quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Sei Lá (2014)

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Sei Lá de Joaquim Leitão é a mais recente longa-metragem do realizador de Adão e Eva, Tentação, Inferno, Até Amanhã, Camaradas, 20,13 e Quarta Divisão, motivo pelo qual qualquer cinéfilo mais interessado em cinema português decida prestar atenção aos seus novos trabalhos. Pessoalmente é o que sinto até perceber que o seu mais recente filme era a adaptação da obra homónima da autoria de Margarida Rebelo Pinto o que me fez adiar o visionamento do mesmo até ser "obrigado" a fazê-lo visto ser este um dos seleccionados para consideração dos membros da Academia de Cinema ao Oscar de Filme Estrangeiro.
Feito o ponto de honra sobre os dois motivos que me levaram ao visionamento de Sei Lá, passo então à minha breve apreciação sobre o mesmo entrando assim nos meandros de uma Lisboa da última década do século passado onde acompanhamos as vidas de quatro amigas; Madalena (Leonor Seixas) vive o amor da sua vida, já ela de si perfeita, com Ricardo (David Mora), um misterioso espanhol que a encanta. Um dia Ricardo desaparece sem dar qualquer sinal de vida, e a dela parece perder todo o sentido que até então fazia.
Apenas as amigas de Madalena parecem alegrar um pouco o seu dia... Catarina (Gabriela Barros) no casamento pouco perfeito com Bernardo (Renato Godinho), Luísa (Ana Rita Clara), aquela que apenas parece viver para o próximo engate onde lhe interessa única e exclusivamente uma satisfação sexual de momento, e finalmente Mariana (Patrícia Bull), a artista e desencantada com a vida.
Quando a vida de Madalena parece não fazer qualquer sentido e o seu coração fechado para o futuro, eis que aparece Francisco (António Pedro Cerdeira), um igualmente misterioso homem que lhe confere algum encanto... até que, do nada, aparece Ricardo.
Ainda que todo este argumento pareça digno de uma daquelas novelas mexicanas de terceira categoria e feito com o único intuito de atrair um mais ou menos vasto público às salas de cinema sem que com isso se entregue uma história consistente e com algum nexo como já havia feito com os filmes anteriormente mencionados, aquilo que me preocupa profundamente é ver o nome de um cineasta como Joaquim Leitão associado a um filme que consegue ter menos qualidade que um qualquer telefilme que passa num daqueles canais manhosos da Europa de Leste à uma sexta-feira às quatro da manhã.
Esqueçamos por momentos que "Madalena", a personagem principal interpretada por Leonor Seixas, vive uma aparente depressão fruto de um desgosto de amor, e que por si só é um "pastel" suficiente de digerir pois parece que se inicialmente vemos algo perfeito demais para ser verdade, em breves momentos parece que descemos a um inferno de onde parece não existir fuga possível de tão penoso que começa a ser, e concentremo-nos sim no retrato de um Portugal, e mais concretamente de uma Lisboa, da era Expo 98 onde, tal como é referido, "se olhava para a Europa de igual para igual". Aqui sim começam os meus reais problemas com este filme e ideia que se pretende transmitir através de uma obra literária com uma mensagem muito "própria". Esqueçamos por momentos o facto redutor que esta mensagem pode trazer e uma ideia que parece querer ser instalada na mente de cada português de que somos pequenos, muito pequenos, e mais pequenos que os demais Europeus (que também somos), e concentremo-nos na imagem polida de uma Lisboa que parece feita apenas para alguns: restaurantes áureos, festas fúteis de pessoas insípidas e sem cor que se julgam um pouco mais do que os demais e as compras em lojas excessivamente caras para um país que nem na altura tinha dinheiro para tal (e esqueçamos o facto da Gucci nem existir no sítio em que é filmado), e tudo isto se já na época pouco reflectia do país e do seu povo hoje então parece um sonho de alguém que consome algum tipo de alucinogeneos que o fez "flipar" por alguns instantes. Se a isto juntarmos um conjunto de pessoas que se tratam constantemente por "você" como se isso lhes conferisse algum grau de uma superioridade inexistente, então por momentos pensamos que sim... estamos realmente perante algo que de transcendente pouco tem e que mais não é do que uma pobreza mais ou menos bem vestida dando lúcidos contornos à expressão popular "por cima folhos e rendas... por baixo..." (sabem ao que me refiro...).
O glamour (inexistente) e a sobriedade, apenas desejada e nunca concretizada, de Sei Lá morrem quase à nascença mostrando então que mais não temos do que alguém que sim, até pode ter uma vidinha mais desafogada mas que na prática não o aplicou de uma forma pensada mas sim numa total aparência para agradar não a si mas aos outros que pretende "caçar" para o seu meio. Já dizia o meu avô... a pobreza social no seu estado puro... é este sim o retrato de um Portugal que Sei Lá pretende captar.
Nada contra o cinema dito "comercial" para atrair massas e conseguir alguns "cobres" pois afinal todos nós temos de (sobre)viver neste Portugal sem brilho para além do natural, mas a imagem de um país que não existe (nunca existiu) de festas ofuscantes como se fosse o prato de cada dia é assumidamente absurdo. Isto não quer dizer que o país seja pobrezinho ou desgraçadinho, que os homens não se lavem nem que as mulheres tenham bigode ou andem na rua de lenço na cabeça (já nem as minhas avós andavam), mas querer criar à força uma imagem de uma modernidade alternativa (muito alternativa), só existe de facto nas ditas festas da "socialite" que convenhamos... é metida a um canto por qualquer outra dessa Europa para a qual se diz olhamos de igual para igual (nunca a olhei de outra forma), caindo assim num espaço ridículo onde se pensa que queremos deixar de ser como somos e ser algo diferente que não só não se percebe o que é como por tentar sê-lo... se auto-ridiculariza.
Para além de ser uma cópia barata de Sex and the City - sim barata pois nem se pretendeu ser um pouco original... afinal a protagonista até é escritora e as suas amigas mais não são do que réplicas das demais actrizes da referida série; a matadora sexual, a casamenteira desiludida e a infértil de amor - Sei Lá é ainda um chorrilho de momentos que assustam qualquer pessoa mais atenta. Desde as suas personagens desgraçadamente ocas que funcionam como robots de terceira categoria sem qualquer vida ou massa cinzenta... O "Gonçalo" de Pedro Granger e a "Luísa" de Ana Rita Clara mais não são do que dois animais com o cio desprovidos de qualquer outro conteúdo. Estão lá porque sim... afinal este filme precisava (?) de um momento sexual... e se pouco o há de facto temos de vê-lo pelas "línguas podres" que são conferidas às respectivas personagens. Ficamos também a saber pelos comentários dos mesmos que existem nomes "possidónios" tipo Vanda... afinal, num Portugal "limpo" existem nomes "decentes" do estilo Madalena... Mariana... e talvez Beatriz (falhou esta...).
Personagens bizarras que não ficam por aqui... afinal, elas são tantas... bizarras ao ponto de uma "Odete" (nome de pobre) interpretada por Rita Pereira que dá corpo à alpinista social disposta a tudo para ter um pouco do tal brilho ilusório mas que muito prontamente é remetida para um qualquer bairro do Barreiro (deduzo que isto signifique que por lá são todos "coitadinhos" também), ou o "Paulo" de Rui Unas como o, digamos, seboso chefe de redacção que todas quer comer mas que na prática...
Por aqui ninguém se safa nem mesmo com uma lobotomia...  ficamos a saber que fins-de-semana prolongados mais não são do que "mini semanas da depressão" - no "meu tempo" eram uma festa por ser menos um dia de preocupações - ou que os casamentos devem ser "aguentados" em nome dos filhos... mesmo que para isso se viva uma vida de auto-anulação, de sacrifício e de traições que se observam num quase silêncio de morte e de auto-flagelação (deve ser assim que as pessoas dessa tal classe alta vivem). Dos homens pouco abonatório existe... afinal como se diz "são todos uns cabrões", mas os comportamentos aqui retratados de algumas mulhers fazem delas umas... (não, não vou dizer... afinal a generalização é perigosa e há de tudo na prática). De tudo, até mesmo a tal "cabra" com sentimentos que vai encontrar o princípe encantado da sua amiga desencantada... afinal, até as cabras têm coração... quase poético... quase...
Finalmente, não poderia deixar de referir que Sei Lá é a nova bíblia das frases cinéfilas... aquelas que ficam para a eternidade... que criam História... que se tornam referências... temos aqui pelo menos duas que são exemplos daquilo que teremos para o futuro... maiores ainda do que o mítico "Vai à merda... Vai tu", também ela de uma obra de Joaquim Leitão, mais concretamente Adão e Eva. Sem grandes explicações para além das conclusões de porno-elegância que as mesmas conferem " (...) entra palhaço, sai palhaço" e "não mordes mas engoles"... Sá Leão volta... estás perdoado... porque isto ultrapassa os limites daquilo que é rasca.
Poderia arriscar dizer que Sei Lá é um filme para um conjunto de quarentonas que ficaram presas à sua pós-adolescência e que pelos vistos ainda por lá vivem, mas isso tornar-me-ia tão redutor quanto a obra em si. Como tal vou criar aqui uma comparação imediata com outro comentário que fiz recentemente: Sei Lá funciona na exacta medida contrária a 7 Pecados Rurais... se este último foi um circo dos horrores rurais... o primeiro é um circo de horrores urbanos... um pequeno nicho de alarvidades de um meio pequeno, felizmente muito pequeno, que tenta impôr um certo estilo e padrão de vida que desprovido de reais assuntos e metas se prolonga numa existência vã, fútil e desinteressante que a poucos interessa. Na prática é tipo um Jardim Zoológico... todos nós queremos ver o que por lá se passa mas nenhum quer viver dentro daquelas jaulas.
Decididamente a pior obra alguma vez apresentada por Joaquim Leitão que, embora competente na sua execução é, na prática, uma nódoa no seu curriculum e o mesmo serve para qualquer um dos seus actores, alguns dos quais que cresceram ao mesmo tempo que muitos de nós e que não precisavam disto nos seus percursos profissionais.
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"Francisco: Eu não mordo... engulo."
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