quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Supercut (2017)

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Supercut de Jesús Choya Zataraín é uma curta-metragem espanhola de ficção de um jovem realizador que aqui conta uma pequena grande história sobre o poder de uma amizade de infância que, lentamente, deu lugar a um amor não confessado.
Quando Lucas (Jesús Choya Zataraín) se prepara para sair da terra onde sempre viveu, pede a Alejandro (Carlos Palencia), um amigo de infância para que com ele grave alguns dos locais que marcaram a sua adolescência. Entre histórias e memórias... um segredo está prestes a ser revelado.
Realizador, escrito e interpretado por Choya Zataraín, este breve mas emotivo Supercut revela uma planificação madura e firme nas intenções do jovem realizador. Com as esperadas turbulências de um vídeo semi-familiar onde dois amigos revisitam os locais onde a sua amizade fora cimentada, esta curta-metragem espelha na sua planificação uma maturidade de ideias e de conceitos que tantas vezes faltam em inúmeras obras do género. Aqui, temos não só o tradicional registo familiar como também aquele da amizade, da cumplicidade e até, percebemos, de um amor não confessado mas construído com o passar dos anos e de uma empatia que se confirmou como algo mais afectivo e sentimental.
Supercut, em breves momentos, consegue apresentar duas firmes personagens. "Lucas" e "Alejandro" conhecem-se - possivelmente - desde muito jovens (sendo ambos ainda dois jovens prestes a abandonar a sua adolescência), confirmando que ambos estão naquele momento individual em que resultam de uma série de cumplicidades e momentos que ambos experimentaram e viveram em comum e que todos aqueles pequenos sinais - para os demais - mais não são do que confirmação mútuas de que ambos "estiveram lá" no crescimento do "outro". Mas, a certo momento, quando "Lucas" se prepara para deixar aquele espaço que, no fundo, sempre foi o seu, o espectador questiona-se - sendo depois confirmado - se não existirá algo mais para lá da amizade que compreendemos e testemunhamos.
A sensibilidade e o cuidado com que o espectador regista e presencia a evolução de sentimentos - da amizade e da cumplicidade a um despertar afectivo e sentimental que precede o amor -, revela uma idêntica sensibilidade por parte do jovem realizador em transformar esta video-memória da personagem que interpreta num filme nobre onde se expõem os sentimentos de uma personagem que ousa dar a conhecer os seus sentimentos por aquele com quem partilhou grande parte da sua jovem vida como - sendo sua directa consequência - retirar do "outro" - interpretado por Palencia - uma potencial confirmação de que esses sentimentos não foram apenas vividos em segredo por um deles.
Com a confirmação - ou não - desta experiência sentimental em comum, é deixado ao espectador a ideia de que existe uma cumplicidade extrema, que ambos não só viveram como se "formaram" enquanto jovens adultos, como as mesmas vivências, com os mesmos espaços e com as mesmas partilhas transformando-os (em certa medida) num elemento único que se desenvolveu - evidentemente - por dois caminhos opostos.
Permanece igualmente para o espectador a confirmação de que estes dois caminhos vividos em comum chegam, agora, a uma bifurcação que os irá separar. Não sabemos se se voltarão a encontrar ou tão pouco se esta amizade irá resistir à separação e à distância. No entanto, confirmamos que ficará para sempre o registo da cumplicidade tida até então e de que foram (ambos) elementos fundamentais não só na vida um do outro como principalmente no adulto em que se irão transformar. Assim, sensível na revisitação do espaço - que irá ter para sempre um significado especial para ambos -, como também na confirmação de uma história sobre sentimentos e afectividades, Supercut marca um simpático e emocionante registo cinematográfico deste jovem realizador que (esperemos) regresse ao formato com mais histórias por contar.
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7 / 10
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