quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Bikini (2014)

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Bikini de Óscar Bernàcer é uma curta-metragem de ficção espanhola que levam o espectador a uma viagem pelos anos 50 do século passado a uma Espanha franquista.
O Alcaide de Benidorm tem um grave problema que sabe apenas poder ser resolvido pelo caudillo. Numa viagem de lambreta até Madrid, Pedro Zaragoza (Sergio Caballero) tenta a sua sorte no palácio onde espera por uma intensa conversa com Franco (Carlos Areces) e Carmen Polo (Rosario Pardo), mulher do general com o fim de permitir que em nome do turismo na região seja permitido o uso do bikini nas praias. Em tempos de crise há que saber inovar.
Num tom de comédia ligeira e muito sóbria, Bernàcer também autor do argumento, constrói uma história divertida e com um humor muito mordaz para com a sociedade espanhola da época que prende o espectador desde o primeiro instante. Ao contrário do ambiente recriado em Bikini - austero e impessoal - esta comédia pretende retirar sorrisos pelos absurdos de situação e contrastes que se fazem sentir nas suas personagens. De um lado um homem desesperado por conseguir fazer do seu mandato algo memorável... Do outro, um homem que deu vida à última ditadura fascista da Europa Ocidental e que representava todo um "exemplo" (podre) de moral e bons costumes. Se para "Pedro" o segredo é conquistar com argumentos irredutíveis o casal - não esquecer que "D. Carmen" é um importante elemento desta história, para ela e para "Franco" o importante é manter uma imagem de moral e bons costumes com os quais o bikini vai interferir "directamente".
Assim, num jogo de aparências e inuendos, aquilo que conta é a utilização da palavra certa, da aparência em contraste com a realidade e a sugestão necessária para garantir que não se entra em nenhum conflito com aquilo que tão acerrimamente defendem no seu dia-a-dia. Numa avaliação mais moderna... que se danem os bons costumes quando não olhando para eles podem entrar rios de dinheiro que sustentem o regime. No fundo... tudo se compra... até a própria moral.
De registo ainda o eterno provincionalismo das ditaduras que consideram que tudo o que fazem ou detêm é melhor do que qualquer modernidade vinda do estrangeiro, aqui representado pela introdução do próprio bikini, das motos estrangeiras ou até de um festival da canção espanhola que, segundo "D. Carmen"... "é bem melhor do que o de San Remo, em Itália".
Bikini é assim uma paródia ligeira mas não inocente ao antigo regime espanhol... Uma forma de através da comédia o criticar e fazer realçar todas as pequenas grandes contradições numa sociedade que se clamava detentora de bons costumes mas que, ao mesmo tempo, violava todas as suas convicções em nome do dinheiro e de um desenvolvimento que se fazia chegar a outras partes do mundo de forma tranquila e não ofensiva. É ainda a história de como as instituições que se clamam sérias, conservadoras e detentoras de uma moral (in)existente se deixam levar - de forma extremamente fácil - pela boa aplicação de um conjunto de palavras sedutoras e que induzindo a sugestão é conquistada pela tranquila normalidade do exterior (que condenou) fazendo crer que toda a inovação partiu da sua própria vontade.
Notáveis as interpretações de Sergio Caballero como o Alcaide propenso à modernidade, bem como as de Carlos Areces e Rosario Pardo como o casal "ditador" com o qual o espectador não consegue deixar de simpatizar - perigosíssima esta simpatia pela ditadura - pela sua assumida postura contraditória desde o primeiro instante não esquecendo, claro está, os elementos técnicos que conferem uma perfeição temporal a Bikini, nomeadamente a direcção artística de Uxua Castelló, a caracterização de Raquel Coronado e o guarda-roupa de Irene Orts, e sem esquecer a direcção de fotografia de Gabriel Guerra que transforma toda a dinâmica desta curta-metragem ao entregar inicialmente um ar de esperança aquando da estadia na praia e um aspecto tenebroso aquando da estadia no Palácio do Pardo, em Madrid sede do poder da ditadura e detentor da "moral".
"Two thumbs up" para Bikini que consegue parodiar a ditadura através da forma como defende algo diferente do que promove e para o génio de Óscar Bernàcer que dirige com rigor uma das melhores curtas-metragens do último ano.
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9 / 10
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