quarta-feira, 13 de abril de 2016

Prémios Gopo 2016 - Academia Romena de Cinema: os vencedores

..
Filme: Aferim!, de Radu Jade (real.) e Ada Solomon (prod.)
Primeira Obra: Lumea e a Mea, de Nicolae Constantin Tanase
Documentário: Aliyah Dada, de Oana Giurgiu (real) e Tudor Giurgiu (prod.)
Prémio do Público: Aferim!, de Radu Jude
Filme Europeu: Leviafan, de Andrey Zvyagintsev (Rússia)
Curta-Metragem de Ficção: Ramona, de Andrei Crețulescu
Curta-Metragem Documental: Chat with Alice, de Sandra Isabela Tent
Realizador: Radu Jude, Aferim!
Actor Protagonista: Teodor Corban, Aferim!
Actriz Protagonista: Ioana Flora, Acasa la Tata
Actor Secundário: Alexandru Dabija, Aferim!
Actriz Secundária: Mihaela Sîrbu, Aferim!
Intérprete Revelação: Ana Maria Guran, Lumea e a Mea
Argumento: Radu Jude e Florin Lazarescu, Aferim!
Montagem: Catalin Cristutiu, Aferim!
Fotografia: Marius Panduru, Aferim!
Música Original: Alexander Balanescu, Muntele Magic
Direcção Artística: Augustina Stanciu, Aferim!
Guarda-Roupa: Dana Paparuz, Aferim!
Som: Momchil Bozhkov, Dana Lucretia Bunescu e Cristinel Sirli, Aferim!
Caracterização: Petya Simeonova, Bianca Boeroiu e Domnica Bogodan, Aferim!
Carreira: Florin Piersic
Carreira: Constantin Draganescu
Prémio Especial: Paul Fister
Prémio RSC: Marius Panduru
.
.

Le Goût des Autres (2000)

.
O Gosto dos Outros de Agnès Jaoui é uma longa-metragem francesa e a vencedora do César da Academia Francesa de Cinema de Melhor Filme do Ano.
Três homens e três mulheres. Castella (Jean-Pierre Bacri) é um industrial algo rude enquanto Bruno (Alain Chabat) e Franck (Gérard Lanvin) são os seus dois guarda-costas agora que pretende estabelecer um negócio com uma empresa iraniana. Clara (Anne Alvaro) é actriz e professora de inglês, Béatrice (Brigitte Catillon) é a mulher de Castella e uma decoradora de interiores algo frustrada, e Manie (Agnès Jaoui) é uma barmaid que vende haxixe.
Num ritmo de encontros e desencontros onde as possibilidades de uma vida diferente se equacionam momentaneamente, poderão estas vidas encontrar o amor nos seus opostos?
Este vencedor do César de Actor e Actriz Secundários e Argumento bem como nomeado ao Oscar de Filme Estrangeiro pretende ser uma comédia com leves toques dramáticos sobre as relações humanas e as suas impossibilidades. O que move os indivíduos a aproximarem-se quando tudo parece poder afastá-las e, numa mais pensada análise, o que realmente leva duas pessoas a encontrarem um ponto comum de entendimento que as leve a trilhar uma vida em comum?
Num ritmo de silêncios e alguns comportamentos adversos, todos eles - homens - procuram algo que elas - mulheres - parecem não estar disponíveis para entregar. A impossibilidade de serem feitas cedências a algumas expectativas deles leva ao seu afastamento progressivo e a alguma necessidade de uma liberdade que parece, até então, perdida. "Castella" é um homem algo rude e que se percebe ter subido a pulso contra as expectativas de quem o rodeava e casado com "Béatrice", uma mulher vinda de um meio diferente do seu mas que nunca fez nada na vida por estar num casamento que a sustenta. Pela necessidade é um eventual trabalhador desde jovem e a sua educação - instintiva e académica - ficaram para um segundo plano. "Castella" encontra em "Clara" uma existência boémia, uma vida sem grandes regras e presente num meio cultural que lhe "faltou" e, como tal, a oportunidade de poder voltar a sentir. No então "Clara" apresenta-se como uma mulher amarga, cheia de si própria e para quem as investidas de um "Castella" encantado mais lhe parecem como desprestigiantes para o seu ser.
No lado oposto desta pirâmide socialmente privilegiado encontramos "Manie", "Bruno" e "Franck". Os dois primeiros cruzam-se num bar onde é confessado que já partilharam a mesma cama. "Bruno" não se recorda vivendo os problemas de uma relação não correspondida. É através dele que "Franck" conhece "Manie" e que com ela estabelece uma relação sexual que aos poucos parece desenvolver para algo mais, percebendo-se que os problemas de um começam a afectar o outro. Mas, no final, a grande questão para todos eles coloca-se... Poderá existir uma vida em comum quando aparentemente apenas uma das partes luta para que tal aconteça? Conseguirão estes homens resistir a um conjunto de mulheres que estão por demais centradas em si próprias e incapazes de criar uma qualquer empatia sentimental com quem já demonstrou ter aberto o seu coração?
Agnès Jaoui - realizadora e intérprete - estabele com Le Goût des Autres uma interessante reflexão sobre as relações; não sobre ela propriamente dita mas sim sobre os mitos de que são os elementos masculinos de uma relação os primeiros a tentar sair ou depositar pouca relação e empenho na mesma demonstrando que num mundo de igualdade de género esta tentativa de "fuga" pode encontrar-se expressa em ambos os sexos. Ao mesmo tempo, Jaoui tece ainda uma interessante reflexão sobre a dependência afectiva masculina que parece subsistir apenas no seio de uma relação sentimental a dois encontrando-se - for dela - perdido sem um rumo aparentemente definido como se de uma criança à procura de um apoio maternal. Mais, Jaoui demonstra também a incapacidade de alguns indivíduos em expressarem os seus sentimentos graças a uma indisponibilidade sentimental ou também por um desdém sócio-económico e até mesmo cultural que os distancia dos demais criando aparentes incompatibilidades ou mesmo aversão como aqui nos é demonstrado na potencial relação - ou falta dela - entre "Castella" e "Clara".
Longe de ser um filme memorável e até um "improvável" receptáculo do título de "melhor do ano", Le Goût des Autres consegue ter algumas interessantes interpretações que pela sua proximidade ou distância do real cativam o espectador pela sua exuberância e caracterização de tantos de "nós" e por serem, de forma geral, inadaptados num mundo dito sentimental que, para o bem ou para o mal, ainda não os encontrou. Assim, e no seio de um conjunto de incompatibilidades e mundos opostos, Le Goût des Autres versa sobre as falhas nas e das relações, aquelas que nunca se iniciam e aquelas que - um dia - encontram o seu final quer seja através de um distanciamento, aversão ou a compreensão de que os caminhos que antes eram partilhados encontraram, algures pelo seu percorrer, novos desvios que teriam de ser experimentados.
.

.
5 / 10
.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Academia Helénica de Cinema 2016: os vencedores

.
Filme: Tetarti 04:45, de Alexis Alexiou
Documentário: Exotica, Erotica, Etc, de Evangelia Kranioti
Filme Estrangeiro: The Lobster, de Yorgos Lanthimos (Irlanda/Reino Unido)
Curta-Metragem: Fig, de Nikolas Kolovos
Realizador: Alexis Alexiou, Tetarti 04:45
Realizador Revelação: Yorgos Zois, Interruption e Evangelia Kranioti, Exotica, Erotica, Etc
Actor: Stelios Mainas, Tetarti 04:45
Actriz: Vangelio Andreadaki, Smac
Actor Secundário: Minas Hatzisavvas, Another World
Actriz Secundária: Vasiliki Troufakou, Ouzeri Tsitsanis
Argumento: Efthimis Filippou e Athena Rachel Tsangari, Chevalier
Montagem: Lampis Charalampidis, Tetarti 04:45
Fotografia:
Christos Karamanis, Tetarti 04:45
Música Original: Yiannis Veslemes (Felizol), Tetarti 04:45
Direcção Artística: Spyros Laskaris, Tetarti 04:45
Guarda-Roupa: Anna Macherianaki, Ouzeri Tsitsanis
Som: Aris Athanasopoulos, Avi Mizrahi e Gil Toren, Tetarti 04:45
Caracterização: Nabil Salame, Ouzeri Tsitsanis
Efeitos Visuais e Inovação Cinemática: Ippokratis Chalas, Mihalis Samiotis, Alaxouzi Brothers e Dani Cohen, Tetarti 04:45
Carreira: Vanessa Redgrave
.
.

8 Mile (2002)

.
8 Mile de Curtis Hanson - o mesmo realizador de Bad Influence (1990), The Hand that Rocks the Cradle (1992), The River Wild (1994), L. A. Confidential (1997) pelo qual venceu o Oscar de Melhor Argumento Adaptado, Wonder Boys (2000) e In Her Shoes (2005) - é uma longa-metragem norte-americana vencedora do Oscar de Melhor Canção Original.
B-Rabbit (Eminem) é um jovem rapper numa constante luta pessoal em todos os aspectos da sua vida. Não só vive no limiar da pobreza com uma mãe alcoólica (Kim Basinger) que encontra conforto num qualquer homem que surge no seu caminho (Michael Shannon), como também é o principal guardião da sua irmã ainda criança, não tem um emprego estável, nem namorada e o único alento da sua vida são o restrito grupo de amigos que fielmente o acompanha e um sonho... poder viver da sua música.
As comparações entre a história de "B-Rabbit" com a do próprio Eminem são óbvias e evidentes. Para o espectador é impossível visionar este filme e não conseguir estabelecer e encontrar um sem fim de semelhanças entre ambos e ver um reflectido no outro. As vidas problemáticas em subúrbios desolados onde a miséria se apodera e consome o dia-a-dia de um sem número de pessoas que em tempos tentou lutar contra a sua própria extinção mas que eventualmente se renderam ao fracasso dos seus sonhos, sem esquecer que este mesmo sonho é, por vezes, não só difícil de concretizar como principalmente até de o ter, são as dinâmicas principais de uma história que, em última análise, vive mais do mediatismo do seu actor/cantor principal do que propriamente da história em si que, em boa medida, não só já foi muito filmada como com contornos com os quais uma larga maioria dos seus espectadores se pode identificar para lá de um certo nicho com os mesmos sonhos e aspirações.
Na prática o que temos de 8 Mile não é nada de novo para lá do que já esperamos... Um tipo a quem a vida nunca sorriu, que viveu uma adolescência com sonhos grandes demais para lá daquilo que lhe estava "reservado" enquanto uma possibilidade e um grupo de amigos que, ainda que fiéis, não podem ajudá-lo a concretizar os objectivos com os quais toda a vida sonhou. O sonho é uma constante... Aquele de uma vida melhor, de uma casa melhor, de algum respeito que os seus pares lhe têm negado por ser de origens que o envergonham e, no fundo, a garantia de uma vida onde a escassez e os problemas de um qualquer despejo sejam apenas fruto de uma imaginação passada.
Se tivermos este conjunto de ideias em mente... todo o filme acaba não só por confirmá-las como estar visto... sem ser necessário grande esforço intelectual. 8 Mile é, para mim, um filme simpático de sábado à tarde... Um daqueles que sabemos ir momentaneamente distrair-nos e perceber/esperar que o sol pode sorrir a todos - mesmo àqueles cujas origens e meios roçam o limiar de uma miséria social e económica absoluta - mas apenas nos Estados Unidos onde todos os sonhos parecem ainda ser possíveis.
E por "filme simpático" reforço que não passa disso. Longe de uma longa-metragem desinteressante, 8 Mile não consegue ter o fogo de outras obras de Curtis Hanson como a tensão filmada daquelas dos anos 90 ou o "coming of age" sentido em Wonder Boys ou In Her Shoes. Aliás, Curtis Hanson pode dar graças pelos últimos instantes de 8 Mile onde um "B-Rabbit" agora vitorioso e que consegue finalmente ver o seu sonho concretizado mas que, no entanto, não espera que naquele momento todo o céu seja "agarrado" limitando-se a perceber que tudo é possível mas que as suas responsabilidades falam mais alto e o obrigam a descer à terra e lutar por uma vida diferente daquela que em tempos imaginara. São estes instantes finais que na minha opinião conseguem criar uma empatia entre espectador e personagem para lá da fanfarronice e lugares comuns que o género "poor kid gets is chance" normalmente entregam, mostrando que a tranquilidade é alcançada quando se pacifica o Homem com o espaço aceitando as suas limitações e compreendendo as suas oportunidades.
Eminem, de e para quem 8 Mile está totalmente direccionado, agarra o filme e este é, de facto, seu... mas se o espectador pensar realmente naquilo que viu e no resultado final, então percebe que o mesmo mais não é para a História do que aquele filme que lhe garantiu o Oscar. Afinal "Academy Award Winner Eminem", não é uma expressão que qualquer um de nós inicialmente considerasse como real.
Tem os seus momentos como obra que filma a concretização de sonhos... outros tantos sobre o poder e a importância da amizade e alguns sobre a aceitação do fracasso mas, para além disso... 8 Mile é um filme banal que a seu tempo - se é que esse já não chegou - não será recordado para lá de "aquele filme de Eminem".
.

.
"B. Rabbit: Don't ever try to judge me dude (...)"
.
6 / 10
.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Francisco Nicholson

.
1938 - 2016
.

MTV Movie Awards 2016: os vencedores

.
Filme: Star Wars: The Force Awakens, de J.J. Abrams
Documentário: Amy, de Asif Kapadia
História Verídica: Straight Outta Compton, de F. Gary Gray
MTV Generation Award: Will Smith
Comedic Genius Award: Melissa McCarthy
Actor: Leonardo DiCaprio, The Revenant
Actriz: Charlize Theron, Mad Max: Fury Road
Intérprete Revelação: Daisy Ridley, Star Wars: The Force Awakens
Interpretação de Comédia: Ryan Reynolds, Deadpool
Interpretação em Acção: Chris Pratt, Jurassic World
Interpretação Virtual: Amy Poehler, Inside Out
Elenco: Pitch Perfect 2
Luta: Deadpool (Ryan Reynolds) vs. Ajax (Ed Skrein), Deadpool
Beijo: Rebel Wilson e Adam DeVine, Pitch Perfect 2
Herói: Jennifer Lawrence, The Hunger Games: Mockingjay - Part 2
Vilão: Adam Driver, Star Wars: The Force Awakens

.
.

Baisers Volés (1968)

.
Beijos Roubados de François Truffaut é uma longa-metragem francesa do icónico realizador e que acompanha a história de Antoine Doinel (Jean-Pierre  Léaud), um jovem rebelde expulso do exército pelo seu comportamento, e que aqui regressa à sua vida "normal", o reencontro com Christine (Claude Jaude) a rapariga por quem estava apaixonado, bem como as suas mais variadas peripécias nos seus trabalhos enquanto porteiro, detective privado e enquanto vendedor numa sapataria - trabalho este que serve enquanto disfarce para investigar Madame Tabard numa encomenda do seu marido Georges (Michael Lonsdale).
Nomeado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e vencedor do Prémio Louis Delluc como Filme Francês do Ano, Baisers Volés inicia um percurso interessante enquanto relato das aventuras e desventuras amorosas do jovem "Antoine" que desde cedo faz denotar a sua verve irresponsável e muito descontraída enquanto um "filho da guerra" numa época em que todas as convulsões sociais e protocolares se faziam abater sobre uma Europa ainda há procura do seu próprio espaço.
É esta procura de um lugar próprio que aliada a uma irresponsabilidade - ou até mesmo aversão - à ordem que aqui tão bem caracteriza o "Antoine" de Léaud e, de certa forma, toda uma geração, que está patente ao longo de todo este filme. Se por um lado "Antoine" mostra ser aquele jovem sedento de algo que o caracterize ou complemente - tanto profissional como sentimentalmente - não deixa também de ser esta procura que o deixa instável e numa constante busca de algo que o próprio não sabe identificar. Os seus trabalhos medianos e inconsequentes que mais não são do que um método mais ou menos eficaz para se manter ocupado, revelam um pouco do mal geral sentido na sociedade, ou seja, uma eterna infantilização dos adultos que se recusam a crescer e, como tal, vivem eternos jogos sentimentais de conquista e posse face ao seu parceiro. Nesta dinâmica inconsequente de momentos de fantasia e encantamento, de romance oscilantes entre o estável e o incerto, "Antoine" mantém-se numa busca pessoal de uma felicidade que o próprio desconhece a forma.
Pelo meio de várias inconsequente peripécias amorosas repletas de encontros e alguns desencontros e vidas que são, na sua essência, fruto de uma sociedade em franca transformação, as incertezas e irresponsabilidades de "Antoine" começam a ser tidas pelo espectador tão banais e coerentes como as das demais personagens que se amontoam num percurso de incertezas morais e sentimentais e não melhor resolvidos do que o jovem que procura as suas próprias respostas.
Com algum humor - muito característico da época - e um conjunto de peculiares personagens que parecem viver perdidos num mundo muito próprio hesitantes de transpôr uma fronteira que os mesmos criaram e que faz deles receptores de uma infantilidade muito peculiar, Baisers Volés acaba por ser uma interessante reflexão sobre o efeito do amor - ou da paixão - e da dedicação - ou da entrega - naqueles que vivem de coração aberto para que o mesmo lhes bata à porta e que anuncie que veio para ficar.
Truffaut homenageia as não tão simples histórias de amor... Obsessivo mas dedicado, incerto e inconstante mas sentido. As pequenas histórias que transformam as suas personagens adultas de idade em crianças nos breves momentos em que o sentimento se abate sobre os seus corações. Perdidos quando ele não se manifesta e com todo um conjunto de propósitos e objectivos quando o sentem, todos transformando em infantis crianças perdidas num parque de diversões onde os seus comportamentos se deixam levar pela imaginação e felicidade que os inunda.
No entanto, é exactamente este último aspecto que me faz perder um pouco a dinâmica da sua história pois todos os personagens parecem, a determinada altura, perdidos numa qualquer obsessão amorosa não correspondida e, por sua vez, perdidos numa busca para um amor que não os quer. De adultos infantis a crianças algo caprichosas, Truffaut cria, no fundo, um mundo povoado por crianças "grandes" incertas do seu destino sentimental sabendo que ele existe... mas aparentemente indisponível. Não deixando de ter uma reflexão pensada sobre o amor e sobre os dias em que foi pensado, Baisers Volés não consegue manter uma dinâmica cativante a todo o momento deixando-se levar pelos caminhos da incerteza e de uma imaginação "infantil" e por vezes pouco coerente... querendo esta coerência dizer o que queira quando são assuntos do coração que estão a ser "discutidos".
.

.
5 / 10
.

Bankers (2012)

.
Bankers de António da Silva é uma curta-metragem portuguesa que num estilo documentário voyeurista retrata as interacções sexuais entre um grupo de homens num wc público durante um qualquer intervalo do trabalho.
Identificados enquanto banqueiros, estes homens dirigem-se propositadamente - ou não - àquele local pois sabem ser nele que consegue encontrar alguma interacção ou contacto sexual anónimo e descomprometido saciando uma boa parte da sua sexualidade socialmente reprimida.
Ali, naquele espaço e sem qualquer preocupação ou procura maior, as entradas e saídas sucedem a um ritmo frenético onde todos eles conseguem de forma instintivamente animal satisfazer os seus prazeres e desejos mais carnais que reprimem devido aos diversos julgamentos sociais de que poderiam ser alvo.
Sem palavras e apenas recorrendo a gestos, sinais e ligeiros contactos físicos que denotam o mútuo interesse, a coreografia destes homens surge instintivamente e não programada, apenas "comandada" pela sedução e pelo flirt que, de forma anónima e sem um aparente sentimento, os impele a encontrarem-se de forma mecânica com o intuito último da sua satisfação sexual.
À semelhança do que já é comum nos documentários de António da Silva, em Bankers o espectador é novamente colocado numa dinâmica ambígua na medida em que se por um lado aqueles que o realizador regista assim o são porque denotam o seu exibicionismo - entre os demais elementos que se encontram naquele wc -, é também real que o espectador se transforma num elemento importante pois, enquanto voyeur, observa os referidos comportamentos que ganham - enquanto objecto cinematográfico - a importância que é esperada do documentário. São estas duas perspectivas ambíguas que, no entanto, se alimentam mutuamente e que melhor caracterizam este género específico, exponenciando o erotismo criado entre espectador e o "actor" através da ligação criada pelo realizador.
.
4 / 10
.

domingo, 10 de abril de 2016

Perfetti Sconosciuti (2016)

.
Amigos Amigos, Telemóveis à Parte de Paolo Genovese é a mais recente longa-metragem do realizador de Una Famiglia Perfetta (2012) que aqui reúne, uma vez mais, alguns dos nomes mais fortes do cinema italiano nomeadamente Valerio Mastandrea, Giuseppe Battiston e Alba Rohrwacher entre outros.
Quando um grupo de amigos de longa data decide, durante um jantar, partilhar o conteúdo de todas as mensagens, telefonemas e e-mail's que recebem, longe estariam de pensar que conheciam tão pouco sobre aqueles que conhecem desde jovens. As mentiras desvendam-se e as verdades ressurgem como que punitivas de uma amizade que, afinal, não era tão extensa como todos eles pensavam.
Longe de ser uma longa-metragem de acção ou uma comédia fácil resultante de um conjunto de cómicos de situação sobre a vida marital, Perfetti Sconosciuti é, acima de tudo, um perfeito exemplo do que um bom argumento e um bom elenco faz por um filme que é tudo menos banal. Aliás, Filippo Bologna, Paolo Genovese, Paolo Costella, Paolo Mammini e Rolando Ravello são exímios na busca de pequenos grandes momentos e potenciais segredos que todos fazem por ocultar e disfarçar, lançando-os para o ringue das feras na esperança que delas saiam as mais variadas reacções... e saem!
Mas, começando por uma breve apresentação do elenco deste filme onde seis das suas personagens interagem enquanto membros de três sólidos e felizes casais, o jantar decorre na casa de "Rocco" (Marco Giallini) e "Eva" (Kasia Smutniak) que vivem um aparente silêncio quanto à sua felicidade centrando-se (ela) quase exclusivamente em "Sofia", uma filha adolescente que teima em não a respeitar. À sua casa chegam "Carlotta" (Anna Foglietta) e "Lele" (Mastandrea) cuja relação se torna evidente estar a passar por uma fase menos positiva e sem o tal "sal" que seria de esperar da mesma. Finalmente, o último dos casais chega através de "Cosimo" (Edoardo Leo) e "Bianca" (Rohrwacher), o mais recente dos casais e a quem tudo parecer correr em perfeita sintonia. O último dos amigos, e aquele por quem todos esperam por ser aquele que falta "casar" é "Peppe" (Battiston), o bonacheirão de serviço que todos gostam de ter por perto quando é para divertir.
Este elenco dá então corpo a uma história que se inicia como todas as reuniões de amigos... Sorrisos, partilha de momentos recentes bem passados onde todos parecem ter vidas fantásticas que, não sendo de inveja, transmitem uma ideia de um sucesso que é, no fundo, motivo suficiente para que todos se orgulhem do grupo que se mantém unido e, basicamente, feliz. No entanto, aquilo que inicialmente parecia um inofensivo debate sobre confiança, segredos e histórias não contadas dá "alma" a um jogo onde a "caixa negra" reconhecida nas vidas de todos - o telemóvel - despolete um sem fim de histórias por contar, de segredos comprometedores e verdades que nenhum deles esperava ou queria ouvir. De repente, o que seria se todos eles ficassem a saber que um atropelou um homem que veio a falecer.. se soubessem que outro tem um amante... se descobrissem que o marido espera um filho de outra mulher, que a filha de um dos casais não suporta a mãe e a sua presença ou mesmo se um do grupo viril e másculo fosse, afinal, homossexual?!
Aos poucos Perfetti Sconosciuti é um retrato de todas as amizades. Todas aquelas onde tudo aparenta ser de conhecimento "público" e onde a boa e velha camaradagem fosse o elixir suficiente para manter forte e controlada uma amizade de décadas. Mas o que acontece quando lentamente se descobre que afinal o tal elixir está fora de prazo e que as realidades tal como elas são fazem revelar velhos preconceitos e verdades que, afinal, não queriam ser escutadas? O que acontece quando se descobre que afinal aqueles casamentos não são assim tão perfeitos, que existem relações extra conjugais ou até mesmo que uma sexualidade diferente da "aceite" por alguns elementos do grupo fosse motivo suficiente para destruir aquilo que fora, durante anos, construída em plena confiança e dedicação? O que será então desta amizade quando, face à realidade, se descobre que nem todos são tão evoluídos e de mente aberta quanto se haviam revelado durante anos?! No fundo, aquilo que torna o argumento de Perfetti Sconosciuti tão único prende-se essencialmente com uma simples questão... como enfrentar o mundo e os seus preconceitos quando, dentro da nossa zona de conforto, aqueles que tantos nos conhecem são afinal... perfeitos estranhos?!
Com dinâmicas muito próprias, cada casal cruza as suas histórias com os demais numa perfeita sintonia. Genovese dirige estes actores ao ponto de se entregarem não só às suas histórias "pessoais", mas também aos dos seus colegas e amigos como que se os problemas de um afectassem directamente todos os demais que se encontram naquela mesa. Giallini e Smutniak encarnam de forma magestral o casal bem sucedido mas que tem os seus próprios esqueletos no armário. Refugiados numa vida familiar que afinal se apresenta, também ela disfuncional, residirá o problema apenas nas suas personagens ou também num desejo de ter e alcançar algo mais do que aquilo que já se tem seguro? Mastandrea e Foglietta representam o tal casal para quem a rotina e o banal já conquistaram lugares cativos mantendo-se um casal aparentemente feliz para os demais mas que, a nível interno, já se socorrem de pequenos jogos virtuais extra-matrimoniais para manterem uma certa chama acesa... mas não entre si. Por sua vez, Leo e Rohrwacher são o casal mais "jovem" para quem tudo parece perfeito e a correr de forma organizada e espontânea mas que, na prática, sobrevive graças a uma mentira extra-matrimonial que irá trazer uma surpresa à vida do casal talvez... em ruptura. E finalmente Battiston com o seu divertido "Peppe" que a todos anima, mas que na realidade se mantém como o eterno solteirão cuja sexualidade não foi - em todos os anos de amizade - francamente revelada e consumada, mantendo-se portanto, como o eterno "tio" que vive um amor na sombra escondido dos olhares dos seus próprios amigos.
Sete actores para sete histórias pessoais. Sete vidas que se transformam em instantes dando a conhecer todo um conjunto de pessoas que apesar de se conhecerem há anos... escondem outras pessoas que agora se revelam... ou talvez não! Os instantes finais de Perfetti Sconosciuti são do mais delicioso possível, desmistificando toda a realidade que o espectador conhecera até então e revelando que afinal nem tudo é como aparenta... tal como as histórias e revelações que acabara de assistir momentos antes lançando a eterna questão... até que ponto conhecemos, ou queremos conhecer, os nossos amigos ou, por outras palavras, queremos realmente saber na totalidade quem são aquelas pessoas que connosco partilham - e partilhamos - os momentos mais importantes de toda a nossa vida?!
Inteligente, honesto, franco e suficientemente mordaz para provocar no espectador a ânsia de saber um pouco mais sobre os seus amigos, Perfetti Sconosciuti é um filme intenso que não deve ser perdido... Naquelas sete breves histórias e naqueles sete intensos silêncios... muitas verdades são reveladas e segredos (por saber) ocultados. Bravo! Bravo, Paolo Genovese!
.

.
8 / 10
.

IFTA - Irish Film & Television Awards 2016: os vencedores

.
Cinema
Filme: Room, de Lenny Abrahamson
Prémio George Morrison - Documentário: Mom & Me, de Ken Wardrop
Filme Internacional: Spotlight, de Tom McCarthy (EUA)
Curta-Metragem de Ficção: Stutterer, de Banjamin Cleary
Curta-Metragem de Animação: Geist, de Ben Harper, Sean Mullen e Alex Sherwood
Realizador: Lenny Abrahamson, Room
Actor Protagonista: Michael Fassbender, Steve Jobs
Actor Internacional: Leonardo DiCaprio, The Revenant
Actriz Protagonista: Saoirse Ronan, Brooklyn
Actriz Internacional: Brie Larson, Room
Actor Secundário: Jack Reynor, Sing Street
Actriz Secundária: Jane Brennan, Brooklyn
Irish Board Rising Star: Stephen Fingleton
Argumento: Emma Donoghue, Room
Montagem: Nathan Nugent, Room
Fotografia: Cathal Watters, Viva
Música Original: Stephen Rennicks, Room
Guarda-Roupa: Joan Bergin, Vikings
Design de Produção: Tom Conroy, Legend
Caracterização: An Klondike
Som: Room
Efeitos Especiais:
The Frankenstein Chronicles (Screen Scene)
Contribuição para o Cinema: Liam Neeson
Irish Diaspora Award:
Roma Downey
.
Televisão
Série -Drama: An Klondike
Realizador: Neasa Hardiman, Happy Valley
Actor Drama: Dara Devaney, An Klondike
Actriz Drama: Ruth Bradley, Rebellion
Actor Secundário: Moe Dunford, Vikings
Actriz Secundária: Sarah Greene, Penny Dreadful
Argumento Drama: Marcus Fleming, An Klondike
.
.

sábado, 9 de abril de 2016

4th Man Out (2015)

.
4th Man Out de Andrew Nackman é uma longa-metragem norte-americana que conta a história de Adam (Evan Todd) que no dia em que completa o seu vigésimo-quarto aniversário resolve contar aos seus amigos de infância que é homossexual.
Incerto sobre as suas reacções bem como com a da sua família, a coragem de Adam vai sendo sucessivamente abalada até que espontaneamente revela tudo a Chris (Parker Young), Nick (Chord Overstreet) e Ortu (Jon Gabrus) alterando drasticamente as suas vidas.
A longa-metragem de Nackman com base num argumento de Aaron Dancik assume-se como uma simpática e divertida história onde para lá de qualquer noção ou ideal de romantismo se centra nos importantes laços de amizade que são estabelecidos ao longo de uma vida entre um grupo de amigos. É apenas com a chegada de uma inesperada notícia que a dinâmica de grupo é perturbada e se sentem abaladas as estruturas de uma amizade de largos anos. No entanto, considerando que esta mesma notícia acaba por transformar radicalmente as vidas de todos os envolvidos, o espectador percebe que finalmente todos eles abandonaram a juventude e alguma (ir)responsabilidade que lhes era inerente para finalmente poderem abraçar a tão (in)desejada "idade adulta".
A revelação da homossexualidade de "Adam" mais não poderia ser do que uma assumida surpresa por parte dos outros elementos do grupo. Se inicialmente todos a tomam como algo de novo e improvável dado um passado pseudo-mulherengo do mesmo, não deixa de ser verdade que aos poucos é esta mesma notícia que os leva a ter um pouco mais de curiosidade para com a vida do amigo que, percebem, ter sido constituída de alguns segredos e muitos silêncios no seu passado. Segredos e silêncios estes que, longe de prejudiciais para o grupo, não deixam de revelar que existe toda uma "nova pessoa" que precisa ser conhecida e descoberta. Afinal... quem é "Adam" quando fora do grupo? Se "Chris" toma esta revelação como toda uma nova oportunidade para descobrir "Adam" - com quem mantém uma amizade mais próxima dentro do próprio grupo - "Nick" encontra nesta revelação uma oportunidade para descobrir mais sobre toda uma sexualidade enquanto "Ortu" se transforma naquele que amadurece e descobre que existe muito mais sobre si próprio do que a imagem pode inicialmente transmitir.
No fundo, aquilo que 4th Man Out acaba por revelar ao espectador é que para lá das noções pré-concebidas que todos acabam por ter sobre o "outro" - sejam elas sociais, sexuais, culturais, económicas ou psicológicas - não deixa de ser interessante como dentro de um grupo que se conhece há largos anos existem sempre pequenos elementos que escapam do nosso domínio... da nossa curiosidade e claro, do nosso conhecimento. Pequenas coisas que definem um todo, que formam os vários elementos desse mesmo grupo, que os caracterizam e lhes conferem a real dimensão da sua personalidade mas que por receio - ou até mesmo medo - por insegurança, incerteza ou alguma timidez, acabam por ser escondidos, abafados, adulterados e até mesmo negados. Mas no final existe o triunfo de algo maior... a celebração de vidas partilhadas, de amores sofridos, de aventuras nunca reveladas, de momentos que todos irão recordar um dia mais tarde e que serão as suas memórias e também aquelas situações que todos eles percebem constituírem a parte mais importante da sua amizade.
Com os ocasionais lugares comuns que acabam por estar sempre presentes no género nomeadamente o "online dating" que reafirma que nem sempre se deve confiar naquilo que se conhece nas redes sociais ou mesmo os comportamentos "tipo" que se esperam de algumas das personagens, 4th Man Out acaba por ser mais importante pela crítica social que estabelece não só ao americano típico como principalmente alerta para aquilo que se espera de uma sociedade moderna, evoluída e onde - dare to dream - o preconceito ficou do lado de fora da porta, afinal... "today we are all americans".
Com quatro interpretações que se complementam pelas suas diferenças - afinal, não são assim todos os grupos de amigos?! - alguns momentos bem delirantes e que celebram o verdadeiro significado de amizade - o convívio no bar gay ou mesmo o mise en scène de alguns pré-conceitos - bem como inocente quanto baste em alguns dos seus sonhos - irrealista talvez? - 4th Man Out é bem disposto e humorado o suficiente para ser uma experiência cinematográfica ligeira e interessante assumindo-se, no final, como um filme que pretende celebrar a amizade e todas aquelas pequenas diferenças que todos os amigos - aqui bem como os nossos - têm, e que constituem aquilo que nos faz essencialmente gostar e confiar neles.
.

.
7 / 10
.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

God's Not Dead (2014)

.
Deus Não Está Morto de Harold Cronk (EUA) é a mais que esperada mas sim óbvia longa-metragem vinda do outro lado do Atlântico onde as eternas questões religiosas sobre a existência ou não de um "Deus" são colocadas na ordem do dia.
Josh (shane Harper) é um jovem estudante universitária que inicia a sua carreira académica nas aulas de filosofia do Prof. Radisson (Kevin Sorbo). Para lá de qualquer matéria académica, Raddison exige que todos os seus alunos assinem uma única declaração onde afirmem que "Deus Está Morto". Num momento em que não só o seu futuro académico como profissional são colocados em causa, toda a vida exterior de Josh é abalada quando tudo ao seu redor parece querer pressioná-lo a admitir aquilo que as suas convicções religiosas não lho permitem.
Hunter Dennis, Chuck Konzelman e Cary Solomon assim o argumento de God's Not Dead centrando a dinâmica da história no conflito moral no qual "Josh" é involuntariamente colocado mas, no entanto, não esquecendo todo um conjunto de tramas secundárias que, para o espectador, parecem funcionar como fundamentos para a sua forçada crença de que Deus... realmente existe. Desde um missionário que é sistematicamente impedido de sair da cidade, passando pelos convicções religiosas fundamentalistas do pai de Ayisha sem esquecer o cínico empresário Mark que age de forma cruel e indiferente a uma mãe mentalmente incapaz e para uma namorada que enfrenta a maior provação da sua vida, toda esta longa-metragem se centra numa tentativa de consciencialização - para não dizer evangelização - do espectador para uma forçada crença de que a intervenção divina é uma constante diária na existência do espectador que consciente ou não dos pequenos actos de bondade dessa mesma entidade, existe no planeta para honrar a dádiva da vida... por muito difíceis que sejam os dias, estes são para ser vividos no seu pleno e em constantes "graças" com um "Deus Cristão" - represente lá isso o que representar do outro lado do Atlântico -, benévolo, caridoso e omnipresente que, no entanto, não só não representa a condição humana no seu todo como é, para estes argumentistas e realizador, uma clara e muito tendenciosa obra de propaganda religiosa que em diversos momentos toca muito perto o fanatismo.
Esqueçamos, por momentos, a discussão académica e o combate de crenças aqui exercido entre aluno e professor - mesmo que isso nos remeta para o essencial de toda esta longa-metragem - mas, na realidade é o que está por detrás de toda a demais dinâmica desta longa-metragem que, na realidade, acaba por preocupar o espectador mais atento. Aquilo que encontramos em God's Not Dead não é necessariamente a discussão sobre a existência ou não de um "Deus" que tudo comanda mas sim a franca e sentida necessidade dos criadores desta longa-metragem de revelar o seu ponto de vista sobre a existência inequívoca de uma entidade que pode, por qualquer outra pessoa, ser negada. Não interessa o que todos os demais pensam... interessa sim que esta existência não pode ser contrariada.
Na sua essência, God's Not Dead é um manifesto da mais elementar e primária propaganda religiosa... inequívoca é sim a clara utilização do meio cinematográfico - com toda a sua óbvia máquina enquanto indústria - para propagandear um ponto de vista subjectivo, não factual e excessivamente emocional com o recurso a figuras desse "meio" norte-americano "cristão", claramente distante daquilo que é de facto a Cristandade mas que, no referido país, movimenta toda uma máquina ultra-conservadora e muito pouco tolerante ao mesmo tempo que lança toda uma rede de apoio a figuras que ali propagam os ditos "ideais" de "Deus". Muitas aspas... mas extremamente necessárias para dissecar esta "obra cinematográfica".
Em tempos fora utilizado o cinema para propagandear ideais de liberdade, por exemplo, os momentos captados pela obra de Frank Capra durante a Segunda Guerra Mundial... já que a máquina nazi tinha utilizado o mesmo método para espalhar a sua "ordem", também o dito Ocidente a utilizou para captar a essência de uma liberdade centrada no respeito pelas liberdades individuais. Aqui, God's Not Dead utiliza o cinema como forma de disseminar uma certa "ordem" religiosa que se afirma tolerante mas que mais não é do que uma forma de castração ideológica - de parte a parte - colocando, no entanto, os valores ditos "correctos" do lado daqueles que abraçam "Deus" - afinal, todos são felizes no final quando o aceitam -, deixando o rumo da perdição para os demais que não o aceitam como a única e verdadeira "ordem moral".
A não tão ligeira forma como God's Not Dead (não) se assume como um primária obra de propaganda terá de ser aceite pelo espectador... se estes criadores não a assumirem como tal permanecerá quem a observar com o seu critério de avaliação. No entanto, todos os elementos que aqui parecem criar uma certa moralidade e respeito "for the Lord", assumem-se como uma elite iluminada, presente nos momentos de adoração e tementes a um conservadorismo pseudo-religioso como se "Deus" fosse amor... mas apenas para aqueles que o respeitam pois, para todas as demais vis personagens, nesse jogo da vida, que nada temem, em nada crêem e que estão sujeitos a um pós-vida de tormentas, apenas está reservado um cantinho nesse "Inferno" que desconhecem... Temer ao Senhor... SEMPRE!
Intelectualmente pobre, cinematograficamente elementar e nula enquanto uma obra capaz de contar uma história pela qual o espectador - não fanático - se apaixone ou deixe levar, God's Not Dead é apenas o reflexo ultra-conservador de alguém que quer evangelizar não pela dita "palavra do Senhor" mas sim por um mecanismo que pode, a curto prazo, granjear uma satisfação económica que eficazmente pode ser trazida pelo cinema. Cinema propriamente dito... não o encontramos por aqui! Nem sob a forma de argumento, nem pela imparcialidade nem tão pouco pelas interpretações que quer pelo fanatismo quer pelo cheque aqui vieram parar.
.

.
1 / 10
.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Festa do Cinema Italiano 2016: o vencedor

.
Termina a Festa do Cinema Italiano em Lisboa que decorreu desde o passado dia 30 de Março no Cinema São Jorge, em Lisboa, com o anúncio por parte do júri composto por Tiago Alves (jornalista e crítico de cinema), João Monteiro (co-director do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa) e Ronaldo Bonacchi (actor italiano), do vencedor desta edição.
Lo Chiamavano Jeeg Robot, de Gabriele Mainetti - com dezasseis nomeações aos David di Donatello da Academia Italiana de Cinema - foi o grande vencedor arrecadando não só o Prémio do Júri como também o Prémio do Público.
Com interpretações  de Claudio Santamaria e Luca Marinelli - ambos passaram pela Festa - o filme tornou-se numa obra de culto em Itália unindo as opiniões unânimes do público e da crítica nesta história de um homem que ganha super-poderes utilizando-os na sua vida de delinquência mudando, no entanto, a partir do momento em que conhece um fã de banda-desenhada japonesa que o compara ao herói... Jeeg Robot.
A Festa do Cinema Italiano segue agora a sua tradicional viagem por várias cidades nomeadamente Cascais (15 a 17 de Abril), Coimbra (18 a 20 de Abril), Porto (21 a 24 de Abril), Elvas (29 e 30 de Abril), Aveiro (8 a 10 de Maio), Loulé (12 a 14 de Maio), Caldas da Raínha (13 a 15 de Maio), Évora (17 a 19 de Maio), Guimarães (17 a 22 de Maio), Aveiro seguindo depois até Maputo, em Moçambique (16 a 20 de Junho), voltando a Portugal à cidade de Setúbal (11 a 13 de Agosto), Almada (25 e 26 de Setembro e 2 e 16 de Outubro), Beja, Funchal entre outras cidades ainda por anunciar.
.
.

Academia Portuguesa de Cinema - Prémios Sophia Carreira 2016

.
A Academia Portuguesa de Cinema através do seu presidente Paulo Trancoso, anunciou hoje os dois galardoados com o Sophia Carreira 2016 por serviços de excelência prestados à Sétima Arte nacional.
.
.
A primeira galardoada com o Sophia Carreira é a actriz Carmen Dolores cuja carreira enquanto intéprete marca presença no cinema, teatro e televisão bem como enquanto declamadora de poesia, sendo uma das mais destacadas referências do panorama artístico nacional.
Carmen Dolores iniciou a sua carreira cinematográfica em Amor de Perdição (1943), de António Lopes Ribeiro, Um Homem às Direitas (1945), de Jorge Brum do Canto, A Vizinha do Lado (1945), de António Lopes Ribeiro, Camões (1946), de José Leitão de Barros, Três Espelhos (1947), de Ladislao Vajda, A Garça e a Serpente (1952), de Arthur Duarte, Malteses, Burgueses e às Vezes... (1974), de Artur Semedo, O Princípio da Sabedoria (1975), de António de Macedo, Balada da Praia dos Cães (1987), de José Fonseca e Costa, A Mulher do Próximo (1988), de José Fonseca e Costa tendo a sua última participação em cinema sido em Retrato de Família (1991), de Luís Galvão Teles.
.
.
O segundo galardoado com o Sophia Carreira em 2016, é Fernando Costa, chefe electricista, operado, director dr fotografia, produtor e fundador da Cinemate (1965) sediada em Loures, uma empresa líder em estúdios e aluguer de equipamento trabalhando com as televisões e empresa de audiovisual nacionais e internacionais.
.
.

Sophia 2016 - Academia Portuguesa de Cinema: os nomeados

.
Foram hoje anunciados na Cinema Portuguesa - Museu do Cinema, em Lisboa, os nomeados aos Prémios Sophia entregues anualmente pela Academia Portuguesa de Cinema.
Entre os dezasseis filmes elegíveis a escolha para os quatro nomeados para Melhor Filme recaíram sobre Amor Impossível, de António-Pedro Vasconcelos, As Mil e Uma Noites, Volume 2: O Desolado, de Miguel Gomes, Montanha, de João Salaviza e Yvone Kane, de Margarida Cardoso.
Os vencedores dos Sophia 2016 serão conhecidos numa cerimónia a realizar no próximo dia 13 de Maio no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
.
Melhor Filme
Amor Impossível, MGN Filmes
As Mil e Uma Noites, Volume 2: O Desolado, O Som e a Fúria
Montanha, Filmes do Tejo
Yvone Kane, Filmes do Tejo
.
Melhor Documentário em Longa-Metragem
Alto Bairro, de Rui Simões
Pára-me de Repente o Pensamento, de Jorge Pelicano
Portugal - Um Dia de Cada Vez, de João Canijo e Anabela Moreira
Volta à Terra, de João Pedro Plácido
.
Melhor Curta-Metragem de Ficção
Aula de Condução, de André Santos e Marco Leão
A Glória de Fazer Cinema em Portugal, de Manuel Mozos
Rampa, de Margarida Lucas
O Rebocador, de Jorge Cramez
.
Melhor Documentário em Curta-Metragem
África Abençoada, de Aminata Embalo
Atopia, de Luís Azevedo e Alexandre Marinho
Fora da Vida, de Filipa Reis e João Miller Guerra
A Torre, de Salomé Lamas
.
Melhor Curta-Metragem de Animação
Amélia & Duarte, de Alice Guimarães e Mónica Santos
O Campo à Beira Mar, de André Ruivo
Nossa Senhora da Apresentação, de Abi Feijó
Vígil, de Rita Cruchinho Neves
.
Melhor Realizador
António-Pedro Vasconcelos, Amor Impossível
Miguel Gomes, As Mil e Uma Noites, Volume 2: O Desolado
João Salaviza, Montanha
Margarida Cardoso, Yvone Kane
.
Melhor Actor
Adriano Luz, As Mil e Uma Noites, Volume 1: O Inquieto
José Mata, Amor Impossível
David Mourato, Montanha
Gonçalo Waddington, Capitão Falcão
.
Melhor Actriz
Beatriz Batarda, Yvone Kane
Soraia Chaves, Amor Impossível
Victória Guerra, Amor Impossível
Isabel Ruth, Se Eu Fosse Ladrão... Roubava
.
Melhor Actor Secundário
David Chan Cordeiro, Capitão Falcão
Carlos Malvarez, Amor Impossível
José Martins, Amor Impossível
José Pinto, Capitão Falcão
.
Melhor Actriz Secundária
Maria D'Aires, Amor Impossível
Lia Carvalho, Amor Impossível
Carla Chambel, Se Eu Fosse Ladrão... Roubava
Maria João Pinho, Montanha
.
Melhor Argumento Original
Amor Impossível, Tiago R. Santos
Capitão Falcão, Nuria Leon Bernardo e João Leitão
Montanha, João Salaviza
Yvone Kane, Margarida Cardoso
.
Melhor Montagem
Amor Impossível, Pedro Ribeiro
Capitão Falcão, Mário Melo Costa
Montanha, Edgar Feldman e João Salaviza
Yvone Kane, João Braz
.
Melhor Fotografia
Amor Impossivel, Miguel Sales Lopes
Cosmos, André Szankowski
Se Eu Fosse Ladrão... Roubava, Acácio de Almeida
Yvone Kane, João Ribeiro
.
Melhor Música Original
Amor Impossível, José M. Afonso
Capitão Falcão, Pedro Marques
Montanha, Norberto Lobo
O Pátio das Cantigas, Nuno Maló
.
Melhor Som
Amor Impossível, Vasco Pedroso, Branko Neskov e Elsa Ferreira
Capitão Falcão, Hugo Leitão
Montanha, Olivier Blanc
Yvone Kane, Elsa Ferreira e Pedro Ricardo Nunes
.
Melhor Direcção Artística
Amor Impossível, Clara Vinhais
Capitão Falcão, Nuno Tomaz, Mário Melo Costa e João Leitão
O Pátio das Cantigas, Rui Alves
Yvone Kane, Ana Vaz
.
Melhor Guarda Roupa
Amor Impossível, Mia Lourenço
Capitão Falcão, Isabel Quadros
As Mil e Uma Noites, Volume 2: O Desolado, Sílvia Grabowski e Lucha D'Orey
Yvone Kane, Nádia Henriques
.
Melhor Maquilhagem e Cabelos
Amor Impossível, Susana Correia e Sandra Meleiro
Capitão Falcão, Helena Gonçalves
Cosmos, Iris Peleira
Yvone Kane, Emmanuelle Fèvre e Ramona
.
Prémio Sophia Estudante
Afrodite, de Gonçalo Nobre de Almeida
Ghiocel, de Mara Ungureanu
Terra Mãe, de Ricardo Couto
Palhaços, de Pedro Crispim
.
.

Shortcutz Viseu - Sessão #72

.
Apesar de estar sem ter sessões competitivas em Abril, o Shortcutz Viseu não pára a sua actividade e regressa já amanhã para a Sessão #72.
Integrada no festival de cultura urbana Viseu_Cult.Urb, está programada uma sessão diferente do habitual onde serão exibidas quatro curtas-metragens de realizadores com olhares diferentes sobre aquilo que é a "Cidade".
Spike Lee (Atlanta, Geórgia, EUA), Katia Lund (São Paulo, Brasil), Stefano Veneruso (Nápoles, Itália) e John Woo (Guangzhou, China) são assim os realizadores presentes nesta sessão que irá decorrer na casa oficial do Shortcutz Viseu, o Carmo'81, na Rua do Carmo a partir das 22 horas.
.
.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Alice Barker

.
1912 - 2016
.

Merle Haggard

.
1937 - 2016
.

terça-feira, 5 de abril de 2016

A Estrada 47 (2013)

.
A Estrada 47 de Vicente Ferraz é uma longa-metragem luso-italo-brasileira que teve ontem uma exibição especial durante esta edição da Festa do Cinema Italiano que decorre em Lisboa até ao próximo dia 7 de Abril.
Sem estreia comercial prevista em Portugal, A Estrada 47 relata um encontro muito particular entre um conjunto de soldados de três nacionalidades diferentes - brasileiros, italiano e alemão - no decorrer da Segunda Guerra Mundial no norte de Itália.
Depois de em 1942 submarinos alemães e italianos terem atacado navios mercantes brasileiros provocando mais de mil mortos, o Brasil em 1944, envia para a Europa mais de vinte e cinco mil soldados. O Tenente Penha (Júlio Andrade), o Sargento Laurindo (Thogun Teixeira), Guima (Daniel de Oliveira) e Piauí (Francisco Gaspar) são quatro deles que na companhia de Rui (Ivo Canelas), um repórter fotográfico percorrem o norte do país com o intuito de libertarem a infame Estrada 47 e evitarem a fama de desertores numa guerra que aparenta não ter fim.
Começando já pela observação que deveria ser final, Vicente Ferraz consegue com A Estrada 47 a proeza de relatar um momento particular de uma guerra esquizofrénica - não o são todas?! - captando, no entanto, pequenas particularidades de todos os intervenientes que demonstram os seus medos, algumas expectativas e, principalmente, a capacidade de fazer enaltecer a sua humanidade quando tudo à sua volta parece desesperadamente querer elevar a indiferença, o medo e o ódio. A comprová-lo está todo o comportamento destes homens num percurso que inicialmente lhes provoca o pânico, que de seguida os leva à compreensão dos seus actos e que finalmente os conduz a uma missão que tudo tem para ser suicida... auxiliados nesta por aqueles que seriam - à partida - os seus maiores inimigos físicos... o adversário.
Nos instantes iniciais de A Estrada 47, Vicente Ferraz revela ao espectador aqueles instantes iniciais (ou talvez não...), nos quais o militar, desgastado pelo duro despertar de uma realidade que lhe é estranha, se deixa consumir pelo pânico de um momento tenso, adverso pela distância física que do seu meio tem e finalmente, pela compreensão de que está numa situação em que pode ser ele... ou o "outro". O pânico que toma posse dos seus pensamentos, do seu juízo e eventualmente das suas acções lançando-o numa aventura tão ou mais perigosa do que aquela em que se encontra, guiando-o por territórios desconhecidos, pela incerteza de uma realidade que não corresponde aos seus actos mas que certamente o julgará da forma mais incorrecta tendo, dessa forma, uma única saída... ou tenta o improvável - que lhe poderá presentear com a morte física - ou regressa ao seu espaço enfrentando uma morte que poderá igualmente ser física e social. A guerra não perdoa... e estes homens cedo o compreendem.
Num registo de narração, "Guimarães "Guima"" (Daniel de Oliveira) é a voz da consciência e da razão num local e num tempo em que estes parecem ter abandonado todos os homens. Escreve ao pai... uma carta mental... os seus pensamentos do momento que vive, das experiências que atravessa e da sua sobrevivência... física e mental. A sua "carta" é portanto a forma racional que encontra de escapar de um momento irracional onde persistem a morte, a dor, a destruição e o sofrimento. Fala para um pai ausente sobre a honra - sua e da família - sobre o orgulho - do pai - e sobre um contributo para a libertação de um mundo aprisionado... de um mundo em medo. No entanto, é também este medo que está presente nas suas palavras e que deixa compreender - ao espectador - que apesar deste ser o único momento e acto que tem de manter a sua racionalidade, que os seus pensamentos são aqueles de um jovem homem que compreende que a sua vida está num limbo... numa linha contínua em que a vida e a morte se cruzam e que se podem abraçar a qualquer momento. Esta carta sem destino é, de certa forma, a sua consciencialização de que tudo o que faz - ou tudo aquilo que passa - podem ser as últimas experiências e actos que tem... para lá de uma "palavra" a um pai que não está, esta sua carta mais não é do que a sua própria consciência a compreender que o fim é uma certeza... incerta da sua concretização.
Estando todos neles nesse já referido limbo, os brasileiros vêem a incerteza da sua condição ser abalada com a chegada de dois novos intervenientes... O primeiro é um italiano - desertor - que deseja a proximidade a uma família que não sabe se irá encontrar. O segundo é um alemão que não compreende o rumo de uma guerra que ultrapassa os limites do imaginável - alguma vez poderá ter sido aceitável?! - e esta improvável aliança de homens de diferentes nacionalidades e crenças aproxima-os na tal certeza de que um (o) fim é a sua mais provável realidade. Unidos num caminho com um destino incerto, este grupo de homens é apenas separado por uma língua e por uma nacionalidade que, no entanto, encontra a união na extrema vontade de sobrevivência presente em todos ou em pequenos momentos banais onde se fala sobre a família que se deixou, música ou futebol. Para o espectador passa, no entanto, a imagem de um cenário geográfico desolado, de uma miséria que a todos atinge e de um património cultural que, tal como o país, sofre os danos de um conflito para o qual ninguém conscientemente conseguirá encontrar fundamento. Nos seus corações - pelo menos na vontade expressa por um "Guima" sempre muito reflexivo que o seu único desejo é o regresso a um país que agora encontra distante, a uma família que irá encontrar - e que o encontrará - diferente e com a qual quer partilhar uma história (a sua), pela memória e pela necessidade de se reconstruir... enquanto homem. E no final - naquele final - depois de uma libertação anunciada e da sua sobrevivência enquanto unidade, o que lhes resta é o silêncio de uma vida que não conhecem, de rostos que se irão tornar distantes e de um regresso ainda não anunciado para uma vida à qual não saberão adaptar-se. O silêncio.
Pausado mas intenso, A Estrada 47 cedo se transforma num hino à sobrevivência tanto física como mental - principalmente por diversos momentos - e uma sentida homenagem a All Quiet on the Western Front no qual o jovem Erich Maria Remarque tece uma lúcida reflexão sobre os horrores e traumas de uma guerra nunca vista. Não temos Remarque - pelo menos não fisicamente - mas tê-mo-lo em espírito através da presença de uma inspirada interpretação de Daniel de Oliveira que tranquilamente caminha com um espírito perdido e atormentado mas que dá uma cor e esperança à tal lucidez desejada e que mantém o grupo unido nas suas diferenças.
Tendo as montanhas como pano de fundo e um cenário rural que parece querer esconder um pouco do horror sentido, A Estrada 47 brinda-nos não tanto com o que se passa para lá das fronteiras daqueles homens mas sim no interior do grupo, nas suas mentes claramente atormentadas com o horror de uma extinção e com as memórias de uma vida que além de ter sido deixada para trás jamais poderá voltar a ser a mesma. Com uma interessante reconstituição histórica, um conjunto de interpretações que se complementam e um espírito pacifista como mensagem principal - afinal, o que nos separa realmente do "outro"?! - A Estrada 47 é uma (aguardada) e bem amada surpresa, um triunfo do mais recente cinema - brasileiro, português e italiano - e uma obra que para lá da data dos seus factos é contemporânea e, à luz dos dias de hoje, eterna.
.

.
8 / 10
.
.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Cinzento e Negro (2015)

.
Cinzento e Negro de Luís Filipe Rocha é uma longa-metragem portuguesa e a mais recente obra do realizador de Sinais de Fogo (1995), Camarate (2001), A Passagem da Noite (2003) e A Outra Margem (2007).
Dois momentos. Um presente e um passado. A separá-los uma morte. Maria (Joana Bárcia) recorre à ajuda de Lucas (Filipe Duarte) para encontrarem o fugitivo David (Miguel Borges). Movimenta-os uma sede de vingança e a vontade de uma vida mais fácil e com muito dinheiro.
Oito anos separam Cinzento e Negro de A Outra Margem, a última longa-metragem do realizador e, ao mesmo tempo, uma forte parceria entre este e o seu actor protagonista Filipe Duarte que aqui volta a ter uma forte interpretação como um polícia marcado por uma tragédia pessoal.
O argumento da autoria do próprio Luís Filipe Rocha centra-se inicialmente na história do "depois" que dá a conhecer ao espectador a relação estabelecida - não se sabe como - entre uma "Maria" despeitada e um "Lucas" que sem objectivos maiores se lança numa aventura desconhecida em busca de um pagamento que lhe irá garantir uma tranquilidade - apenas económica - para o resto dos seus dias. Ambos têm algo que os une para lá da sua missão... Uma debilidade que os consome e os marca na vida. Se "Maria" é uma mulher amargurada por uma qualquer insatisfação sentimental que, sem revelar, nunca chegou a cumprir no seu pleno contentando-se apenas com aquilo que lhe foi proporcionado, "Lucas" é um homem que vive a sua falha através da morte - por um aparente suicídio - da sua filha adolescente por motivos que se mantêm desconhecidos.
É esta ligação - aparente - que os leva a descolar até aos Açores onde procuram "David", um homem cujo passado é apenas revelado por fragmentos daquilo que é contado por "Maria" através de pequenos gestos ou comportamentos que denota o seu carácter. Enquanto ela serve como empregada doméstica de um professor universitário agora paralisado por esclerose múltipla, "David" usa o espaço para viver evitando uma vida errante e parca em objectivos para lá daquele que se prende como uma sobrevivência diária. São estas duas vidas remetidas a uma condição de indigência emocional que suscitam a curiosidade maior do espectador pois é após a fuga de "David" que "Maria" revela (in)voluntariamente a razão do seu despeito maior. Pouco receptiva a homens - resistindo a "Lucas" que a tenta seduzir para uma noite de consolo e prazer - "Maria" apenas revela sentimentos emocionais e carnais para com o seu namorado então fugitivo... É quando percebe a sua própria solidão que "Maria" destrói, num acto de esgotamento emocional, não só as roupas de "David" como também uma misteriosa fotografia que mantém religiosamente guardada numa caixa. Nelas duas crianças e um homem com uma pose familiar que revela a eventual existência de laços consanguíneos entre ambos, facto que apenas ganha nova "confirmação" quando "Maria" explica o invulgar encontro inicial com o "namorado".
Privada de uma vida sentimental e emocional saudável com encontros e desencontros amorosos próprios e naturais no mundo dito exterior, "Maria" sente para lá do roubo que "David" faz ao dinheiro do professor, uma traição passional que a transformam numa mulher desesperada não tanto pelos milhares que lhe iriam conferir uma vida pacificada mas sim pelo perceber que toda a sua vida havia sido fruto de um potencial - para o espectador - incesto que para ela, até certo momento, deverá ter parecido "natural".
Joana Bárcia entrega à sua "Maria" uma loucura e um despeito evidentes mas contidos que o seu olhar transparece a cada instante. Como a sua personagem evidencia em diversos momentos, ela até é capaz de sentir o cheiro daqueles com quem se cruza tal a sua relação de interdependência e "cumplicidade" que com eles cria. Um desempenho forte e o qual agarra com as duas mãos e tal como a "Sara" de A Filha (2003), de Solveig Nordlund, "Maria" acaba por ficar consumida na sua própria rede de relacionamentos.
Na medida oposta temos o "David" de Miguel Borges - finalmente que o fazem regressar ao cinema com um desempenho à sua medida - que acaba por funcionar como um antagonista dos comportamentos de "Maria". Se esta procura uma continuidade - ou vingança - com o abandono de que foi alvo, "David" procura o escape de uma relação com contornos pouco claros e por vezes francamente dúbios que, tal como aquilo que é dado a transparecer ao espectador, se assume como proibida e até mesmo imoral. "David" foge, foge de si, do seu passado, das suas acções que (in)voluntariamente aparentam ter comandado a sua vida. Sem amigos, sem um passado conhecido e vidas conhecidos, nesta apenas com uma única mulher partilhou os seus sentimentos, emoções e sexualidade transparecendo - uma vez mais - que existe algo mais do que um simples "caso" que "surgiu na noite de Natal". Intenso nos seus silêncios e contido nos momentos em que exprime os seus poucos pensamentos permitidos, Miguel Borges dá ao seu "David" uma força desconhecida mas que não será, no entanto, de longa duração.
Já de Filipe Duarte, eventualmente o actor com um percurso cinematográfico que aparenta ser felizmente escolhido a dedo (passo a expressão), entrega ao seu "Lucas" uma dinâmica que o consome lentamente. Sem grandes objectivos, "Lucas" vive amargurado pela perda daquela que era a sua obra maior vivendo no silêncio um desgosto e uma dor que o fazem desligar-se não só do mundo ao seu redor como também daqueles poucos amigos - ou colegas de trabalho - que tem. Ele não quer saber de uma qualquer redenção ou "cura" da sua mágoa... quer simplesmente viver a dor de um sofrimento que sabe jamais irá ser amenizado. Duarte, que há dois anos estreou A Vida Invisível (2013), de Vítor Gonçalves consegue fazer transparecer a amargura e o desencanto das suas personagens para com a vida e o mundo sem que, no entanto, faça desaparecer o brilho de um qualquer objectivo por cumprir.
Com uma cativante direcção de fotografia de André Szankowski que parece inicialmente enclausurar tudo e todos nos seus próprios segredos para depois abrir o espaço sem lhes conferir, no entanto, qualquer redenção ou liberdade, Cinzento e Negro consegue ainda através da sua música original da autoria de Mário Laginha estabelecer uma interessante dinâmica entre espaço versus sentimento denotando uma intensa melancolia e presente desgosto que revelam que há prisões maiores do que aquelas tidas por detrás de grades.
A morte - essa sempre constante - acaba por perseguir todas estas personagens tanto em Lisboa como nos Açores fazendo apenas a transferência de um cenário mais "fechado" da capital para a magnitude de umas ilhas perdidas no meio do Atlântico onde todos podem (conseguem?) ser felizes anónimos onde o passado - pensam - não os persegue. Porque, como é dito algures, há algo mais mortal (ou perigoso) do que a própria morte... e esse algo são os segredos que apenas a alma esconde corrompendo-a silenciosamente.
.
.
8 / 10
.

Chus Lampreave

.
1930 - 2016
.

sábado, 2 de abril de 2016

Tereza Rachel

.
1934 - 2016
.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Nessuno si Salva da Solo (2015)

.
Nessuno si Salva da Solo de Sergio Castellitto é uma longa-metragem italiana presente na secção Panorama da Festa do Cinema Italiano que decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa até ao próximo dia 7 de Abril.
Gaetano (Riccardo Scamarcio) e Delia (Jasmine Trinca) preparam-se para um encontro. Separados mas com uma história comum, decidem jantar e falar sobre o presente e de como lá chegaram tentando recuperar o que de bom as suas vidas lhes proporcionaram. Poderá haver algum retorno àquilo que em tempos foram?
A mais recente obra de Castellitto enquanto realizador adapta a obra de Margaret Mazzantini - que também escreve o argumento - num filme que pretende não uma redenção das suas personagens mas sim mostrá-las em toda a dimensão das suas falhas, das suas obsessões e, no fundo, de tudo o que faz deles humanos enquanto tal.
É na mesa de um restaurante que "Gaetano" e "Delia" iniciam uma refeição inicialmente cordial e polida mas que lentamente, e com o reavivar das memórias que ambos preferiam esquecer, que todas as boas maneiras e palavras medidas para que nada ofenda e perturbe a tranquilidade que ambos desejam se desvanecem num conjunto de momentos que representam os seus mais profundos arrependimentos e mágoas.
Do primeiro momento em que se encontram e no qual passam o seu tempo juntos conhecendo e percebendo mutuamente os hábitos diários, àquele que os leva ao casamento, à partilha e finalmente à sua condição de progenitores de dois rapazes, "Gaetano" e "Delia" entram num ritual de costumes que lentamente os leva a um desgaste e a uma rotina que os torna primeiramente amargos e finalmente desejosos de uma libertação que apenas chega através da traição. A paixão que rapidamente se transformou em amor e cumplicidade foi aos poucos sendo substituída por um hábito em estarem juntos - a tal rotina - que os deixou conformados com a sua existência mútua num mesmo espaço e que apenas mantinham porque haviam construído uma família que, também ela, começava a dar os primeiros sinais de estar afectada com os seus conflitos silenciosos.
"Gaetano" acaba por ser o primeiro a reagir contra a conformidade encontrando uma mulher que, na prática, pretende dele o mesmo do qual ele tenta agora fugir - uma relação - depositando nesta nova mulher nada mais do que alguns instantes de prazer carnal e com a qual nada mais deseja. "Delia", mais moderada mas ainda assim à beira da sua própria ruptura limita-se a uma "traição" mais intelectual do que física abstendo-se, tanto quanto percebemos, a consumar o acto. No entanto, é também ela que acaba por fisicamente sentir mais este afastamento acabando por cair no mesmo distúrbio alimentar que, anos antes, lhe havia provocado vários problemas de saúde e auto-confiança.
Do conhecimento ao afastamento passando pelas fases do enamoramento e da repulsa, Nessuno si Salva da Solo transforma-se rapidamente num filme de memórias, de momentos e de cumplicidades e ódios entre um casal que, percebe o espectador, se mantém tão apaixonado como no primeiro dia mas que pelo rancor de uma mágoa se sente impedido de continuar a amar-se.... amando-se.
De casal que se adora a pais muito jovens que têm nos filhos o único elemento que os consegue unir mas que, ao mesmo tempo, lhes confere algum "stress-paternal" por serem agora duas novas vidas ao seu encargo não tendo eles próprios deixado de ser duas crianças adultas, tanto "Delia" como "Gaetano" encontram nas suas diferenças o ponto de um potencial - não confirmado mas sugerido - reencontro que lhes poderá reconduzir numa relação que agora os fará obrigatoriamente crescer. Ambos sabem onde erraram e o que têm de corrigir, ambos sabem que se amam demasiadamente para permitir que as suas vidas não sejam construídas em simultâneo e, como sugerido durante o jantar por um casal que os observa - momento sempre agradável por reencontrar uma fantástica Ángela Molina - se nós não fossemos mais do que pensamentos que qualquer um pensa... teríamos então a oportunidade de viver uma vida melhor... diferente... mais completa... ou simplesmente nossa livre de aquilo que se espera que ela - a vida - seja, concentrando-nos naquilo que esperamos e queremos dela fazer?
Com um final incerto que o espectador poderá interpretar cada um à sua maneira, Nessuno si Salva da Solo é para além de um filme de memórias e momentos passados em conjunto, uma história sobre aquilo que "fomos" e o que se espera (ou esperam) que sejamos esquecendo aquilo que nós próprios temos reservado para o nosso futuro - ou que dele esperamos - com duas intensas interpretações de Scamarcio e de Trinca que dão uma alma especialmente intensa às suas personagens - ambos nomeados ao David em 2015 - graças a uma direcção franca de Castellitto que se preocupa não com um embelezamento das mesmas mas sim com um fiel retrato de um casal comum a tantos outros.
Sentido e honesto, Nessuno si Salva da Solo concentra-se portanto no início, afirmação e fim (ou não) de uma relação que tem única e exclusivamente um só propósito... a existência de um amor sem fim.. ou pelo menos não controlado.
.

.
8 / 10
.
.