segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Le Cri du Homard (2012)

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Le Cri du Homard de Nicolas Guiot presente na competição internacional do Córtex, em Sintra, é uma curta-metragem belga de ficção vencedora do César da Academia Francesa de Cinema na sua categoria e que se assume como um dos mais fortes argumentos sobre os efeitos psicológicos traumáticos que as guerras podem provocar nas mentes daqueles que por elas atravessam.
Natalia (Claire Thoumelou) é uma jovem menina russa de seis anos que chegara há pouco tempo a França na companhia dos seus pais. Um certo dia espera impaciente pelo regresso de Boris (Anton Kouzemin), o seu irmão mais velho e combatente na guerra da Tchétchénia.
Ao chegar Boris revela-se um jovem homem que procura o seu espaço entre os rostos conhecidos, e ultrapassar um conflito que visivelmente o marcou e traumatizou mas, calmamente tenta esquecer esses dias. É quando pequenos rastilhos fazem despoletar as suas memórias que Boris revela a real dimensão dos efeitos que, não sendo físicos, lhe deixaram feridas psicológicas muito marcantes.
Nicolas Guiot assina este fantástico argumento que nos remete desde os primeiros instantes para um abiente tenso. Não se sentindo este desconforto inicial quando somos apresentados apenas a uma parte desta família russa que pretende reconstruir a sua vida longe de um país que sendo o seu lhes deixou marcas principalmente graças à distância que mantêm do seu filho mais velho, é quando este regressa para junto dos seus que percebemos que a pessoa que em tempos conheceram apenas está ali fisicamente, e que as aparentes características de afecto que antes o caracterizavam estão agora perdidas algures no passado.
A jovem "Natalia" é a primeira que o percebe logo no momento em que o reencontra e já não reconhece sendo que apesar da sua curiosidade o medo transparece pelo seu olhar e pelas suas reacções pouco confortáveis junto daquele "homem". Enquanto os demais tentam que ele se integre com uma pequena festa de boas vindas, um quarto só seu, alguma partilha de trivialidade do dia-a-dia e o facto de lhe encontrarem um trabalho que o possa fazer ganhar o seu dinheiro, não é menos verdade que "Boris" demonstra estar perdido e com pouco espaço para pensar desde o primeiro instante em que regressa àquela casa onde todos, tal como ele, lhe são estranhos.
Dizem que a guerra marca todos aqueles que por ela passam e incapaz que (felizmente) de saber o quão verdade é esse facto, Guiot consegue com esta Le Cri du Homard entregar um excelente relato sobre as transformações que decorrem naqueles que por elas passam ao fazer-nos perceber todo o desconforto que se encontra no seio desta outrora feliz família sem que, pelo meio, nos faça ter alguma descrição factual sobre os acontecimentos para além das ocasionais notícias que escutamos na televisão sobre a complicadade vivência no seu país de origem e sobre os atentados terroristas que muito "vulgarmente" (terrível palavra para se utilizar nesta situação) ocorrem pelo mesmo.
A tensão acumula-se a cada instante e percebemos muito rapidamente que nada, nem ninguém, irá terminar feliz com a sua nova condição, no entanto só no final percebemos a ironia da prepação do primeiro jantar na festa com a preparação da lagosta e do "grito" que esta dá no seu momento final. Ironia essa que funciona como um murro que o espectador leva e que nos deixa perfeitamente arrasados com a sua simbologia em relação à atitude que "Boris" tem para se "salvar" de uma situação que parecia condená-lo desde o primeiro instante e para a qual contribui uma perfeita interpretação de Anton Kouzemin que transparece pelo seu olhar e desconforto todos os males pelos quais passou e que transformaram aquele que é um jovem num homem desgastado pela, e morto para, a vida.
Sem ser directamente um filme sobre a guerra, qualquer que ela seja, Le Cri du Homard é um filme sobre as suas consequências e principalmente sobre a forma como esta continua a matar mesmo quando termina ou quando aqueles que nela participam conseguem fisicamente (apenas) escapar, sendo que psicologicamente estão prestes a explodir ao primeiro sinal de que o mundo que outrora conheceram simplesmente já não existe.
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10 / 10
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