sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Iedereen Beroemd! (2000)

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Todos São Famosos! de Dominique Deruddere foi a longa-metragem da sessão de abertura da segunda edição do Cinema Bioscoop - Festival de Cinema da Holanda e da Flandres que se inicia agora no Cinema São Jorge e na Cinemateca em Lisboa.
Através de um argumento também ele escrito por Deruddere, este filme conta-nos a história de Jean (Josse De Pauw), um homem preocupado com a sua família e que trabalha enquanto operário fabril enquanto alimenta os seus sonhos de uma carreira musical para a sua filha Marva (Eva van der Gucht) através das canções que ele insistentemente lhe compõe. Esta, por sua vez, participa incansavelmente em pequenos concursos locais de música nos quais canta um ou outro êxito, no entanto Jean insiste que a fama irá chegar quando ela cantar na sua língua materna e um pouco mais afinada.
Quando Jean é despedido da fábrica e se sente envergonhado por não poder manter um nível de vida, ainda que precário, decide aproveitar as inesperadas oportunidades que tem e raptar a cantora mais famosa do país, exigindo assim um curioso resgate em nome da sua família. No entanto, quando a situação lhe foge das mãos, Jean vê-se uma vez mais à disposição das vontades alheias e, como tal, esperar que o futuro lhe reserva um dia algo de bom... mas esse dia estará para breve!
Deruddere faz-nos emergir num mundo que quase aparenta ser alternativo e onde os sonhos por mais irreais que possam parecer constituem a maior fonte de esperança que aquelas quase bizarras personagens anseiam por ter. Num misto real doloroso demais para se encarar como o último reduto, todos eles, sem excepção, desejam um pouco mais para as suas tristes e solitárias vidas. Algo melhor, longe do pequeno meio que habitam e que possivelmente lhes possa proporcionar um pouco mais quer de estabilidade quer de alegria e concretização pessoal. No entanto, sem confessar e no seu mais profundo íntimo todos eles sabem que isso será difícil de alcançar. Quer seja uma vida melhor como representado pelo caso de "Jean" e de "Marva", quer seja através de alguém por quem nutram amor, e que este seja mútuo, como "Willy" e "Debbie" denotam, todos procuram algo que transforme as suas vidas.
No fundo, é esta a principal mensagem que o argumento de Deruddere nos quer transmitir... acreditar no impossível e com ele transformar o sonho em realidade. Concretizar pequenos ideais, sonhos ou desejos que normalmente apenas ficariam no subconsciente de cada um, adormecidos e esquecidos como que de uma memória longínqua se tratassem. A luta pelo sonho e por algo melhor é feita, no entanto, ao som de uma interessante banda-sonora que revisita alguns êxitos dos anos 80 do século passado bem como um universo muito alternativo dos concursos de canções mais ou menos populares e onde o vencedor parece, à partida, já estar escolhido mesmo antes de toda a competição se iniciar. E é este mesmo imaginário que compõe um pouco das personalidades das personagens em causa e que nos revela que por muito extravagantes que possam aparentar ser os sonhos dos outros, também eles podem ter, um dia, a sua concretização... mesmo que provenham do mais inesperado dos intervenientes ou da forma menos plausível ou imaginada.
O sonho, esse sim, pode ser uma realidade. Ou melhor, o sonho pode ser "A" realidade que sempre esperámos ter e que por um ou outro motivo nunca se concretizou mas que numa dada altura, e através de um conjunto infindável de estranhas coincidências se torna cada vez mais próximo de acontecer. E quando tal milagre se concretiza não existe momento mais mágico, oportuno e redentor como aquele onde finalmente cada um pode passar da imaginação e visualizar aquilo para que esteve sempre destinado. O seu futuro... não é ele feito de sonhos?!
Por muito excêntricas que possam aparentar ser as personagens, este filme e a sua história não pediam algo menos do que a personalidade que lhe é entregue por dois excelentes actores como são Josse De Pauw e Eva van der Gucht (até aqui perfeitos desconhecidos para mim), mas que mostram o quão urgentemente precisam ser descobertos, e que são eles a vida e o fogo que esta história precisa para ser contada devendo-se a eles boa parte de tudo aquilo que temos vindo deste filme. Mas eles não são os únicos e Werner De Smedt como "Willy", o fiel amigo que nunca abandona "Jean" é também ele uma força motora do mesmo como alguém que embora constantemente enganado não desiste de vir a encontrar a sua cara metade e poder assim considerar-se completo.
Graças a uma emocionante e muito ritmada música original de Raymond van het Groenewoud que recupera muito do espírito dos anos 80 e um certo imaginário da época que vem depois ser aumentada pela direcção de fotografia de Willy Stassen, enquanto assistimos a este filme damos por nós inseridos na época e no espaço pelos quais somos imediatamente contagiados e percebemos facilmente o quão justa foi a nomeação ao Oscar de Filme Estrangeiro que o mesmo proporcionou à Bélgica.
Este é sem dúvida um enérgico e bem disposto filme que precisa ser urgentemente descoberto e o Bioscoop de 2013 não poderia ter começado de melhor forma ao contar-nos uma história repleta de personagens que procuram ser alguém maior e com mais ambições do que aquelas que o modesto meio de onde provêm lhes pode, aparentemente, proporcionar.
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8 / 10
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