sexta-feira, 18 de julho de 2014

Anjo (Negro) (2014)

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Anjo (Negro) de Pedro Horta é uma curta-metragem portuguesa de ficção que teve a sua antestreia na II Mostra de Cinema da Peace and Art Society que decorreu em Faro a 11 de Julho último.
Ana (Sofia Reis) ensaia a sua dança ao som do Lago dos Cisnes. Ao mesmo tempo que treina os seus passos emociona-se com as gravações que vê no computador e que despoletam nela um conjunto de sentimentos e sensações que adivinham uma rápida entrada num abismo.
Conseguirá Ana encontrar o equilibrio necessário para (sobre)viver com esta amálgama de emoções?
Este novo trabalho de Pedro Horta, que se prepara para a estreia da sua primeira longa-metragem O Que os Olhos Não Vêem, tem alguns sinais que nos remetem para os locais de inspiração do realizador nomeadamente a obra The Ring e Black Swan criando as suas atmosferas de terror (no primeiro caso) e de instabilidade psicológica (no segundo) que dão ao mesmo tempo uma vida e o seu próprio espaço a esta curta-metragem.
À medida que Anjo (Negro) inicia a sua viagem, o som da música de Tchaikovsky remete-nos de imediato para o imaginário do Lago dos Cisnes e para a sua memória cinematográfica mais recente, o já referido Black Swan. Assistimos aos ensaios de "Ana" ao mesmo tempo que somos levados a reparar em pequenos indícios de que algo de estranho, ou pelo menos invulgar, decorre naquele espaço. Enquanto treina reparamos que todos os objectos mais significativos que podem conter o reflexo da sua própria imagem estão cobertos; a televisão... os espelhos, nenhum deles espelha a imagem de "Ana" que se contenta em treinar fazendo pausas apenas para olhar um pouco mais para os vídeos enquanto o espectador fica com a ligeira sensação de que o seu estado psicológico está prestes a quebrar. A juventude já passou por "Ana" e enquanto ela observa aquela dança para a qual percebemos muito se ter aplicado, sentimos que o seu próprio tempo de a executar com mestria já passou e, mais significativo ainda, é perceber que a própria sabe que por muito que tente a sua oportunidade é já uma ilusão.
O símbolo maior temo-lo com a rosa que murcha aos poucos. Sendo sempre uma constante, pois "Ana" é ainda uma mulher jovem, sabemos que o primor da idade já foi ultrapassado e que com ela tantas oportunidades foram, injustamente, para si tornadas proibidas ou algo de um passado que parece agora estar cada vez mais distante e difícil de repetir. É então aos poucos que percebemos que a sua estabilidade mental começa a ruir quando deparamos com imagens das suas recordações e de um romance que não se cumpriu, de uma maternidade que não teve e de todo um esplendor que desapareceu rapidamente com o passar do tempo sem que ela própria se desse conta que lhe fugia por entre os dedos.
É então que por entre as quatro paredes daquela casa um estranho ser, feito à sua própria imagem, a acompanha, numa clara alusão novamente a Black Swan, que mais não é do que a fragmentação da sua própria personalidade; aquela mais activa e capaz de agarrar o seu próprio futuro em clara oposição com a imagem que tem de si no presente, mais frágil, susceptível de ceder e sem a iniciativa que em tempos havia conseguido ter para com os seus próprios projectos. A mente afectada de "Ana" consegue criar uma inibição à sua própria vontade e, por sua vez, à sua própria continuidade na medida em que a própria parece querer atentar contra a sua vida e integridade física num primeiro segmento que coloca o espectador numa linha muito ténue entre a loucura e a sanidade que nos dificultam saber qual o rumo que "Ana" irá dar ao seu próprio destino.
É quando percebemos que a sua mente já ultrapassou aquele limite do racional que entramos num segundo momento de Anjo (Negro) que nos leva mais para a alucinação do seu "eu" e não tanto para a exploração dos factores que a levaram àquele estado e que apenas permitem ao espectador tecer as suas próprias conclusões sobre o passado de "Ana". Temo-la como uma mulher perdida no tempo, que deixou escapar (ou nunca alcançou) os sonhos e os desejos de uma juventude, independentemente do trabalho que para eles dedicou. Temo-la como uma mulher abandonada, entregue à solidão, à incomunicabilidade e de certa forma à sua própria loucura. Ao desejo de ser mais do que aquilo que conseguiu ser num claro conflito entre a vida e a morte, entre a possibilidade e a sua impossível concretização numa eterna dualidade.
Ainda que Pedro Horta e Sofia Reis, autores do argumento, tenham criado uma história com claras referências cinematográficas já aqui abordadas, Anjo (Negro) não deixa de ser uma curta-metragem interessante pelo rumo próprio com que "vive" entre a loucura e a lucidez, e pelas inúmeras possibilidades com que deixa o espectador a viver aquela história sobre a forma como o passado condiciona o presente e limita o próprio futuro.
Interessante o registo interpretativo de Sofia Reis que consegue transformar a sua "Ana" numa mulher cuja mente cedeu algures nos tempos por um conjunto de factores que não sendo totalmente explorados permitem ao espectador fazer a sua própria interpretação, e principalmente pelo registo livre mas fiel de alguém que perdeu a sua lucidez tendo, no entanto, de conviver não com a sua ignorância mas sim com a sua total percepção.
No entanto, Anjo (Negro) tem também um elemento que considero moderar o suspense e o efeito surpresa na sua narrativa que se prende com os efeitos sonoros perfeitamente dispensáveis ao longo da curta. Se por um lado a música existente cria o seu próprio espaço, estes efeitos contínuos inibem em diversos momentos chave o sentimento de claustro e de "prisão" psicológica que deveríamos sentir por parte de "Ana" e que são tendencialmente mais presentes na segunda metade da curta. Desejamos os silêncios que nos entregariam uma perspectiva mais inibidora, e talvez até mais intimidante, da sua mente aprisionada e que transformariam o próprio espaço físico numa prisão de porta "aberta".
Anjo (Negro) é assim uma curta-metragem que tendo referências cinematográficas explícitas consegue encontrar o seu próprio caminho e estabelecer um primeiro segmento muito interessante que nos permite pensar livremente sobre "Ana", e um segundo momento que não sendo tão trabalhado consegue, no entanto, criar uma promissora atmosfera do género "fantástico".

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7 / 10
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