terça-feira, 20 de outubro de 2015

Por Aqui Tudo Bem (2011)

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Por Aqui Tudo Bem de Pocas Pascoal é uma longa-metragem portuguesa que nos conta a história de Alda (Ciomara Morais) e Maria (Cheila Lima), duas irmãs angolanas refugiadas no Portugal de 1980 fugidas da guerra civil que assolou o seu país natal.
Sózinhas em Lisboa, as duas irmãs encontram um conjunto de situações que as deixa não só deslocadas no espaço como numa constante fuga dos inúmeros problemas com que deparam, assim como numa eterna espera pela mãe que ficou detida em Angola. Numa luta pela sua preservação e sobrevivência, Alda e Maria tornam-se mulheres adultas antes do seu tempo como a única forma de resistir aos dilemas que lhes são colocados.
A longa-metragem de Pocas Pascoal chega - apesar dos seus já quatro anos de finalização - numa interessante altura na medida em que faz uma reflexão pertinente sobre o drama dos refugiados de guerra bem como sobre uma ainda não explorada temática como é aquela da descolonização ou, pelo menos, dos seus efeitos imediatos como a guerra civil no caso angolano.
Se por um lado Por Aqui Tudo Bem leva o espectador a uma análise - ainda que por vezes tímida - da vivência na Angola pós-independência devastada pela já referida guerra civil, não é menos verdade que aqui se centra essencialmente nas experiências de duas jovens que afastadas do seu meio e perdidas num mundo completamente novo e diferente tentam resistir e sobreviver apesar das adversidades que chegam sob diferentes formas. Por um lado temos a xenofobia e racismo presente em alguns elementos da dita sociedade portuguesa expressa por comentários de repúdio pela sua presença mas, ao mesmo tempo, não deixa de ser verdade que as próprias "Alda" e "Maria" se sentem estrangeiras num país que deveria - na prática - também ser o seu visto que, aquando do seu nascimento e afastando os dilemas políticas e sociais, Angola também era Portugal. No entanto para elas Portugal é - era - o opressor... Aquele Estado que entrou no seu e roubou e despojou dos seus recursos tendo de seguida saído sem regra ou controle. Não menos verdade, no entanto, que o que ficou não dignificou aqueles que chamou de "seus".
É assim que nesta nova sociedade também ela saída de uma ditadura opressora e destabilizadora, "Alda" e "Maria" tentam encontrar um lugar - o seu - enquanto esperam pela mãe detida pelas autoridades angolanas com a suspeita de ser membro de um dos lados. É esta luta pela sobrevivência que as leva a fugir de um para outro local tentando encontrar um lar que nunca chega. Primeiro numa pensão pouco amistosa, depois num contentor de um qualquer lugar em construção e finalmente como "ocupas" de um prédio na margem sul do Tejo que, como para tantos outros, se transforma naquilo de mais perto podem chamar de seu. Num local desconhecido e sem amigos, as duas irmãs encontram assim refúgio junto de "Alice", uma costureira vinda de Angola que acaba por encarnar os dois lados de uma mesma moeda, ou seja, se inicialmente é amistosa e as acompanha para aquela que poderá ser a sua nova etapa, não é menos verdade que rapidamente mostra um seu lado mais escuro e sombrio desprezando as duas jovens como se elas fossem um seu inimigo ou uma vã recordação do tal passada que também ela havia deixado em Luanda. Perseguidas por aquele que é agora o seu país e perdidas num que o fora, as irmãs estão num limbo que não lhes permite encontrar qualquer segurança... e Portugal acaba por se transformar nesse mesmo limbo. Deixou-as entrar para escaparem de uma guerra que lhes daria um destino igual ao dos pais - mãe detida e pai desaparecido - mas ao mesmo tempo não as reconhece como integrantes desta sociedade que agora se preparava para das os seus primeiros passos europeus.
É neste processo que ambas descobrem não só a sua sexualidade como a eterna amizade que sempre as irá unir independentemente do local em que se encontrem como principalmente lhes mostra que são mulheres livres, adultas, independentes e capazes de resistir à maior das provações... que é a própria vida.
Num processo que as coloca - e aos demais jovens a que se referem que vieram para Portugal para fugir ao serviço militar e à guerra civil - como refugiadas dentro de um país que fora seu - ou que deveria ter sido pela situação política de Angola enquanto parte integrante de Portugal à altura do seu nascimento - Por Aqui Tudo Bem tenta mostrar o lado sombrio de todo este processo que nunca reconheceu os seus cidadãos nascidos nas antigas colónias - o que as teria deixado numa situação de igualdade para com aqueles que no território europeu nasceram - mas também esse mesmo lado sombrio na África de origem onde seriam perseguidas devido ao "lado" da guerra no qual se "encontravam". Este tal limbo demonstra que nunca tem um fim.
No entanto o momento mais enigmático de Por Aqui Tudo Bem - e infelizmente aquele que acaba por não ser mais explorado - chega após as duas jovens terem já abandonado o apartamento que ocuparam e que é então ocupado por outro homem. Se associarmos este momento ao eterno dilema das irmãs que não sabem do paradeiro do seu pai, o espectador questiona-se se este homem que agora aparece não poderá ser esse progenitor desejado e que agora por uma trágica ironia do destino continua "desaparecido" para as filhas.
Em suma, Por Aqui Tudo Bem recupera o imaginário do pós-descolonização portuguesa que tão timidamente tem surgido na indústria televisiva/cinematográfica nacional e sobre os milhares de vidas que afectou de uma ou outra forma tendo, no entanto, transformado radicalmente cada uma delas. Da descolonização à guerra civil, do racismo e xenofobia aos estigmas deixados de parte a parte sem esquecer que todos estes elementos se conjugam no seio da vida de duas jovens em plena auto-transformação da adolescência pueril à idade adulta onde todas as decisões têm de ser tomadas e formalizadas.
De forma inocente mas pessoal, Por Aqui Tudo Bem assume-se como uma obra cinematográfica que deverá ser considerada pelo público e que poderia (poderá) ser a primeira de muitas que abordem esse passado ainda desconhecido da História de Portugal e de Angola.
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7 / 10
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