quarta-feira, 6 de junho de 2012

Little Voice (1998)

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Little Voice - Uma Estrela Caída do Céu de Mark Herman é uma talvez esquecida mas muito forte comédia dramática que conta com um elenco de luxo vindo das terras de sua majestade... Michael Caine, Brenda Blethyn, Ewan McGregor, Jim Broadbent e Jane Horrocks.
LV (Horrocks) é uma mulher absurdamente tímida que se refugia do mundo e das pessoas no seu quarto. Quer seja de dia ou de noite passa todos os minutos do seu tempo a ouvir os velhos discos do seu pai onde lendas como Judy Garland, Shirley Bassey ou Marylin Monroe conseguiam encantar tudo e todos com as suas soberbas vozes.
Mas LV não vive sózinha... a acompanhá-la está Mari (Blethyn) a sua problemática e despreocupada mãe que só pensa numa qualquer emoção mais forte que a faça esquecer o pardieiro onde vive, desprezando ao mesmo tempo a sua filha que considera como um estorvo na sua vida. Quando Mari conhece Ray (Caine), e vê nele a oportunidade que tanto esperava longe estaria de pensar que este se iria encantar com a voz de LV e quereria fazer dela a sua mais nova fonte de receitas. No entanto LV não funciona como os outros querem... não canta por dinheiro. Canta para poder homenagear a memória daquele que a marcou pela sua dedicação e amor... o seu pai.
Este filme divide-se em dois momentos muitos específicos. A primeira metade onde temos um escalar da construção das diversas personagens, e suas personalidades mais ou menos excêntricas, e na qual somos abalroados por um conjunto de momentos bem cómicos onde a decadência da moral e dos valores nos é entregue não como uma fatalidade de vidas sem rumo mas sim como uma consequência inerente a pessoas que são depreocupadas com o que se passa para além do seu próprio umbigo. Mari quer uma vida boa para si sem se lembrar da sua filha, Ray quer o lucro fácil e Boo (Broadbent) quer lucrar à custa dos esquemas alheios e tudo fazem para atingir os seus objectivos. Mais que vidas sem rumo eles são, à sua maneira, representações das frustrações daqueles que não cumpriram a sua vida no seu próprio tempo, e através dos seus actos podemos ver tantas e tantas pessoas com que nos cruzamos ao longo da vida.
A segunda metade do filme é, por sua vez, aquela em que todas as consequências dos actos tomados resolvem muito abruptamente explodir provocando um despoletar de todas as verdades até então recalcadas. Enquanto que por um lado Mari percebe o quão pequena e insignificante é a sua vida, LV descobre que afinal a voz que tem dentro de si não é apenas para dar vida àquelas cantoras já desaparecidas que tanto idolatra, fazendo-se ouvir pela primeira vez na sua vida.
O elenco de actores que dá vida a este tão bizarro conjunto de personagens não poderia ter sido melhor. Michael Caine, vencedor do Globo de Ouro por esta interpretação consegue, mais do que ninguém, dar corpo a estas personagens marginais e que fazem dos seus actos a sobrevivência do dia-a-dia, enquanto que por sua vez Brenda Blethyn que estamos habituados a encontrar em personagens humanas e sensíveis que fazem da sua existência uma luta pela própria dignidade aqui, pelo contrário, temos a dar corpo a esta Mari Hoff, Mrs. F. Hoff como ela costuma dizer (tentem perceber o significado deste apelido), uma mulher rude e desiludida com a vida que tem e com a ideia daquela que poderia ter tido e que descarregou no marido e no presente na filha, todas as frustrações por nunca ter alcançado o que sempre sonhou para si. Com uma nomeação ao BAFTA, ao Globo de Ouro e ao Oscar (a segunda) por esta interpretação, Blethyn mostra do que é capaz com qualquer tipo de personagem que lhe é entregue e que por sua vez nos entrega com toda a dedicação. Mesmo com esta tão vil personagem consegue conquistar qualquer um de nós que, mesmo revoltados com as barbaridades que profere, consegue ter sempre a sua eterna graciosidade.
Jane Horrocks para quem a personagem foi escrita para o teatro e que aqui assume uma vez mais a interpretação principal, é simplesmente divinal. A sua gentileza e simplicidade conquistam o coração de qualquer um de nós e percebemos muito facilmente como aquele quarto onde passa grande parte do seu tempo se torna no seu próprio mundo fechado a tudo e a todos. A própria decoração e o cuidado que nele investe destoam de imediato com toda a restante casa, e ela faz disso a sua batalha tentando mesmo que a sua horrível mãe, culpada da morte do seu pai (não por assassinato mas pela frieza das palavras que sempre usou), dali se mantenha afastada.
O filme não são só momentos pesados e dramáticos. Bem pelo contrário, temos durante quase toda a sua duração uma tentativa, sempre bem conseguida, de transformar mesmo os momentos mais intensos em ligeiros e soltas situações cómicas que nos dão um lado mais positivo mesmo da desgraça que insiste em bater fortemente à porta. A tragédia aqui é tanta que só pela comédia consegue ser encarada. Quando não existe mais nada que nos tire do buraco em que nos encontramos... o melhor é mesmo sorrir e esperar que passe.
Excelência na direcção e na interpretação, este filme consegue não só provocar-nos intensos momentos dramáticos como também muito boas situações de comédia das quais não conseguimos deixar escapar algumas gargalhadas.
Uma referência na inteligente comédia dramática britânica à qual se deve prestar muita atenção.
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"LV: He never spoke up to you because you'd never listen. I never spoke up to you because I could never get a word in!"
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9 / 10
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