quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Pinocchio (2002)

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Pinóquio de Roberto Benigni (Itália) foi o grande regresso do actor e realizador ao cinema italiano depois do seu Oscar de Melhor Actor por La Vita è Bella (1997) adaptando Pinocchio, o conto de Carlo Collodi, nesta obra de ficção.
Para lá do aconselhamento da Fada Azul (Nicoletta Braschi) e de Geppetto (Carlo Giuffrè), o seu extremoso pai, Pinocchio (Benigni), um boneco de madeira curioso e com um espírito irascível, decide aventurar-se por um mundo que não conhece e do qual não suspeita... mas há medida que mente quando é chamado à responsabilidade, o seu nariz reserva-lhe algumas surpresas.
Benigni e Vincenzo Cerami voltam a escrever juntos um argumento depois do de La Vita è Bella para o qual foram ambos nomeados para o Oscar e venceram o David di Donatello da Academia Italiana de Cinema numa das muitas incursões cinematográficas do conto de Collodi e aqui num verdadeiro festim de cor, luz e luxuosos cenários de época dignos de uma grandiosa produção. Da fábula a uma lição de moral sobre a educação, os bons costumes e a intensa necessidade de manter a verdade como um dos pilares de uma vida vivida com dignidade e respeito, Benigni e Cerami não se distanciam da mensagem pretendida por Collodi mas, no entanto, tendo como base a adaptação produzida por Walt Disney em 1940 - ainda que uma animação -, o espectador deixa-se embrenhar por um misto de estranhas emoções que transmitem tudo menos uma mensagem positiva.
Contrariamente ao efeito produzido pela obra de Disney, este Pinocchio de Benigni cativa inicialmente o espectador por todo um conjunto de opulentos cenários dignos de um conto de fadas e enriquecido por um guarda-roupa de excelência pelas mãos - ambos - de Danilo Donati (aqui premiado com dois David) mas, ao mesmo tempo, persiste uma sensação desconfortável quando observamos os (aqui) exagerados dotes interpretativos de um eufórico Roberto Benigni. Se toda a sua extravagância e joie de vivre funcionaram de forma dramaticamente emocionante e emotiva com o seu já mencionado La Vita è Bella, o mesmo não poderá ser afirmado com este frequentemente excêntrico e demasiadamente despropositado Pinocchio que o espectador facilmente confundirá com um conto sobre o como não tomar estimulantes antes de filmar (não que o actor italiano o tenha feito mas... lá que parece... parece!).
Benigni, uma verdadeira alma na sua obra de 1997 que lhe granjeou todo um conjunto de troféus incluindo o Oscar de Melhor Actor, surge aqui como um Pinocchio francamente alucinado que não tem paralelo com nenhuma outra adaptação do conto de Collodi, perturbando inclusive a memória de todos nós e do conto infantil que tem passado de geração em geração desde o início da década de '40. Longe de esfuziante mas muito próximo de uma alucinação exageradamente absurda - é impossível retirar conteúdo dramático convincente desta interpretação -, Benigni parece centrado numa única coisa... o conseguir ser estridente. Pouco convincente enquanto criança - afinal, é disso que se trata o Pinocchio de Collodi - incapaz de distinguir a verdade da mentira ou a percepção das consequências de cada uma delas, Benigni surge mais como um circense incapaz de fazer rir, igualmente incapaz de emocionar pela descoberta das consequências de uma vida tida nas margens da legalidade ou da pacífica convivência entre indivíduos ou tão pouco incapaz de se mostrar sensibilizado com a ideia da perda ou da morte. Num ritmo que, repito, se mantém constante na alucinação, esta sua obra parece apenas concentrada em chegar ao final... a um ritmo sempre frenético e imparável... imaginemos um comboio sem travões... eis esta versão de Pinocchio onde nem mesmo os secundários como Nicoletta Braschi (também produtora) ou Kim Rossi Stuart se conseguem distinguir nas suas interpretações secundárias mas que deveriam (ou poderiam) ter algum destaque na obra.
Do exagero sentido na dinâmica da obra e da interpretação de Benigni, esta obra seleccionada por Itália como seu representante para a edição correspondente dos Oscars como Melhor Filme Estrangeiro - seleccionada mas não nomeada -, destaca-se sim pela excelência nas categorias visuais nomeadamente na direcção artística ao criar todo um conjunto de magníficos cenários pelos quais o espectador se deixa enfeitiçar, bem como o já mencionado guarda-roupa de Danilo Donati capaz de fazer imaginar o que será uma obra de época centrada num qualquer mundo imaginado onde fadas, princesas e marionetas têm vida e são tão reais como qualquer um de nós. Mas, os elementos positivos são apenas e só estes... tudo o demais leva o espectador a um local inesperadamente solitário, esquizofrénico e talvez mesmo maníaco onde nada parece fazer sentido e onde o conto tradicional se distancia de um público alvo - o infantil - que tem cativado e conquistado há décadas.
Incapaz de recuperar a magia de La Vita è Bella - o que também não contribuiu para que esta obra tão aguardada conseguisse convencer o espectador mais expectante -, Pinocchio resume-se a um momento menos bom no percurso cinematográfico de um espontâneo Benigni que verbaliza o que sente sem que aqui conseguisse retratar alegria mas sim uma euforia desmesurada, que incomoda e tantas vezes é despropositada deixando saudades do seu eternamente jovial e humano "Guido".
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3 / 10
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