domingo, 1 de outubro de 2017

Contratiempo (2016)

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Contratiempo de Oriol Paulo é uma longa-metragem espanhola e a mais recente obra do argumentista de Los Ojos de Julia (2010), de Guillem Morales.
Adrián Doria (Mario Casas), é um bem sucedido empresário agora acusado de ter morto Laura Vidal (Bárbara Lennie) a sua amante. Numa noite em que tudo tem de ser esclarecido fazendo cair todas as dúvidas, Doria tem apenas três horas para revelar os seus mais íntimos segredos a Virginia Goodman (Ana Wagener), uma experiente advogada que pode ser a sua última solução.
Numa corrida contra o tempo onde mentira e verdade se cruzam, conseguirá Adrián contar todos os seus segredos e finalmente revelar o que aconteceu naquele misterioso quarto de hotel?
Habituado que está o espectador a estas histórias escritas e criadas por Oriol Paulo - recordemos todos os inuendos e caminhos misteriosos pelos quais nos levou o já mencionado Los Ojos de Julia -, Contratiempo dá corpo à sua trama partindo logo do imediato que se está a presenciar uma história onde os inocentes parecem ou ter perdido ou estar prestes a ser condenados por actos violentos dos quais foram incriminados. Para o espectador, quanto mais mirabolesca aparenta ser a história de defesa de um "Adrián" que tem tudo para viver a vida perfeita, mais perto está não só da sua inocência como de uma eficaz resolução de um engodo que o parece ter levado àquela situação. No entanto, e à medida que a verdade dos factos começa finalmente a ser revelada, o espectador depreende que "Adrián" não é tão inocente como quer aparentar mas, ao mesmo tempo, assume que a sua culpabilidade não é necessariamente para com o crime do qual é acusado. Num momento em que nada é como aparenta ser, Contratiempo presenteia o espectador com doses bem controladas de informação que se quer frente aos seus olhos mas, ainda assim, pouco esclarecedora para adensar tudo aquilo que apenas perto do final se descobre enquanto "real".
O ritmo a que as duas personagens principais se defrontam - por um lado uma experiente advogada que apenas quer a verdade dos factos vinda do cliente que representa e treina e do outro o próprio cliente, vítima de uma sucessão de acontecimentos que o poderão condenar a uma vida na prisão -, é intenso. Com uma sentida oscilação no seu comportamento, esta relação passa de fria e distante (principalmente por parte de "Virginia") a interessada e cada vez mais confiante (por parte de "Adrián"), transformando-os em cúmplices interessados naquilo que cada um pode oferecer ao outro. O "Adrián" de Mario Casas é um tipo controlado, descontraído dentro da devastadora situação em que se encontra e, ao mesmo tempo, interessado em lentamente revelar a sua história e o que sucedeu que o tenha levado até àquele momento. "Virginia" é uma mulher confiante, determinada e disposta a provocar as mais intensas sensações num homem pelo qual não nutre qualquer empatia mas que se dispôs a defender e salvá-lo de uma vida em cativeiro. No entanto, a meio caminho desta viagem, surge uma inesperada pergunta na mente do espectador... será que estas duas personagens são assim tão inocentes como querem aparentar? Não existirão motivos alternativos na dinâmica que criam?
Lentamente, mas sempre num crescendo que apenas se torna evidente no segmento final - apesar das pistas fornecidas -, Contratiempo expõe os dois como partes interessadas num crime cometido... No entanto, estaremos nós a analisar aquele que é o crime principal? Num constante reescrever dos factos e numa assumida luta de egos, tanto "Adrián" como "Virginia" desdenham secreta e silenciosamente a postura assumida pelo outro esperando levar a sua versão dos factos a bom porto, não se expondo, não se revelando e principalmente mantendo a imagem - para o espectador e para a sua respectiva sociedade - que levaram tempo a construir e criar. No final de uma dinâmica que finalmente os expõe o espectador apenas mantém na mente uma única questão... onde estão as verdadeiras vítimas que foram, em boa medida, por si ignoradas durante estes mais de noventa minutos? Preocupados que estivera na dinâmica destes dois e nos factos que ambos queriam forçosamente revelar - ela - e ocultar - ele -, os verdadeiros protagonistas foram esquecidos como meros peões num tabuleiro de xadrez cujo jogo ainda não acabou.
Se a dinâmica criada entre Ana Wagener e Mario Casas é inicialmente diplomática e finalmente o suficientemente agressiva para incomodar os respectivos egos, é também o espectador que toma parte nesta dinâmica colocando-se (à vez) junto àquele que supõe estar detentor de uma qualquer razão... afinal, se esta mulher está ali para o influenciar na sua história e evitar uma potencial condenação... porque motivo será tão agressiva? Por sua vez, se ele a tem para a sua defesa... porque está tão reticente a revelar todos os factos tal como eles ocorreram?! Num engodo que percebemos ter mais por revelar do que aparenta, Contratiempo e os seus inuendos entrenham-se no espectador que vibra de forma intensa à medida que cada minutos passa na sua narrativa.
Oriol Paulo volta a criar uma história cheia de pequenos detalhes que inicialmente escapam ao espectador habituado que está a olhar apenas para os factos relatados enquanto momentos de uma história que ainda não terminou. É apenas quando se resolve a olhar para lá daquilo que a câmara capta que se descobrem pequenos detalhes e elementos que revelam as intenções de cada um, os destinos dos que passaram e, possivelmente, também aqueles dos que permanecem incólumes na sua condição. Assumindo que todos - ou nenhum - são inocentes, Paulo constrói uma história que permite ao espectador ser participante na investigação - afinal, também ele se preocupa a analisar os testemunhos e as pequenas falhas ou omissões que são deliberadamente ali colocadas -, fazendo de Contratiempo um thriller intenso e apaixonante que nos agarra desde os primeiros instantes.
Mas, no entanto, se o argumento é de primeira linha, é a composição das suas personagens que lhe dá corpo... sendo que a alma é gentilmente transportada por duas intensas interpretações a cargo de Mario Casas e Ana Wagener. Casas vive em Contratiempo, do seu ar de yuppie bem sucedido a quem aconteceu uma fatalidade pelo caminho. Alguém está a querer prejudicá-lo propositadamente e o espectador empatiza imediatamente com a possibilidade de existir alguém que queria destruir uma vida bem sucedida. Com a sua falha evidente de manter uma relação extra-matrimonial, o seu "Adrián" é, no fundo, um qualquer nosso amigo por quem temos estima e simpatia e queremos acompanhar nos momentos bons da sua vida. Mas é a "Virginia" de uma intensa Ana Wagener que tráz o espectador de volta à realidade... poderá alguém tão "limpo" ter um passado ou um fundo mais negro? Poderá toda a aparente transparência de alguém ser, afinal, um engodo bem elaborado para que nunca levante suspeitas? Existirá algo por detrás de um jovem homem bem sucedido? A sua calma, distância e frieza apenas contrastam com a controlada loucura que os seus instantes iniciais aparentam revelar. As suas motivações - que para os mais atentos vão sendo reveladas aos poucos ao longo desta história -, são incompreensíveis para os menos atentos mas, no entanto, válidas e até morais para aqueles que a compreendem desde cedo. Wagener é uma força contida e sem margem para dúvida uma "alma" não só para a sua personagem como principalmente para toda esta história onde os factos escasseiam e apenas o impulso pode revelar o que afinal acontecera dentro do quarto de hotel em que "Laura" morreu e o que os levou - anteriormente - até ao mesmo.
Intenso e construído sob a forma de um labirinto incapaz de ser ultrapassado num ambiente adensado com uma brilhante direcção de fotografia de Xavi Giménez que lhe dá uma atmosfera de policial negro onde nem tudo é como quer aparentar, Contratiempo é um magnífico filme de acção com um fundo dramático que anseia por ser explorado e um dos fortes exemplos da vitalidade do cinema comercial de nuestros hermanos. Composto, bem escrito, com fortes interpretações cheias de pequenas e mais ou menos involuntárias nuances bem como a capacidade de manter o espectador num eterno suspense, Contratiempo prende-o a partir daquele primeiro momento em que as imagens se iniciam no grande ecrã.
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8 / 10
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