quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Down in the Valley (2005)

.
O Vale Proibido de David Jacobson é uma longa-metragem norte-americana que nos conta a história de Harlan (Edward Norton), um cowboy moderno que conhece Tobe (Evan Rachel Wood) e por quem se apaixona. Esta empatia alastra-se também para com Lonnie (Rory Culkin), o irmão de Tobe, que vê em Harlan uma figura paterna e cúmplice.
Quando a crescente cumplicidade de ambos se torna um problema para Wade (David Morse), pai de Tobe, as frágeis ligações entre aquela família serão severamente ameaçadas e as tensões acumulam ao ponto de as suas próprias vidas serem colocadas em risco.
Depois de grandes e sólidas interpretações como as que teve em Primal Fear e American History X que lhe valeram nomeações aos Oscars ou de Fight Club e 25th Hour, qualquer projecto que contenha o nome de Norton é por si só alvo de alguma atenção, especialmente se pensarmos que desde esses idos anos poucos foram os registos em que evidenciou todo o seu carisma e potencial enquanto actor não pela falta do mesmo mas sim pela falta de projectos em que realmente o conseguisse demonstrar.
Down in the Valley apresenta-se então como aquela promessa em que esperamos ver novamente um actor como Norton a brilhar num filme que já de si apresenta um interessante argumento, também da autoria de Jacobson, sobre uma América não tão profunda mas isolada de um certo mediatismo conferido às grandes cidades e à sua "vida". Aqui o que nos é apresentado é o outro lado da América. Aquela que apesar de se localizar num grande e importante centro urbano não deixa de, no entanto, mostrar um relativo isolamento, e até afastamento, do mesmo onde as pessoas ditas normais levam as suas vidas quotidianas nos seus trabalhos, nas suas vivências e principalmente nos seus problemas. É neste contexto que vamos encontrar "Wade", "Tobe" e "Lonnie". Longe de serem uma família perfeita eles são, em última análise, tudo aquilo que têm. São as suas próprias ligações ao mundo e as únicas testemunhas de que realmente existem (existiram). Numa relação familiar nunca esclarecida para o espectador (sabemos que "Wade" é pai de "Tobe" mas não de "Lonnie", e que estes dois são irmãos) e onde a presença de uma mãe ou do que lhe aconteceu é, também ela, desconhecida, estas três almas convivem num misto de receio, imposição, aproximação e distância que confunde o espectador sobre a sua verdadeira natureza.
É neste misto de insegurança e incerta que aparece "Harlan", um homem que parece não só fora do seu tempo como principalmente do seu lugar. Um mundo do qual se queixa pela sua falta de humanidade, de delicadeza e de compaixão, valores estes que "Tobe" e "Lonnie" inicialmente nele encontram e que dão origem a esta invulgar aproximação que por diversos momentos quase se assemelha a uma afectividade maternal. Assim, e sem grandes questões, a cumplicidade torna-se crescente mas, ao mesmo tempo estranha e invulgar. Invulgar pelo câmbio e inversão de posições transformando maior a cumplicidade entre "Harlan" e "Lonnie" e levando ambos para uma cavalgada ao pôr-do-sol quase surreal mas que o espectador percebe caminhar em direcção ao fim (de ambos ou de um).
Se por um lado Down in the Valley se revela como um filme quase hipnótico e que pretende dar uma perspectiva diferente do brilho das luzes e do encanto dos sonhos que são depositados numa América das oportunidades, não é menos verdade que no processo demonstra que estes sonhos não só não são possíveis como são repudiados e de certa forma impossibilitados criando toda uma geração (ou gerações) de renegados onde as suas vivências diárias se limitam a um conjunto de banalidades que os ajudam a atravessar os dias.
Longe de ser um daqueles filmes memoráveis sobre "as possibilidades", Down in the Valley consegue ser, como anteriormente referi, algo hipnótico. Existe uma quase perfeita conjugação de momentos, de luzes, de cor e de brilho que a fantástica direcção de fotografia de Enrique Chediak consegue captar e que nos faz deixarmo-nos levar pelas entranhas deste filme sem que, no entanto, consigamos com ele criar uma perfeita união. Falha esta que é, a meu ver, por uma notória falta de química entre as personagens e pela sua variação de polos de atenção. Se por um lado a dinâmica se deve às personagens interpretadas por Wood e Norton, não é menos verdade que esta cumplicidade vai decrescendo e dando origem a um outro vértice interpretado por Norton e Culkin sem que, no entanto, estes sejam a dupla esperada no início desta narrativa.
Interessante pelo retrato desiludido de uma América onde os valores da desconfiança e da violência imperam, Down in the Valley falha pela falta de exploração que dá a esta mesma temática preferindo contemplar a tentativa de relacionamento e de inserção de um homem que, na prática, nunca se chega a cumprir.
.
.
"Harlan: Walked up and down it looking for one open face, but most people I've meet hardly seem like human beings to me anymore."
.
6 / 10
.

Sem comentários:

Publicar um comentário