vibrar e sentir a juventude e frescura de um jovem não habituado a uma vida de opulência e de riqueza, gabando-lhe a mesma como se da dos próprios se tratasse, é também um facto que com o passar dos anos as amizades desvanecem - muito pela própria indiferença manifestada por "Dorian" - e, mais tarde, por todos repudiada como algo não natural. Desconfiados ou desinteressados, a sua presença começa a ser um incómodo com o qual têm de lidar ou distanciar para retomar a (sua) normalidade de uma sociedade que lentamente se tornava mais conservadora e moralista.
Da juventude ao ritmo dos bon-vivants, da opulência a uma degeneração que se lhes chega de forma proporcional sobre e na sua alma, Dorian Gray espelha - então tal como hoje - o reflexo de uma sociedade que se diz moderna mas que (se) defende com garras dos elementos que são, por si só, diferentes.
Com um sentido apurado de crítica social e comunitária, Dorian Gray pode ser esse tal espelho das sociedades tal como elas são transversalmente ao longo dos anos e das diferentes épocas. Existe sempre o culto de uma beleza ideal que será, mais tarde, desprezada pelos mesmos que a adoraram, invejada por aqueles que não a alcançam e vilanizada por aqueles que se sentem - pelos seus "portadores" - ridicularizados. A beleza seduz, até certo ponto, e transforma pelo seu excesso e exibição aqueles que a rodeiam das mais diversas formas. No entanto, e mesmo com esta dicotomia da diferença versus homogeneidade social, Dorian Gray - o filme - está longe de conseguir ser o tal filme referência no género mantendo-se em boa parte como um relato visualmente rico de uma sociedade vitoriana - magnífico guarda-roupa, caracterização e direcção artística - mas pobre na execução da mensagem bem como nos seus emissários (os actores) que por muito que tentem parecem, também eles, limitados no seu espaço e no seu tempo limitando-se a meras caricaturas do mesmo ou uma figuração especial que ali se resolveu fixar.
Pouco fluído e menos ainda concretizado, este Dorian Gray parece ser apenas um oportuno veículo de lançamento mediático para Ben Barnes então saído de The Chronicles of Narnia: Prince Caspian (2008), de Andrew Adamson e Stardust (2007), de Matthew Vaughn, esquecendo todos os demais actores britânicos que "pisam o palco" eventualmente com personagens igualmente ricas que poderiam ter sido melhor dinamizadas para este filme, não esquecendo os efeitos especiais relativamente ao "Dorian" retratado que estão longe de ser credíveis ou medonhos como seria de esperar dado que será (seria!) este o reflexo do seu envelhecimento não tão gracioso.
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4 / 10
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