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domingo, 31 de dezembro de 2023

Francisco Lázaro - Maratona Sem Fim (2021)


Francisco Lázaro - Maratona Sem Fim de Ricardo Espírito Santo (Portugal) é um documentário em formato de longa-metragem produzido para a RTP sobre a trágica história do maratonista português falecido durante a respectiva prova nos Jogos Olímpicos de 1912, em Estocolmo.
Com o recurso de imagens de época e notícias da imprensa escrita, o documentário do realizador de  Amo-te Teresa (2000) e Começar de Novo (2021) enriquece esta obra com testemunhos de alguns dos descendentes do maratonista residentes no Brasil bem como com alguns factos históricos curiosos do seu treino ainda em Lisboa dando a conhecer ao espectador pequenos detalhes sobre a vida de um homem cujo nome muitos podem reconhecer mas que, na realidade, poucos sabem para lá do trágico desfecho da sua vida.
Das suas relações familiares à amorosa. Do seu treino solitário pela capital onde se destacava pelo parco tempo com quem realizava provas que a todos deixava em espanto e delírio sem esquecer a próxima relação com a família real sueca que a tragédia fez nascer, é a semelhança da sua história com aquela da Antiguidade na qual se inspira a própria essência da prova da Maratona, que aqui desperta a maior curiosidade junto do espectador. Francisco Lázaro teria o mesmo fim que o primeiro "maratonista" tivera aquando do tempo em que correu a distância de 42 quilómetros para avisar Atenas de que os seus soldados haviam ganham a batalha contra os Persas. Francisco Lázaro não conseguiu resistir toda essa distância mas a semelhança do seu trágico final com aquele que teve o soldado Fidípedes que, para dar notícias da glória Ateniense, sucumbiria no final do seu percurso é inquestionável.
Com alguns detalhes curiosos sobre a origem do seu nome, dos seus hábitos, da sua família e da sua descendência que, confessado pelos próprios, também desconheciam até muito recentemente alguns dos seus feitos persiste a sua memória que se faz ainda sentir em Estocolmo com placas evocativas da sua tragédia.
Francisco Lázaro - Maratona Sem Fim destaca-se assim como um documentário ligeiro e didático - cumprindo no fundo os verdadeiros propósitos de um canal de televisão público -, dando a conhecer parte da vida familiar e da obra desportiva de um dos mais emblemáticos atletas portugueses cujo nome persiste na memória colectiva nacional mas sobre o qual, infelizmente, ainda poucos sabem identificar o seu feito por cumprir.

7 / 10

sexta-feira, 19 de maio de 2023

The First Sunday After the First Full Moon (2021)

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The First Sunday After the First Full Moon, de Greta Griniute (Lituânia) é também uma das curtas-metragens presentes na secção Comédia da edição deste ano do Festival Internacional de Cine de Piélagos que amanhã chega ao seu final.
De regresso de Londres à sua Lituânia natal, DJ Egle (Elzbieta Latenaite) tenta celebrar a Páscoa em família e na presença do seu namorado britânico. Mas quando as tradições e os costumes se interpõem à celebração e reunião familiar, as confusões não tardam em surgir e fazer revelar muitos pensamentos que ficaram por dizer.
As primeiras impressões que esta curta-metragem transmite ao espectador são graças à sua enorme exuberância que fica imediatamente deslumbrado com a diversidade de cor que aqui lhe é apresentada. Num ritmo interessante onde nada é imposto mas surge sim naturalmente à medida que cada fotograma é apresentado, The First Sunday After the First Full Moon é um verdadeiro deslumbrar de cor e de vivacidade que apenas saem contrapostos com a calma apresentada pelas suas diversas personagens sempre pomposamente compostas com os melhores trajes de uma época de celebração mista entre o popular pagão e o religioso formal como o é a Páscoa. Contrariamente ao que poderíamos esperar num filme do sul da Europa onde tudo e todos são igualmente vibrantes mas suficientemente expansivos para dominar todos os segundos de um filme, aqui as personagens expõem essa vivacidade não graças aos seus comportamentos mas sim visíveis pelas suas vestes que espelham cores fortes e vivas... não quentes mas visualmente intensas que nos dominam desde o primeiro instante fazendo querer apreciar todos os pequenos detalhes que aquela pequena casa onde tudo acontece sejam controlados pelo nosso olhar.
Aquilo que parece uma típica reunião familiar para celebrar uma, senão a mais, importante festividade cristã cedo se revela como o momento em que tudo o que está por dizer consegue encontrar um caminho para ser dito. Nem sempre de forma mais subtil... aliás, quase nunca... mas existe todo um conjunto de pensamentos, anseios e desejos familiares que ali são revelados como as verdades individuais daquilo que "ficou por dizer". Dos receios da apresentação de alguém que será o novo membro da família expandido as suas fronteiras para lá daquilo que já é conhecido aqui representado pela presença de "Stanley" (Michael Tcherepashenets), o namorado inglês que se apresentada à família lituana e que é, no fundo, aquele que poderá fazer com que "Egle" que se mantenha distante das suas raízes, sem esquecer o receio dos que não partiram e que sentem a solidão, esse afastamento e o desenraízamento de um membro dos seus, The First Sunday After the First Full Moon espelha de forma exemplar a vontade (ou necessidade?) em partir, em conhecer o mundo que está para lá do inicialmente possível e sobretudo a vontade de compreender que "lá" não estão "os outros" mas também sim uma pequena parte de "nós".
Entre os ressentimentos e o amor, a homenagem ao passado com vista a um futuro diferente sem esquecer as raízes ou as origens mas mantendo vivo um ideal de futuro, esta curta-metragem celebra sobretudo uma dinâmica e exemplar viagem visual que transforma todo um ambiente potencialmente frio de afectos numa intensa celebração daquilo que é essencialmente superior... as escolhas que se fazem para a vida.
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7 / 10
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quinta-feira, 18 de maio de 2023

Fracture (2022)

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Fracture de Panagiotis Fafoutis (Grécia) é uma das curtas-metragens seleccionadas para a competição Internacional da décima-terceira edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos que termina já no próximo dia 20 de Maio na Cantábria.
No hospital, um casal vê a sua tranquilidade interrompida quando uma visita do passado cria um inesperado triângulo sentimental. Por momentos todos ficam reféns comuns tendo de cooperar, eleger e ser eleitos num mundo crucial da vida de todos.
Enquanto "Antoni" está hospitalizado e tem a companhia de "Marta", a dinâmica de casal é compreendida pelo espectador com algo que já lhes é natural e inato. Existe cumplicidade e dedicação que apenas uma vida em comum durante décadas confere a este casal que agora se encontra num momento crucial e chave das suas vidas... Poderá ele significar um fim... uma viragem... uma nova abordagem à sua relação... tudo lhes é desconhecido. Desconhecido e incerto quanto esta "tranquilidade" é interrompida com a chegada de "Areti", uma velha paixão do passado que cria uma inesperada instabilidade no casal que aqui se revela como um triângulo que, na realidade, nunca foi encerrado ou descodificado por nenhum deles.
Se para o espectador a dinâmica entre as duas personagens iniciais se assume como a relação sentimental mais forte e que perdura há mais tempo, o mesmo é surpreendido quando são finalmente revelados os graus de parentesco entre este triângulo e que desmistificam as realidades vividas entre este "trisal" que há muito se havia formado. Se por um lado é a dinâmica entre "Antoni" e "Marta" que se assume como a mais forte e intensa, rapidamente descobrimos que esta relação perdura graças a um fim não anunciado do matrimónio do primeiro com "Areti" que agora surge como a esposa abandonada (ou que abandonou?!) para que o novo casal pudesse viver o tal amor que sentia. E, ao mesmo tempo, se a dinâmica do homem com as duas mulheres cedo se compreende como algo que, na realidade, nunca terminou, é o cuidado que as duas mulheres têm para aquele que foi (e é...) o amor das suas vidas que desenvolve primeiro uma relação de cumplicidade pela necessidade de o apoiar e finalmente uma relação de posse para se afirmarem e compreenderem (elas e nós) quem é, na verdade, a real "mulher" de "Antoni".
Em breves instantes a curta-metragem de Fafoutis desenvolve a perfeita trama sentimental que, mesmo que resolvida, nunca entrega uma resposta definitiva ao espectador. Se uma se afasta perde-se o amor de uma vida mas, no entanto, se se afasta a outra, o resultado deste encontro pode por um lado abalar os alicerces já formados como também criar a imagem de que mesmo distante... o matrimónio nunca se desfez na realidade.
Dotado de três intensas interpretações com um claro destaque para as duas actrizes protagonistas que tomam o pulso a todo o enredo pois são elas que disputam o ecrã e a atenção daquele que é mais ou menos assumido a imagem do amor para ambas (uma que o cuida de perto e a outra que se deslocou não saberemos de onde para lhe dar apoio no seu momento mais crítico), é toda a envolvência criada em seu redor que nos deixa emergir nesta história onde os silêncios espelham dedicação e carinho, amor e compreensão mas sobretudo a imagem de que mesmo distantes ou que as suas vidas tenham levado um inesperado e diferente rumo é, nestes momentos de crise e necessidade de apoio, que surgem as verdadeiras manifestações de amor... ou amizade... não se confundiram ambos?! Os papéis sociais do matrimónio podem estar dispersos... difusos até... mas há elos mais fortes, por vezes até inexplicáveis, que nos fazem aproximar daqueles com os quais poderemos não conseguir viver diariamente pela intensidade das relações que se manifestam mas que, ao mesmo tempo, dos quais não poderemos manter uma distância eterna sobretudo quando se compreende a necessidade de apoio que um deles manifesta.
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8 / 10
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sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Ferry (2019)

Ferry de Tyler Hatch (EUA) é uma das curtas-metragens de animação presentes na selecção oficial do Buried Alive Film Festival a decorrer em Atlanta e um dos mais intrigantes e curiosos filmes curtos da competição até ao momento.
Uma viagem de ferry. Uma tentativa de chegar ao outro lado. Alguém que adormece e a imagem de "outro lado" ganha toda uma nova dimensão.
Num breve minuto o realizador Tyler Hatch consegue criar uma das histórias mais enigmáticas e interessantes da competição até ao momento. Tudo aquilo que parece ser uma aparente e banal viagem para a margem oposto em que uns se dirigem para os locais de trabalho e outros para casa ganha novos contornos quando a mesma, sem grandes e aparentes explicações, se vê interrompido por aquilo que o espectador sabe posteriormente ter sido um acidente que vitimou todos os seus passageiros.
A revelação chega, para o espectador, quando o único suposto sobrevivente (?) desta viagem desperta do seu sono para encontrar o barco vazio. Nenhum passageiro, nenhum tripulante e o barco à deriva pelo rio até chegar a uma cidade que está, também ela, deserta. Os vestígios de humanidade mantêm-se presente na medida em que observamos aquilo que parece o que restou de alguém que saiu rapidamente daquele espaço. Mas, no entanto, ao contrário de um qualquer vírus, é então que o espectador compreende que aquele barco sofreu um desastre e que não há sobreviventes... há excepção daquele único homem que apenas tem como companhia o espectador desesperado por saber mais dos trágicos acontecimentos.
Do purgatório anunciado a um Inferno materializado, as ruas daquela cidade e as águas daquele rio que viu o final de tantas e tantas almas, todos os recantos deste brevíssimo filme conseguem cativar pela sua mórbida exuberância bem como por toda uma história que revela o essencial daquilo que uma alma desperta consegue reter mas não tudo aquilo que quem está deste lado do ecrã pretende saber, ver e testemunhar.
Ferry é o exemplar perfeito de como uma (não tão) simples curta-metragem de um minuto poderia ser, por todo o seu potencial, uma extensa e intensa longa-metragem de terror que certamente se iria firmar como uma das mais esperadas do género... e uma à qual não dou uma pontuação mais alta por tudo aquilo que poderia ser ainda contado... Do acidente às vítimas... do purgatório às almas penadas... Nada, mesmo nada, é deixado ao acaso.
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7 / 10
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quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Ferine (2019)

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Ferine de Andrea Corsini (Itália) presente na décima edição do Buried Alive Film Festival a decorrer em Atlanta, é uma das curtas-metragens que passou inclusive do Festival Internacional de Cinema de Veneza aqui numa história que mescla o sobrenatural com o terror urbano.
Uma mulher (Anna Della Rosa) parece guiada por um conjunto de impulsos mecânicos e violentos. Num parque de estacionamento persegue um homem (Alessandro Mor) para um destino desconhecido mas maior do que se parece anunciar. A floresta por detrás da sua casa assume um propósito que tudo irá desvendar.
Corsini assina também o argumento desta curta-metragem que durante todo um segmento inicial apresenta ao espectador uma mulher cujos métodos e comportamentos em tudo se aproximam a um estado selvagem. Desconhecemos quais os seus fins ou mesmo os propósitos de se entregar a uma existência que está para lá da socialmente aceite. No entanto, ao entendê-la naquilo que seria o seu meio natural, fora da floresta e agora dentro de uma casa com aquilo que se pensa a vida esperada por todos, percebemos que em tempos aquele fora o seu espaço mas que por qualquer circunstância a vida a encaminhou para um comportamento anti-social e assumidamente anti-natura deixando-a (agora) quase esquecida e incapaz sobre como executar as mais simples tarefas.
Com um propósito claro seguimo-la àquele que deduzimos ser o seu espaço predatorial. Se o comum dos mortais se dirige a uma floresta para a caça à sua presa, esta "mulher" dirige-se ao outro lado da realidade onde, naquele que poderia ser o seu habitat natural (um parque de estacionamento), encontrar a vítima da saciar os seus desejos. É neste espaço que um qualquer "homem" cruza o seu caminho, que ela persegue observando todos os seus comportamentos e rituais socialmente aceites como fumar um cigarro ou comer algo, e do qual ela lentamente se aproxima para conseguir finalmente capturar. Primeiro por um jogo de sedução típico de um comportamento mais animalesco e depois pelo sexo criado pela ilusão de posse - uma forma de satisfazer as suas necessidades mais básicas -, este "homem" é transportado para uma realidade mais adversa ou incompreensível quando o espectador já comprovou que esta "mulher felina" teve, em tempos, a mesma vivência que qualquer um de nós. No entanto, a floresta chama-a para a sua rede.
Como qualquer predador, também ela não eliminou a sua presa deixando-a apenas susceptível de uma maior fragilidade naquele que não só não será o seu ambiente como também é aquele em que ela domina pela excelência da habituação... e quando pensamos que finalmente presa escapa a predador é quando as ilusões terminam e se confirmam as certezas de que a floresta tem mais vida do que aquela que se revela inicialmente... porque todos os predadores têm a sua prole... e todos, sem excepção, precisam ser alimentados para a manutenção do ecossistema... assuma-se esta de que forma fôr na presente realidade daquela mulher. É então que, desprovidos de qualquer sensibilidade ela outra vida, se confirma apenas a necessidade de sobrevivência, subsistência e manutenção do ciclo da vida... tal como ele é na realidade.
Intenso pela abordagem dada pelo realizador à forma como, muito rapidamente, a figura humana se priva de sensibilidade ou empatia, independentemente de quais sejam os motivos que o levaram até lá bem como pela sua componente de intrínseca sobrevivência que se sobrepõe a qualquer forma dessa referida humanidade e que prima - a curta-metragem - pela soberba interpretação de Della Rosa cuja linguagem corporal não só se assume sedutora como também instintivamente mecânica como que constantemente a definir o seu território.
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7 / 10
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Five Course Meal (2018)

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Five Course Meal de James Cadden (Canadá) é uma das curtas-metragens presentes na selecção oficial da décima edição do Buried Alive Film Festival a decorrer em Atlanta até ao próximo Sábado dia 16 de Novembro.
Mark (Murray Farnell) e Jenny (Melissa Kwasek) preparam-se para uma experiência. Um mês numa sala onde são observados e onde são saciados da sua maior necessidade... Até um dia.
O realizador e Josh Saltzman assinam o argumento desta curta-metragem que explora num misto de terror e comédia grotesca, a forma como cada um podia sentir-se tentado a saciar a sua maior necessidade (ou dependência) explorando os limites da realidade voyeurista, da ciência (se aplicável) e, ao mesmo tempo, correspondendo as mesmas a uma satisfação física, psicológica e sobretudo monetária que os nossos dias tendem a colocar, cada vez mais, em primeiro lugar.
Fechados, por vontade própria, num espaço exíguo e onde, percebe o espectador, a sua dignidade irá ser muito limitada quer pelas condições quer pela exposição - mediática ou não - a que vão ser sujeitos, este casal entrega-se a uma convivência que irá ser assumidamente de saciar as suas perversões alimentares ao seu máximo onde a própria higiene aparenta ter tirado as suas férias.
É quando a fome - vontade ou necessidade?! - chega, que "Mark" e "Jenny" primeiro se alimentam como dois seres bem comportados e educados num ambiente social que, aparentemente, lhes foi favorável. Mas é quando terminam a refeição que o espectador compreende que estes comportamentos sociais rapidamente se desvanecem. Ao som de uma campaínha - qual experiência Pavloviana -, o casal é servido... primeiro como se se encontrassem num restaurante familiar, depois como num meio mais recatado e sucessivamente degradando as condições em que recebem alimento - não as do "restaurante" pois este é, desde o primeiro instante, um espaço degenerado e decadente ao estilo de uma prisão real - que, também o próprio, é cada vez mais salubre e de confecção duvidosa.
Os comportamentos do casal acompanham aquilo que lhes é fornecido. Primeiros educados e socialmente formatados para, de seguida, se tornarem não só mais ansiosos como também agressivos, defensivos e até mesmo selvagens lutando por todos os pequenos restos que lhes chegam ou são deixados da fornada anterior. Tudo parece começar a escassear... sobretudo a sua paciência para uma espera que, ainda que cada vez menor, parece aumentar a sua cadência.
As suas roupas começam a ser pequenas para aquilo que engordam e ainda que a alimentação fornecida se transforme de um belo repasto nos restos já digeridos de um qualquer animal, o casal parece não se importar com a agressividade que denotam um para com o outro encarando-se (através da sua fome, ou melhor, da sua gula) como inimigos e potenciais ameaças para aquilo que se adivinha... o seu próprio fim material.
Notável como uma experiência e teste ao comportamento humano, ainda que exagerado - ou talvez não - mas simbolicamente preciso, Five Course Meal transforma-se num relato assustador não pela experiência em si mas pela mensagem de controle psicológico que se desenvolve desde os instantes iniciais onde o espectador compreende a manipulação das personagens primeiro através da atribuição (deduzimos) de um qualquer benefício pela participação na experiência, depois pela compensação alimentar que os próprios pedem e, finalmente, pela permissão do controle sobre os impulsos como forma de obter essa compensação agora cada vez mais escassa obrigando à formatação de novos objectivos e fontes de sustento.
Engenhosa pelo seu argumento e pela direcção de arte que transforma uma pequena e salubre sala num labirinto claustrofóbico de emoções levadas a um limite máximo, esta curta-metragem canadiana é um exemplo de que as já idas e repudiadas experiências Pavlovianas são, afinal, possíveis de voltar a concretizar... e ter o seu "sucesso"... signifique este o que significar.
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7 / 10
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sábado, 14 de setembro de 2019

Feliz Natal, Sr. Monstro (2019)

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Feliz Natal, Sr. Monstro de João Pais da Silva e André Rodrigues (Portugal) é uma das dez curtas-metragens em competição ao Prémio MOTELx de Curta Portuguesa de Terror nesta décima-terceira edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa a decorrer no Cinema São Jorge até amanhã dia 15 de Setembro.
Na noite de Natal uma menina (Luana Lina) percorre os corredores de um centro comercial abandonado quando encontra um homem vestido de Pai Natal (Fernando Rodrigues) que ali procura algo. Mas... o que poderá estar por ali escondido?!
A atmosfera criada nesta curta-metragem consegue ser o seu elemento mais forte. Se inicialmente o espectador compreende que aquilo que observa é apenas um (mais um) espaço abandonado fruto de uma qualquer crise económica e financeira que levou a comunidade consumista a retrair os seus gastos, cedo se apercebe que aquele espaço é sim o fruto de uma outrora opulenta sociedade de consumo que, graças a um qualquer cataclismo social, se transformou num espaço de memória daquilo que outrora "foi". O mundo e os símbolos do poder económico que conhecemos hoje são aqui o espelho de um passado distante para uma jovem como a aqui representada por Luana Lima. O mundo, como o conhecemos, terminou... as causas, consequências e efeitos desconhecemos para além deste óbvio fim. O consumo terminou. A sociedade de comunicação é agora inexistente. E o conhecimento, esse... é apenas pertença dos mais velhos ou, pelo menos, daqueles que o tiveram, ainda que brevemente, na sua também já ida juventude.
Mas... a busca deste Pai Natal continua... algo poderá estar ali escondido... será algum bem desse ido passado... alguma memória... alguma esperança de encontrar alguém como ele que também recorde... ou simplesmente alguém que, tal como ele, ainda exista desse passado... na realidade o espectador nunca o saberá concretamente remetendo-se apenas para os silêncios que aquelas paredes abandonados insistem em manter e para a estranha e solitária presença daquela jovem que, tal como ele, parece perdida num espaço a que chama de casa mas que, na realidade, não sabe caracterizar ou compreender o que foi.
A presença desta jovem, ainda que relativamente enigmática até ao final, é curiosa na medida em que ela acaba por representar aquilo que aparentemente já não existe... a juventude. O tal "monstro" que se esconde solitário nas sombras de um espaço que nesse já referido passado existia e que o "povoava" como o seu habitat natural. Agora, cruzando livremente os espaços mais ou menos sombrios daqueles corredores, a sua jovem figura é representativa desse desaparecimento (desconhecido) de toda a civilização tal como fora conhecida... afinal, para lá das luzes de Natal que insistem em brilhar pelos corredores, todos os sinais de vida estão eliminados daqueles corredores ou escondidos em contentores que já ninguém reconhece ou procura.
Interessante sob uma perspectiva dada de um potencial holocausto ou fim do qual ninguém sabe ou justifica, a curta-metragem Feliz Natal, Sr. Monstro precisaria de uma maior capacidade de representar o medo (o perigo... ou o fim?!) transformando-o naquilo que, na realidade, ele será... tenebroso. Compreende o espectador que estamos perante uma sociedade que terminou... mesmo até perante o fim da Humanidade (ou de uma boa parte dela) pela ausência de vida dita "adulta" que co-habite aqueles enormes e desertos corredores mas, de facto, esta compreensão deve-se mais à dedução ou intuição do mesmo do que propriamente à constatação desse "fim" como um "acontecimento" - local... mundial?! - que transformou esta jovem (ou aquilo que ela fôr) e o seu meio nesta nova realidade desprovido de um qualquer objectivo.
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5 / 10
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Faz-me Companhia (2019)

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Faz-me Companhia de Gonçalo Almeida (Portugal) é uma das longas-metragens presentes na competição oficial do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa.
Sílvia (Cleia Almeida) dirige-se para uma casa perdida no campo que alugara para se encontrar com Clara (Filipa Areosa), a sua amante. Aquilo que se fazia adivinhar com um fim-de-semana de prazer e cumplicidade cedo se revela como uma viagem ao seu subconsciente quando a casa em que se encontram parecer ter, ela própria, algo que esconder. Irá a relação entre Sílvia e Clara resistir?
Desde os primeiros instantes de Faz-me Companhia que o argumento de Gonçalo Almeida tenta recuperar o universo do "mal interior" onde os sentimentos de culpa da protagonista tendem a entrar num conflito silencioso com um qualquer mal adormecido que encontrou refúgio naquela casa onde agora ambos se cruzam. Algo existe que perturba "Sílvia" e, ainda que desconhecido para o espectador, este "mal" apresenta-se lentamente - ou assim se pensa -, prestes a afirmar-se enquanto uma personagem semi-secreta que tudo fará para ganhar uma nova vida. Desconhecemos se uma vida passada que ali se extinguiu ou mesmo se um mal sobrenatural que busca um receptáculo para dar corpo à sua alma perdida - não esquecer que "Sílvia" está grávida -, mas algo existe dentro dos limites daquela propriedade prestes a revelar-se e mesmo, pensamos, ganhar forma humana.
No entanto, esta tentativa de recuperar um fio condutor que se prenda com esse já mencionado "mal interior", Faz-me Companhia acaba por se perder na vontade de ser um The Amytiville Horror (1978), de Stuart Rosenberg assumindo-se apenas como um híbrido que vive do espírito do que poderia ter sido mas que na realidade não se consumou. Senão, vejamos... a longa-metragem de Gonçalo Almeida revela-se com a viagem rumo a... onde o espectador apenas se familiariza com a personagem interpretada por Cleia Almeida. Uma vez chegada ao seu destino, "Sílvia" inicia uma outra viagem, agora de descoberta, àquela casa que sente ter algo por revelar mas que continua a habitar numas sombras manifestando apenas a sua presença nos momentos em que os silêncios povoam o espaço... "Se bater três vezes... é porque "ele" está lá". Previsível em boa medida ignorando todos os momentos em que poderia cativar não só pelo mistério como também pela sugestão, tantas vezes mais assustadora do que aquilo que de facto se confirma numa história deste género, Faz-me Companhia limita-se à superfície do conto de horror que não se chega a confirmar.
Mais, o fim-de-semana que se pretendia de romance, cumplicidade e até eventuais metas comuns a atingir que seriam interrompidas pela terceira, e não assumida, entidade que as acompanha, acaba por ser algo explorado de forma francamente superficial não consumando nenhuma empatia entre as duas protagonistas que, à parte de nos ser revelado que mantinham um caso sentimental e amoroso em segredo, pouca cumplicidade é aqui revelada. Diz-se - do género - que o sexo é uma das portas de entrada para esse "mal escondido"... se assumirmos a sua existência entre ambas "noutros tempos", então este mal existe para lá daquele local mas sim como resultado de vivências passadas que as acompanha esperando apenas pelo momento exacto... Faz-me Companhia - enquanto título e pensamento/sentimento - seria assim o resultado de algo que se quer vincular a uma existência terrena, que existe na realidade enquanto forma em busca de uma matéria mas não algo que surge de um espaço mas sim das experiências anteriores... enquanto acompanhante de uma ou de outra (sendo Filipa Areosa a outra protagonista), está escudado do conhecimento do espectador... mas a realidade é que se encontra nesse vazio não terreno nem celestial e que a sua solidão é manifestada pela vontade de ganhar forma. A casa - ou as experiências que se pretendiam ali consumar -, será então uma espécie de útero feminino - a "Sílvia" de Almeida está grávida de uma relação heterossexual que mantém para a sociedade - prestes a confirmar forma física para algo que se esconde e que lentamente dá os primeiros passos para essa manifestação junto de "Clara" (Areosa), mais susceptível a uma realidade que está, até então, ignorada ou não tão disponível de encontrar a credibilidade que nela encontra.
Potencialmente interessante na medida em que nos encontramos perante uma das raras entregas de cinema de terror português em formato de longa-metragem - "recentemente" e neste género apenas recordo Coisa Ruim (2006), de Tiago Guedes e Frederico Serra -, Faz-me Companhia teria sido muito mais bem sucedida confirmando a essencial química entre as duas protagonistas que aqui se esbateu apenas na percepção de que ambas mantêm (mantiveram?!) uma relação que ali encontrará um destino diferente e, sobretudo, a casualidade de que os sons e as sombras conferem um melhor resultado neste género de filme quando não existe a necessidade de explicar nem a sua origem nem o seu propósito... a casualidade, essa eterna aliada do cinema de terror, confere ao espectador a compreensão de que existe algo "do lado de lá" escondido por detrás de uma qualquer porta, desesperado por se fazer anunciar mas que o próprio filme mata com a necessidade de justificar, explicar e demonstrar de onde vem... e por detrás de qual porta se esconde.
Destaque positivo para a direcção de fotografia de Alex Grigoras e para um leve - muito leve - piscar de olho ao cinema de género italiano dos anos '70 mas que como consequência de todas as fragilidades apresentadas não se deixa cumprir enquanto um desses esperadas exemplares do terror Faz-me Companhia consegue, de facto, abrir o apetite para o estilo não conseguindo, no entanto, satisfazer essa "fome" por um bom filme de terror.
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4 / 10
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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Fake Blood (2017)

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Fake Blood de Rob Grant (Canadá) é um documentário presente na secção Serviço de Quarto da décima-segunda edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que ontem começou no Cinema São Jorge.
O realizador Rob Grant e o seu amigo de adolescência Mike Kovac fizeram sucesso no circuito de festivais com os seus filmes violentos. Um dia, Rob recebe um vídeo de fãs que explica como praticariam os seus actos de ficção na vida real. Concentrados em analisar os efeitos da violência no cinema nos espectadores, Rob e Mike acabam por cair numa rede de violência experimentando, na primeira mão, a vivência de verdadeiros criminosos e os efeitos reais nas suas vítimas.
Grant, Kovac e Michael Peterson assinam o argumento deste documentário sobre os efeitos da violência no cinema conseguindo, de forma hábil, inteligente e por vezes emocionalmente cómica embrenhar o espectador na sua história enquanto vítimas daquilo que investigavam. Tudo começa com a simples questão... "estaremos a influenciar pela negativa aqueles que assistem aos nossos filmes?"... Pergunta essa que lentamente acabaria por ser respondida das mais diversas formas sem nunca esquecer, no entanto, que a verdadeira temática desta obra não está naquilo que eles buscam mas sim nos efeitos que essa procura exerceu não só nas suas vidas como principalmente nas suas relações e efeitos de encarar o mundo sob uma perspectiva diferente.
Em Fake Blood, o primeiro momento destina-se a uma exploração sobre o cinema... do grunge ao mais violento, do sangue à consequente morte, levanta-se a questão sobre o que será pior... ter um filme no qual alguém é ferido mortalmente sem nunca exibir sinais de sangue ou, por sua vez, um no qual o espectador compreende que o resultado directo de um acto de violência é o sofrimento de uma vítima? Num mercado cinematográfico rendido às classificações etárias e cauteloso com a violência que exibe, Fake Blood - enquanto documentário - insere uma interessante perspectiva que elucida o espectador mais desatento que está, propositadamente, a assistir a algo que independentemente de ser violento... nunca observa um efeito ou consequência directa da mesma. Há sempre quem sobreviva a tiros, lutas intermináveis das quais ninguém sai, na realidade ileso, ou mesmo mortes que, afinal, não o são.
No entanto, é à medida que Fake Blood leva o espectador a embrenhar-se na dinâmica da violência no cinema que os seus mentores se deixam levar pela própria dinâmica querendo saber mais do que esses ditos efeitos mas sim algo sobre aqueles que voluntariamente são autores de actos de violência de forma a credibilizar o seu trabalho. Da investigação de um crime com o qual deparam durante a sua investigação à dinâmica do medo que daí advém, Rob e Mike transformam-se inesperadamente em vítimas - ou reféns - da sua própria curiosidade. Quando procuram respostas sobre as suas curiosidades como forma de amenizar os supostos efeitos do seu cinema, inesperadamente ambos transformam-se nas mais recentes vítimas de uma violência até então desconhecida que, em boa medida, condena a própria relação até então estabelecida entre ambos.
Com algum humor à mistura, afinal a dinâmica entre os dois amigos é explorada em boa parte da primeira metade deste documentário, é a segunda metade que reflecte sobre a sua deterioração e sobre um inesperado afastamento entre os dois mentores deste projecto. O medo que se instala como consequência de uma qualquer mórbida realidade da qual são desconhecedores mas que voluntariamente procuram, transforma-se na sua alma. Uma alma de e com medo... Medo de um desconhecido que paira sobre os seus actos, medo pela consciencialização de que as suas vidas não voltarão a ser iguais depois dos acontecimentos aqui retratados e, finalmente, medo de uma relação de amizade que termina repentinamente... Diz-se que quem vai a uma guerra e regressa já não é a mesma pessoa... Aqui este ditado aplica-se revelando um Mike Kovac distante de um amigo de longa data e um Rob Grant isolado de um mundo no qual parece estar privado de uma qualquer existência significativa... a não ser dar a conhecer a sua obra...
Não deixando de ter os seus momentos francamente irreais como, por exemplo, o momento em que o realizador entrega a um suspeito e potencial "assassino" o seu cartão de profissional da área ou, numa entrevista telefónica, em que revela conhecer todos os dados do seu passado, Fake Blood é, ainda assim um intrigante documentário pela veracidade que esta história pode - de facto - entregar ao espectador uma perspectiva sobre os limites (inexistentes) do controlo da violência, sobre os efeitos do cinema nos seus espectadores e mesmo das condições de pobreza que delimitam o olhar com que cada um de nós "enfrenta" o meio que nos rodeia, Fake Blood deixa em diversos momentos, no entanto, aquela ligeira sensação de que esta pode(ria) facilmente enquadrar-se no género mockumentary na medida em que tudo parece, em diversos momentos, irreal demais para ser verdade. Mas talvez seja aí que reside a sua essência transformando uma história perturbadora e potencial real num conto de terror moderno recheado de criminosos reais, de perseguições e stalkers que podem co-habitar ao lado de qualquer um de nós - afinal, quem vai imaginar que o vizinho do lado pode ser um criminoso violento?! -, todos enquadrando numa comunidade aparentemente inocente e feliz que esconde, no entanto, todo um conjunto de violentos podres.
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sábado, 28 de julho de 2018

The First Purge (2018)

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The First Purge de Gerard McMurray (EUA) é a prequela esperada da saga The Purge iniciada em 2013 e à qual se seguiram The Purge: Anarchy (2014) e The Purge: Election Year (2016).
Numa época em convalescença de uma crise financeira e de hipotecas onde o colapso da economia parece iminente, um novo partido político emerge nos Estados Unidos... o NFFA - New Founding Fathers of America. Este partido chegado ao poder com o apoio das massas mas com intenções claramente anti-sociais promete aos cidadãos restabelecer a imagem do "sonho americano" mas, no entanto, a sua agenda de violência e de limpeza social é colocada em marcha quando a Dra. Updale (Marisa Tomei) decide com o apoio do partido no poder efectuar uma experiência em Staten Island onde todo o tipo de violência é permitida durante um período de doze horas...
O argumento, novamente da autoria do mentor James DeMonaco, revela as origens já conhecidas d'A Purga. Um país social e economicamente desolado mas no qual todos anseiam ocupar um qualquer lugar nesse imaginado El Dorado sofre os efeitos de uma cada vez mais acentuada crise entre classes onde os mais favorecidos julgam suportar financeiramente uma maioria sem grandes recursos e oportunidades, vendo neles claros malefícios para a sua própria prosperidade. Qual a melhor forma de se livrarem de uma doença? Eliminando-o radicalmente do "corpo"... a sociedade. A Purga - como um remédio social -, é então "i(g)niciada" supostamente como forma de expiar o descontentamento de uma população no limite do aceitável comportamento não violento mas partidariamente utilizada como forma de expiar uma agenda política claramente extremista e descriminatória que vê nos socialmente mais frágeis a razão de todos os males e problemas. Equacionar que uma perspectiva - a social - é menos nociva que a outra - a política - é meramente uma formalidade sabendo o espectador que todas as teorias de extermínio começam como "experiência sociais" com fins claramente de divisão e de criação do "nós" e dos "outros"... vítimas e culpados... inocentes e causadores desse já referido mal social que, na realidade, surge sim (o mal) pela mão de um conjunto de moralistas sociais dessa sociedade ultra-conservadora que passam pelas milícias armadas, Klu Klux Klan e demais extremistas de ultra-direita que proliferam pelos locais mais recônditos destes Estados Unidos cada vez mais segregacionistas.
Mas, a grande questão surge quando o espectador se questiona sobre a validade da premissa desta longa-metragem apresentada como "a origem", quando nos três títulos que o procederam já tudo isto havia sido explicado, entendido e observado na medida em que todos eles expiam a vontade de uma violência gratuita assumida ou não entre classes ou etnias diferentes como pano de fundo de uma América ultra-conservadora e violenta que vê nos financeiramente menos abonados os causadores de todos os seus (e do país) problemas. A cor, o dinheiro, o meio e a formação como forma de diferenciar e excluir e de nunca tenta a inclusão... Assim, qual a pertinência de uma obra cuja essência já estava explorada nas anteriores obras... cujas personagens não acrescem em nada para a dinâmica da saga - para lá da inserção da mentora do projecto numa brevíssima participação de uma pouco inspirada Marisa Tomei - e na qual todo o seu enredo já é bem conhecido do espectador com momentos de intensidade e adrenalina melhor conseguidos nas mesmas? Pouca pertinência para lá, claro, da confirmação que o poder da bilheteira determina a existência (sem fim?!) de títulos que prolonguem esta saga - já se fala de uma série televisiva - e de apresentar todo um conjunto de improváveis sobreviventes e heróis nas franjas da sociedade, muitos dos quais meros marginais naquele mundo que pensamos tranquilo mas que nas situações de adversidade extrema se transformam nos novos exemplos a seguir... da marginalidade, da pobreza, dos desprivilegiados e dos aparentemente mais fracos surgem então os heróis de um esperado amanhã que... pelos títulos anteriores... já todos nós sabemos que irá acontecer. Personagens heróicas essas que não têm continuidade nos títulos anteriores (que aqui são o futuro porvir) e que o espectador apenas conhece pelos breves instantes que com eles partilha nesta história onde se compreende o uso de máscaras como garante de uma possibilidade de violência que sentem necessitar mas que pela improbabilidade do acto querem esconder... nem sempre nos títulos precedentes como o espectador bem saberá.
Com alguns já esperados momentos mais intensos e fiel à linha que DeMonaco já tem habituado o espectador, The First Purge é o título (não necessário) introdutório a toda esta dinâmica e aquele que talvez se apresenta com menor efeito surpresa por já ter todo o seu enredo explanado nos diversos títulos anteriores... Mantém-se fiel ao princípio de que é do mais improvável e indefeso elemento da sociedade que surge o mais respeitado dos resistentes... mesmo que em tempos ditos "normais" este seja aquele do qual toda a vizinhança pretende fugir.
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6 / 10
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terça-feira, 5 de junho de 2018

Fields (2017)

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Fields de Joshua Borchardt (Alemanha) transporta o espectador para um cenário onde a sobrevivência é o mote dominante de todo o argumento. Ele (Daniel Brach) percorre uma floresta sobrevivendo com os poucos recursos que tem. Alguém que o persegue e a fuga é inevitável. Conseguirá ele escapar a um inimigo que não conhece ou cair-lhe-à involuntariamente nas suas garras?!
Borchardt em colaboração com Alexander Lobinski, Simon Redel e Sophia Venus dão corpo ao argumento de uma curta-metragem que levam o espectador a um universo desolado mas que se desconhece a causa desta inesperada e urgente necessidade de sobreviver a algo. Desconhecendo se estamos perante um cenário posterior a uma ruína da sociedade, à inesperada formação de milícias armadas que dêem corpo à "actual" necessidade de segurança ou mesmo a uma sociedade que caiu nas mãos de um qualquer sistema anarca que instala a ordem pela desordem, Fields apenas garante ao seu público uma única coisa... a certeza de que este mundo é o resultado de uma qualquer falha da sociedade como a conhecemos.
A floresta é uma inesperada mas central personagem onde tudo ganha forma, e onde a existência de uma comunidade - ou aquilo que dela resta - se reúne e vive. O seu exterior é desconhecido e tudo o que está para lá daquelas árvores é, para o espectador, algo nunca explorado e, como tal, inexistente. É apenas a reunião do nosso sobrevivente com uma outra personagem também perdida - pensamos - que poderá conferir alguns indícios de que existe mais para lá daquela floresta onde reina o caos. Estará ele a dizer a verdade ou apenas a garantir uma confiança que, de outra forma, nunca iria chegar!
Numa constante incerteza sobre as origens desta sociedade ou mesmo sobre os destinos ou propósitos destas personagens para lá de uma necessidade de viver e matar - por vezes sem objectivos aparentemente definidos para lá de uma caçada florestal -, o único detalhe extra que esta curta-metragem nos fornece é a de existir sim um grupo que se identifica com uma enigmática braçadeira (com indícios de comunidade pacífica que recorre à violência para sobreviver) mas que, ao mesmo tempo, não conferem ao espectador detalhes sobre a sua missão naquele espaço que lentamente se transforma num The Hunger Games em formato curto.
Assim, e denotando o potencial de ir mais além caso a duração da curta-metragem fosse mais extensa ou a eliminação dos tempos mortos uma realidade, Fields confere ao espectador a noção de que o trabalho - para uma suposta obra amadora - está competente e bem conseguido mas na qual é também perceptível estar (o espectador) perante um filme curto com capacidade de ir mais além e explorar os porquês de caçados e caçadores num mundo que está longe de revelar uma qualquer noção de segurança como a conhecemos nos moldes da sociedade em que vivemos presentemente.
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6 / 10
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segunda-feira, 4 de junho de 2018

FTL (2017)

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FTL de Adam Stern (Canadá) é uma curta-metragem de ficção científica sobre a viagem do astronauta Ethan Kane (Ty Olsson) a Marte numa nave mais rápida que a luz (Faster Than Light - FTL). No entanto, esta viagem solitária cedo se revela mais longa do que todos imaginavam quando, ao regressar, Ethan é levado para uma outra dimensão do Universo onde todos os contactos com a Terra são perdidos. Conseguirá ele regressar a casa?
Adam Stern transforma uma viagem imaginada de três minutos numa história com todo um potencial que vai mais além do que as breves visões de um Universo desconhecido. O argumento desta curta-metragem pode até parecer linear e inserir o espectador numa dinâmica de futuro não tão distante onde as viagens espaço-temporais estão ao alcance de breves instantes. No entanto, é a possibilidade aberta com esta viagem que dá cor a uma história aparentemente simples e que se transforma em todo um imaginário que leva tanto astronauta como espectador a equacionar aquilo que um filme deste género tem como missão... o que existirá para lá do óbvio?!
Formatos que todos estamos desde que nascemos que somos habitantes de um dos nove planetas do Sistema Solar, a vontade de conhecer esse desconhecido e compreender o que existe nos demais oito planetas é instantânea. Mas, e se para lá daquilo que pensamos conhecer existir todo um demais Universo com a dita vida inteligente que apenas aqui julgamos existir? E, nessa confirmação, até que ponto é tecnologicamente mais avançada do que nós? Quais os seus propósitos expansionistas (se é que alguns) e, finalmente, até que ponto essa inteligência, supostamente mais avançada, também o é a nível emocional?...
Habituado que está o espectador ao tal imaginário do espaço habitado por seres verdades nem sempre amistosos e equipamentos de transporte não só mais avançados como claramente bélicos contra aqueles que ocupam o Planeta Azul, a surpresa chega quando em FTL encontramos a confirmação dessa inteligência mais disponível para a aceitação do próximo (neste caso um inesperado e involuntário invasor na pessoa de "Ethan") como também se encontra a mesma pouco receptiva à sua extinção quando a nave em que viaja está a ponto de colapsar. Indiferentes à sua viagem? À sua permanência em território que não é seu? Pouco receptivos a que finalmente sejam explorados territórios para os quais ainda não se encontram emocionalmente preparados para visitar? Todas estas questões são levantadas pelo argumento de Stern e possíveis para a tal longa-metragem (esperada) que poderia daqui surgir deixando como ponto de partida o regresso de um astronauta que pensou conquistar, que se deixou levar pelas situações inesperadas de uma viagem improvável e que, finalmente, regressa a casa não pela sua mão mas pela do desconhecido e cujas intenções são - à partida - de inclusão num Universo que é, de facto, grande demais para que toda uma diversa "população" possa co-habitar sem a necessidade de invasão do espaço alheio.
Curiosamente positiva na sua mensagem e com um conjunto de efeitos especiais dignos de um filme de grande produção Hollywoodesca, FTL deixa o espectador impaciente, graças à sua dinâmica final, e receptivo a um fim mais inclusivo na medida em que essa vida pouco terrena seja mais compreensiva e dotada de maior compaixão do que aquela com quem potencialmente nos cruzamos diariamente.
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7 / 10
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terça-feira, 15 de maio de 2018

Fuera de Juego (2017)

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Fuera de Juego de Richard Zubelzu (Espanha) é um documentário em formato de longa-metragem que aborda a temática da homossexualidade no futebol em Espanha e de todo o tabu que se gera em redor da mesma.
Partindo do pressuposto de que existe um estereótipo instaurado na sociedade nas mais diversas áreas, desporto incluído, e à qual todos "respondem" aceitando e não questionando, como reagir quando aqui a expressão da sexualidade individual difere desse ideal previamente estabelecido e dominante? A sexualidade, direito civil consagrado na lei, não colide com os interesses ditos "de grupo" quando expresso de acordo com a corrente da maioria mas, no entanto, existe uma (suposta?!) minoria silenciosa que lentamente começa a assumir-se como detentora de direitos igualitários.
Assim, e conhecendo o espectador que o meio desportivo e muito particularmente aquele ligado ao futebol, a grande questão ou pensamento que este documentário pretende levantar e deixar presente na mente do mesmo é a ideia de que todas as formas de descriminação começam na vontade de inferiorizar a diferença. Dito isto, num meio onde a suposta masculinidade prevalece em detrimento dessa diferença, ou da expressão de uma sexualidade não dominante - partimos desta premissa apenas pelo desconhecimento da sexualidade/estereótipo associada ao grupo -, e tendo como ponto de partida que aqueles aqui inseridos "correspondem" ao ideal de família previamente instaurado, Fuera de Juego lança uma última ideia ligada ao facto de que o suicídio é acto que está tantas vezes ligada a este "preconceito de balneário" que inibe os atletas primeiro de se assumirem tal como são e depois agentes que reagem à pressão de pares pela impossibilidade dessa mesma expressão sexual individual.
No entanto, Fuera de Juego revela que lentamente e através de pequenos actos, algumas associações espanholas ligadas ao futebol têm vindo a tentar a sensibilização do grande público nomeadamente através do uso de atacadores multicolores durante as partidas de futebol bem como através do movimento que defende que o insulto - aqui sexual - não é um direito mas sim um acto de violência e agressão psicológica para com os atletas que assumem a sua sexualidade... não dominante. Se na rua não se ofende e agride verbalmente ninguém, o objectivo é então que em campo este insulto também não pode ser permitido.
Se toda esta dinâmica é equacionada num desporto dito "masculino" e, como tal, a questão aqui imposta é a homossexualidade masculina, Fuera de Juego questiona ainda esta expressão de sexualidade no campo feminino ou, por outras palavras, este documentário levanta ainda a questão através da exibição de pequenos elementos ou pensamentos que demonstram que num desporto dito "para homens", a descriminação já se encontra presente quando disputado por mulheres e, sobretudo, se estas se assumirem também como homossexuais estando, dessa forma sujeitas a uma pressão e violência (pelo menos) verbal e psicológica dupla ao serem vistas como "invasoras" de um desporto masculino e ainda pela sua expressão sexual "não dominante".
Se Fuera de Juego revela que a realidade é ainda negra apesar dos enormes progressos que lentamente - muito lentamente - se têm vindo a registar na área desportiva, não deixa de ser uma realidade que o efeito tabu já foi levantado e que os assuntos começam a ser discutidos ainda que com a resistência de muitos dos ditos "poderes instalados". No entanto, tem sido através da constante acção de muitos atletas e de muitas organizações e associações que consciencializam para a aceitação dessa diferença que a temática da homossexualidade no desporto, ainda que não total e livremente debatida, seja já encarada como uma realidade e um elemento presente na vida de muitos.
Quanto a esta documentário enquanto uma peça cinematográfica, aquilo que lhe falta não é tanto a abordagem a esta temática, sempre importante e muito pertinente, mas sim o facto das entrevistas ou mesmo das abordagens à homossexualidade dos atletas não ser levada mais a fundo explanando - para o espectador - através de momentos e experiências de muitos que pudessem estar dispostos a falar na primeira pessoa. Porque um documentário não pode ser apenas a documentação dos factos mas sim os relatos que humanizam as histórias, as experiências, os traumas e a própria violência a que muitos foram sujeitos. Importante enquanto peça cinematográfica que aborde esta questão - talvez - pela primeira vez mas ainda assim apenas um projecto embrião para um assunto que terá certamente ainda muito por abordar e explorar... Talvez a partir daqui exista a vontade de muitos - ou de apenas alguns - em começar a encará-lo como algo realmente relevante (e não apenas "existente") e, como tal, necessário de ser discutido e debatido. Ao realizador Richard Zubelzu os parabéns pela iniciativa e pela coragem de finalmente trazer esta temática à atenção do público.
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5 / 10
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sexta-feira, 4 de maio de 2018

Frightening Woods (2017)

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Frightening Woods de Álvaro de la Hoz (Espanha) é uma das curtas-metragens presentes na secção Cantábria da nona edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos que amanhã termina na região espanhola.
Num bosque há uma clareira central que esconde um mistério que nunca alguém viu. Para conhecê-lo há que pagar um preço... e os passos de uma mulher anunciam uma visitação.
Filmado em Super 8, Frightening Woods é uma sincera homenagem aos filmes série B dos idos anos '70 onde um inexplicável mal parecia atormentar a presença daqueles que cruzavam o seu caminho. Pacífico quando imperturbado mas mortal quando os seus limites são invadidos, este mal carece de compaixão para com os mais aventureiros que pretendem quebrar velhos mitos... A única questão que se coloca é se serão capazes de lhe sobreviver?!
Como uma única personagem central que o espectador segue, encontramos uma mulher que vestida de vermelho irrompe pelo bosque verdejante. Aliás, é a cor das suas vestes que indica que algo de macabro poderá ter acontecimento naquele local quando os vestígios de sangue são, também eles, assumidos ao longo deste dramatização. Ao vendar-se todos os sons ao seu redor se tornam mais presentes... desde ruídos que se assemelham com vozes humanas e o barulho dos insectos que percorrem o seu entorno, esta mulher vagueia por um espaço desconhecido, inóspito e onde se sente a todo o instante que um perigo extremo espreita pronto para a atacar.
Se os seus sentidos ficam mais apurados deixando-a, obrigatoriamente, mais consciente do que a rodeia, o espectador percebe também que este mal que se aproxima a começa a rodear e enclausurar num recinto aberto, tolhendo não só os seus sentidos como os seus potenciais passos e espaço de fuga que lentamente se torna desconhecido.
Numa clara mescla entre a mitologia celta e o cinema de terror de culto, Frightening Woods celebra uma linha ténue entre a sexualidade extremada com o perigo presente e a mesma como culminar de um momento de tensão e medo que potencializam os sentidos e o prazer.
Funcional enquanto cinema de homenagem ao género em questão, Frightening Woods apenas se deixa levar pela pouca duração enquanto curta-metragem que inibe o espectador de encontrar mais explicações para o bizarro ritual ao qual tinha observado mas que, ao mesmo tempo, lhe permite deixar fluir o seu pensamento para os confins de um espaço tão supostamente abandonado.
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7 / 10
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segunda-feira, 19 de março de 2018

O Fim da Inocência (2017)

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O Fim da Inocência de Joaquim Leitão é a mais recente longa-metragem do realizador de Adão e Eva (1995), Tentação (1997), Até Amanhã, Camaradas (2013) e o mais recente Índice Médio de Felicidade (2017).
Inês (Oksana Tkach) é uma jovem adolescente de uma família de classe média alta que com o despertar da sua sexualidade se vê envolvida nos meandros das redes sociais levando-a a um encontro com um homem mais velho que a viola. Numa espiral de violência e auto-destruição, Inês tenta recuperar de um mundo no qual se vê cada vez mais embrenhada e as consequências que daí podem advir resultarão determinantes para a sua posição de limbo entre dois mundos nos quais parece não se sentir inserida.
O argumento de Roberto Pereira baseado no romance de Francisco Salgueiro - que tal como é anunciado logo no início de O Fim da Inocência cimenta-se em factos verídicos - em duas interessantes vertentes exploradas... A primeira directamente relacionada com o tal despertar para a sexualidade de uma jovem "Inês" protegida de um mundo exterior por uma família mais controladora e de posses. No entanto, pela inevitabilidade das hormonas em pleno funcionamento, que esta jovem desperta para essa sexualidade da pior forma... Da pressão de pares aos meandros das redes sociais, das más experiências que desencadeiam todo uma "primeira vez" que se recorda como o pior de toda uma jovem vida, "Inês" é o protótipo humano de que nada é tão romanceado e embelezado como os "outros" fazem crer ou pior... nada pior do que forçar uma situação para a qual pode ainda não ter chegado o seu momento. Assim, o sexo, a droga e os comportamentos de risco começam a fazer parte da sua vida e cada vez mais insuficientes para satisfazer uma constante necessidade e dependência que a transformam não só numa pessoa diferente daquela que fora em tempos como principalmente alguém incapaz de se sentir satisfeita pela inevitabilidade de uma relação - não assumida - que a complete esquecendo assim a jovem sonhadora que em tempos fora.
No entanto, se esta perspectiva até valida o conteúdo desta história, é a segunda vertente com que o espectador pode olha para esta longa-metragem que, por momentos, pode prejudicar o seu conteúdo, nomeadamente pela breve impressão que é lançada ao misturar dois aparentes e distintos mundos... de um lado o de "Inês" onde o luxo e as "boas maneiras" povoam os jovens "Bernardo's" e "Mafalda's" deste universo e aos quais tudo é facultado... e por outro o mundo de "Ângelo", um jovem lá do bairro que até pode gostar de "Inês" mas que por ter nascido no lado errado da cidade é aqui apenas apresentado como alguém que trafica, que se mete por caminhos menos legais e que pouca importância dá à jovem com quem está não sendo, no entanto, devidamente explorada a potencial relação que aqui se tenta definir. No fundo, aquilo que é explorado nesta dinâmica acaba por ser uma forma polida de mostrar que temos "sexo, drogas e rock'n roll no bairro" ou, por outro lado, quando "este (bairro) se encontra com o condomínio privado".
Independentemente da perspectiva pela qual queiramos analisar O Fim da Inocência, temos um cinema assumidamente comercial que apela directamente ao espectador para uma história fluída - mesmo com as suas falhas - que aborda uma certa preocupante actualidade onde a promiscuidade e o "querer viver" se confundem perdendo os seus intervenientes toda uma liberdade de o experimentarem a seu devido tempo, ao mesmo tempo que se tenta equilibrar com uma mensagem social sobre a facilidade de ter o que se quer sem grande custo ou esforço graças a uma rápida influência das redes sociais e das comunicações massificadas que, para lá de todos os seus benefícios, aproximam muito daquilo que se quer distante... a mentira.
No final O Fim da Inocência expõe isso mesmo... o fim de uma juventude que se perde pelos efeitos nocivos de uma pressão de pares, ou até mesmo bullying, que suscita nos mais frágeis a necessidade de se integrarem num mundo para o qual não estão preparados mas que (para eles) os poderá deixar bem "colocados" no mundo dos seus supostos amigos ao experimentarem tudo, e até mesmo todos, sendo levados para um conjunto de experiências alternativas que são transformadoras e não pelos melhores motivos.
O realizador Joaquim Leitão vai seguro com esta sua nova longa-metragem e, ainda que com alguns toques de condomínio privado versus bairro, distancia-se do trágico Sei Lá (2014) apresentando uma história que sim... até tem um conteúdo actual e pode ser o espelho de uma certa juventude irrequieta que pela vontade de viver a vida muito depressa pode, por sua vez, conseguir terminá-la da pior forma. O Fim da Inocência consegue ainda a proeza de reunir um conjunto de jovens actores portugueses saídos de uma geração "Morangos com Açúcar" - diga-se o que se disser, as portas que a referida série abriu para toda uma nova geração de actores que, tendo ou não passado pela mesma, reflectem as suas marcas foi positiva - entre os quais se destaca a jovem actriz ucraniana Oksana Tkach que com a sua "Inês" consegue uma primeira interpretação protagonista inspirada e bem construída sem esquecer, claro, a presença de uma Sofia Alves desaparecida do grande ecrã há mais de uma década.
O Fim da Inocência não será o filme maior de Joaquim Leitão... Por aqui esse ficará reservado para Até Amanhã, Camaradas ou mesmo Inferno (1999) mas, ainda assim, esta sua mais recente longa-metragem será certamente uma das mais interessantes dos últimos anos e um interessante exemplar de como o cinema nacional pode, também ele, perder a vergonha e assumir-se sem pudor como uma obra comercial e directamente direccionada para o grande público.
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"Inês: A única forma de realizar os sonhos é acordar."
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7 / 10
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sexta-feira, 16 de março de 2018

Forgive Me (2018)

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Forgive Me de Besim Ugzmajli (Kosovo) é uma das curtas-metragens presentes na secção competitiva internacional da mais recente edição do Leiria Film Fest que amanhã termina na cidade beirã.
Bujar partiu do seu Kosovo natal para combater na Síria. Mais tarde, Bujar pede ao seu irmão mais velho Agron (Agrom Shala) para que este lhe envie a mulher Mimoza (Semira Latifi) ao que este lhe pede para que regresse ao seu país e restabeleça a sua vida. Mas Bujar, já seduzido para com os movimentos terroristas para com os quais agora opera faz um último aviso... Ou Mimoza viaja ao seu encontro para a Síria ou ele encontrará outra mulher.
Pertinente e actual principalmente pela forma como demonstra a forma destruidora do radicalismo no seio de uma família, Forgive Me revela o pior de dois mundos. O primeiro que se prende com a própria radicalização de um jovem que tudo teria para viver uma vida livre e normalizada mas que pela força de uma qualquer crise social, financeira, política e até mesmo de valores se deixou levar pelo facilitismo que um qualquer extremismo lhe proporcionou... Quando tudo à sua porta parecia - talvez!!! - correr mal, porque não tentar outra parte do mundo onde as oportunidades - ainda que dúbias - parecem florescer e lhe garantir tudo quanto deseja?! O segundo desses mundos é aquele que o mesmo "Bujar" deixa para trás e onde reinam as incertezas de uma família que se quer resguardar... primeiro da comunidade desconhecedora do seu paradeiro, depois dentro da própria família que julga que ele procura outras e melhores paragens que poderiam conferir-lhe maior conforto financeiro e que, na realidade, apenas se confortam com a vã ideia de que ele, perdido num qualquer país da Europa ocidental, luta pela sobrevivência financeira da família.
Nos meandros das mentiras, da radicalização, do extremismo e da própria miséria social, Forgive Me não esquece todas as pressões sentimentais, afectivas e psicológicas que o então radicalizado "Bujar" exerce, à distância, sobre a sua família como que uma necessidade de não só os inserir no seu agora modus vivendi como ainda torturá-los com o pressuposto de que ou estão com ele... ou contra ele. Numa comunidade onde - compreende o espectador - o perigo continua a espreitar por detrás de todas as portas, poderá "Agron" sobreviver e fazer garantir a segurança daqueles que ainda tem sob a sua tutela - mãe e cunhada -, sabendo que tudo pode mudar a qualquer momento?
Com um passo muito próprio e uma evolução que faz o espectador adivinhar o pior nos destinos dos seus protagonistas, Forgive Me é para lá de um conto sobre essa anunciada radicalização, uma história sobre a perda. A perda de uma família face aos extremismos, de um casal face a um conto do vigário que levou um dos seus a optar por uma vida disfuncional e que o levará, em última análise, a uma ruptura com tudo e todos... e mesmo com a sua própria vida, e finalmente um conto sobre a perda daqueles que ficaram para trás... Uma mãe que vive numa ilusão de que o seu filho mais novo partiu em busca de uma vida melhor podendo com ela conferir-lhe uma vida melhor - que nunca alcançará - e finalmente o irmão de "Bujar" que, para todos os efeitos, vive com a culpa de não o ter protegido das malhas do terrorismo internacional que espreita na sombra à procura dos mais vulneráveis.
Dramaticamente intenso apesar da seu avanço lento e pausado, Forgive Me denota toda uma pesada atmosfera graças a um argumento pertinente e infelizmente sempre actual que é, no entanto, adensada por uma direcção de fotografia capaz de nos fazer espreitar o tal "lado negro" da sociedade e uma brilhante interpretação de Agron Shala que domina todos os momentos desta história mesmo que, à partida, pudesse ser ele um secundário de peso numa história que ele não só atravessa como vive fazendo dela a sua na medida em que é pelas suas mãos que tudo se vai delineando mesmo não conseguindo impedir aquilo que se anuncia como inevitável.
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8 / 10
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sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Flores (2017)

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Flores de Jorge Jácome é uma curta-metragem portuguesa de ficção e uma das presente na competição oficial da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português, a decorrer em Coimbra, e que se encontra na sua recta final.
Depois de uma catástrofe regional provocada por uma praga de hortênsias que obrigou toda a população do arquipélago dos Açores a abandonar as ilhas, as mesmas passam a ser controladas pelo exército. Um realizador desloca-se para São Miguel de visita ao pai destacado na ilha e conhece dois soldados que acompanha filmando o seu dia-a-dia e as suas memórias daqueles que partiram.
Também com um argumento da autoria do próprio realizador, Flores divide-se em três distintos momentos que se complementam e completam. O primeiro intitulado de Rosa e Andrade centra-se na relação de amizade que une os dois jovens militares. Pedro e André mantêm uma amizade de longos anos. Foi por causa de André que Pedro se alistou e com ele tem cumprido o seu serviço militar agora em missão nas ilhas. Juntos percorrem memórias e a ilha invadida pelas hortênsias que tanto caracterizam o arquipélago e o espectador denota, através dos seus relatos, que a cumplicidade extrema sentida entre os dois pode ir além da amizade que percebemos terem. Pela noite permanece a dúvida mas os seus gestos confirmam(-nos) que existe sentimento.
No segundo capítulo Novas Oportunidades, explora-se a ideia de praga vista pelos portugueses mas encarada pelas populações estrangeiras como oportunidades económicas que floresciam. Enquanto franceses vêem nas flores uma potencial fonte de alimentação para as abelhas que irão, de seguida, produzir mel, os holandeses encaram a possibilidade de exportação das flores a partir da ilha. Pelo meio, André reflecte sobre os seus sonhos e as transformações que identifica nos mesmos.
Finalmente, no terceiro e último momento é em Despedidas que ambos reflectem sobre os nomes dos amigos que já não estão presentes, dispersos pelo continente para onde foram evacuados e enquanto observamos os nomes de todos eles gravados em tábuas, André questiona o realizador se será possível ver o que filmou um dia no continente... Como testemunho (talvez) da amizade com Pedro que queria descobrir como é observada pelos olhares dos demais.
Dotado de intensas subtilezas que transformam toda uma história de um fim - o da população e das ilhas - às mãos de uma invulgar praga que a todos afasta, é na solidão do espaço e no isolamento dos silêncios que estes dois jovens militares acabam por revelar não só a sua fragilidade como também a sensibilidade face à sua amizade e toda uma revelação de sentimentos (talvez amor...) sentido enquanto cruzam os espaços que foram outrora comuns a eles... e aos seus amigos e familiares. Assim, para lá de nostálgico - quase sempre - e capaz de criar, principalmente no seu final, todo um sentimento de pertença a um espaço (o território como uma casa identitária), Flores é ainda capaz de (in)voluntariamente transformar-se numa ode ao amor... a um amor subtil disfarçado de cumplicidade, de amizade e de dedicação ocultados pelos silêncios, pela privação de uma certa liberdade e afirmação apenas pela vontade (supomos) partilhada dos dois amigos.
Jorge Jácome cria um ambiente que seduz o espectador desde os primeiros momentos em que "chega" àquela ilha pensando tratar-se de um filme pós-apocalíptico onde, não sob a intervenção de uma guerra, de uma qualquer destruição ou mesmo de um vírus, toda a população desapareceu. População esta que não desapareceu pela sua extinção mas sim pela urgente necessidade de encontrar um novo lar - por tempo indefinido - e que deixou todo o seu espaço tido como natural e começar de novo noutro espaço no qual, apesar de também sendo seu, não encontra qualquer sinal de raízes ou origens. Por sua vez, este distanciamento do arquipélago permite a que estes dois jovens militares Pedro e André comecem uma nova vida, ausente dos olhares da comunidade, libertando ou expressando os seus sentimentos tendo como cúmplices - ou testemunhas - as próprias hortênsias que ali os fizeram regressar para combater... e potencializar o seu extermínio.
Assim, nesta corrida contra o tempo permanece a necessidade de controlar o espaço, e a dita "praga", compreender os sentimentos - ou pelo menos assumi-los no silêncio dos seus momentos em privado (até mesmo do espectador) - sentir a nostalgia que um espaço desertificado e agora privado da personalidade que os seus habitantes lhe conferem bem como, ao mesmo tempo, compreender que existe a necessidade de se observarem - enquanto cidadãos, amigos, militares e cúmplices - vistos pelos olhos de quem os testemunhou... de quem os observou na sua solidão e isolamento bem como nos pequenos gestos e actos que se tomam e têm para com o outro... de quem se gosta.
Inteligente pela forma como trata da sensibilidade e dos sentimentos sem que, no entanto, os exponha de forma gratuita ou previsível, Jorge Jácome e o seu Flores celebram o espaço pela homenagem que lhe fazem enquanto cenário da sua história, bem como a amizade, ou talvez o amor, expondo o suficiente para que o espectador compreenda que existe algo entre os dois amigos sem que o mesmo seja uma parte interveniente ou observadora na história que é... apenas de ambos. Com uma belíssima direcção de fotografia de Marta Simões capaz de transformar todo esse ambiente natural num espaço nostálgico e de certa forma sofrido pela questão do seu abandono forçado, e uma direcção sóbria direcção musical de Terry Riley que funciona como uma personagem oculta mas presente no espaço, Jorge Jácome é seguramente, não só um genial contador de histórias como certamente um dos mais esperados realizadores de toda uma nova geração do cinema nacional e Flores um dos grandes filmes curtos deste último ano.
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9 / 10
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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Freelancer (2017)

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Freelancer de Francisco Lacerda e Francisco A. Lopes é uma curta-metragem portuguesa de ficção presente na edição deste ano do Caminhos do Cinema Português, a decorrer em Coimbra.
Jorge (Francisco Afonso Lopes) é um operador de câmera freelancer que, depois de uma série de infortúnios profissionais - e não só -, se prepara para encontra o maior pesadelo da sua vida num inesperado "último" trabalho.
Na boa e "velha" tradição das obras que o celebrizaram - Dentes e Garras! (2014) e Dentes e Garras! 2 (2016) - Francisco Lacerda (em parceria na realização e no argumento) regressa com este Freelancer para entregar a mesma fórmula (inovada) distanciando-se de um universo mais estival para esta história sobre a luta profissional de um jovem sem contrato que está disposto a literalmente tudo para se livrar da forca a que se auto-condenou. Por outras palavras, aqui a dinâmica - ou analogia - está próxima da realidade de tantos que lutam não só pelo (seu) sonho profissional como pela dignidade do processo até o alcançarem. Num mundo sedento por passar a perna ao mais desatento, este Freelancer é a prova de que muito trabalho (e alguma brincadeira) até podem, de facto, compensar.
No entanto, se na saga Dentes e Garras! a dinâmica era sobre o surgimento de um monstro capaz de dizimar os mais distraídos, aqui estamos perante uma história que potencializa todos os seus momentos mais "vagos" numa sangrenta e desenfreada orgia sexual onde sangue, suor, vómito e muitas lágrimas se mesclam com uma sonoridade muito próxima da - também ela - saga Halloween e abrilhantadas com uma direcção de fotografia de Hugo França que capta o melhor de um ambiente psicadélico onde vale literalmente tudo.
A dupla de Francisco's - Lopes e Lacerda - consegue dar a uma continuidade de terror muito próprio que facilmente se insere na dinâmica do gore ao criar esta história próxima do já referido Dentes e Garras!, inovando os cenários onde estas improváveis histórias se desenrolam e criando, ao mesmo tempo, toda uma vertente de crítica social (ou profissional) capaz de através do ser terror, e principalmente do seu humor corrosivo, chegar ao espectador que encontra, apesar do exagero, várias referências que também ele identifica neste mundo cão.
Enérgico desde o primeiro instante, Freelancer anuncia-se como aquele tipo de filme que terá o seu próprio nicho de mercado junto dos apreciadores do género e frequentadores dos mais diversos festivais de cinema dedicados ao mesmo, sem esquecer que por detrás de uma boa e sangrenta história com muito para dar pelas suas não tão pequenas nuances, se encontra uma ainda mais mordaz crítica ao estado do mundo em que nos encontramos onde, para vencer e fazer crescer o sonho de toda uma vida... muitos são os monstros que se preparam para cruzar o nosso caminho e aproveitar-se de todos os "bons" corações que por ele se atravessam... até um dia! Dia esse, em que o sacrifício pode, afinal, ser a chave de acesso a que tudo finalmente se concretize.
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6 / 10
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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Farpões, Baldios (2017)

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Farpões, Baldios de Marta Mateus é uma curta-metragem portuguesa de ficção e um dos filmes curtos presentes na secção competitiva da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra.
Uma plantação. As colheitas. Um rebanho no campo. Num interior esquecido, um conjunto de crianças vagueia pelos campos isentos de qualquer ordem ou regra. Passeiam pelas ruínas de estruturas de outros tempos. Serão eles a descendência ou o reflexo de um passado por resolver?!
O argumento de Marta Mateus lança o espectador numa incerteza constante sobre o momento em que a acção decorre. Estará ele sob o vislumbre de um presente abandonado? De um futuro perdido? Ou de um passado vivido e entretanto perdido? Na melhor das conjunturas, aquilo que Farpões, Baldios apresenta é uma história vista de um futuro sobre o passado (e suas consequências) naqueles que por ele o atravessaram. Com claras referências a um Portugal ditatorial onde as gerações foram perdidas num trabalho manual que a liberdade fez desaparecer - o pastoreio, as colheitas (...) -, os mais novos fogem na presença de uma geração mais velha como um símbolo do passado (a Ditadura) que temem e com o qual não se querem associar ou deixar levar pelos seus sinistros caminhos.
Os campos de cultivo são como que um cemitério a céu aberto onde todos se perderam alguma vez e as marcas do tempo estão espelhadas no corpo daqueles por quem o mesmo já passou permitindo-os apenas observar tudo ao seu redor como que membros presentes num purgatório onde esperam... e esperam...
A memória do tempo passado não se perde. Ela é, aliás, uma constante presença da história de cada um, marcando-os como sobreviventes de um tempo passado que não ousam verbalizar mas temem tempos depois como as crianças que outrora foram. A memória também dessa miséria vivida e agora testemunhada pelos mais velhos que, perdidos no espaço, são o único registo físico de um local - também ele perdido - que a cidade lá longe tende a ignorar. É apenas um final em que os já idos tentam abrir os olhos dos vivos para que também estes testemunhem e observem que o passado já distante é ainda uma realidade sentida e experimentada.
Num registo oscilante entre o místico e o documento histórico, Farpões, Baldios utiliza esse dilema passado versus presente para ilustrar todo um período que embora documentado e estudado é ainda vivido num silêncio constrangedor. Afinal, ainda que o período ditatorial seja e esteja estudado mesmo no cinema português, a realidade é que este tem sido feito muito pouco sobre as vivências das pequenas comunidades do interior onde ainda hoje, quatro décadas depois, é o silêncio que determina as realidades passadas dos mesmos.
Numa mescla entre a realidade e a ficção, entre o documento histórico e a imaginação de uma realidade paralela mas pouco fantasiosa, Farpões, Baldios desperta a curiosidade do espectador pela abordagem que dá ao tema da desertificação, da ditadura e até mesmo de uma suposta liberdade que parece não ter sido vivida por todos mas, ao mesmo tempo, deixa um certo amargo pela diminuta exploração da temática que permitiria, à realizadora, ao espectador e ao público obter um interessante e enigmático conto de fantasia repleto de toda uma realidade nacional ainda centrada no documentário e não na obra de ficção como esta curta-metragem tenta - e consegue - filmar.
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7 / 10
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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Fugiu. Deitou-se. Caí. (2017)

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Fugiu. Deitou-se. Caí. de Bruno Carnide é uma curta-metragem portuguesa de ficção recentemente estreada no Chelsea Film Festival, em Nova York.
Uma jovem mulher (pela voz de Cátia Biscaia), reflecte sobre a sua existência e relações no seio de uma família disfuncional na qual cresceu e se desenvolveu enquanto mulher que hoje é.
À semelhança de Calou-se. Saiu. Saltei., Fugiu. Deitou-se. Caí. reflecte sobre uma violência, Uma violência auto-infligida na medida em que a protagonista revela (ao espectador) os seus pensamentos mas íntimos sobre a perda e a separação psicológica para com aquele com quem partilhou mais de perto o seu espaço; o pai. Perda essa que lentamente também se assumia como física distanciando os dois apesar de partilharem um mesmo espaço.
Tal como em Calou-se. Saiu. Saltei. também esta curta-metragem está dividida em três segmentos distintos sendo que, no entanto, estes não dispersam por outras personagens que não pai e filha remetendo-se exclusivamente para a perspectiva desta sob a relação com o pai e com a solidão que se sente como uma terceira e isolada personagem que condiciona, de certa forma, a sua própria existência.
Em Fugiu., o primeiro desses segmentos dominado pela relação entre pai e filha, o espectador escuta como foi erguida uma parede de silêncios entre os dois. A filha fala sobre a relação indiferente e frígida que dominava a relação entre os seus pais e como a sua (dele) voz a incomoda ao ponto de não o suportar. Num segundo momento - Deitou-se. - existe uma directa relação entre a postura do pai indiferente à vida e a sua (dela) vontade em estabelecer uma nova ligação agora com um namorado com quem, no entanto, não consegue ter um relacionamento próximo. Finalmente em Caí. - o terceiro segmento -, o espectador compreende que é o momento de uma total solidão, aquela que em tempo desejara mas que, nesta sua actualidade, abomina. Com a partida de uma mãe. depois do seu namorado e finalmente do pai, "Ela" procura a ausência desse silêncio que é, agora, a sua condição natural. Ela reconhece aquilo que sempre procurou mas, no entanto, sente desconforto com a presença desta "entidade" que ocupa todo o seu tempo e espaço, toda a sua condição enquanto mulher agora atormentada com a materialização desse "ser" que não a larga.
Da fuga - de uma mãe - ao deitar - de um pai - e à queda - sua -, Fugiu. Deitou-se. Caí. é assim um relato na primeira pessoa de momentos transformadores e potencialmente traumáticos na vida desta jovem mulher. Momentos que a condenaram a uma existência fantasmagórica por uma vida em que, na realidade, nunca sentiu ou chegou a viver mantendo-se apenas áspera e ressentida contra as pessoas e o espaço em que habitava remetendo a sua existência para uma dependência indesejada para com um pai que, de certa forma, a fazia validar a sua própria existência mas, ao mesmo tempo, condenando-o a uma responsabilidade por essa (existência) ser apenas confirmada pela necessidade da sua presença impedindo-a de progredir, fazer ou experimentar aquilo que nos vários momentos da sua vida sentiu vontade.
Ao mesmo tempo, e ainda que podendo qualquer um destes segmentos referir-se ao desaparecimento mental e psicológico dos seus progenitores é, no entanto, o terceiro segmento que permite ao espectador depreender - sem qualquer confirmação - que essa "partida" dos mesmos se deva a uma eventual morte física - afinal, a "fuga" da mãe apesar de não referenciada como tal é de certa forma confirmada pela sua ausência no relato dos seguintes segmentos e o "deitar" do pai que se remete a uma posição post-mortem também fazem crer nesta teoria - deixando o Caí. final antever que, face a uma total solidão no mundo em que então vive, foi factor decisivo para a materialização do seu próprio fim como que validando toda a indiferença para com a sua própria vida.
À semelhança do que acontecera com o argumento de Paulo Kellerman em Calou-se. Saiu. Saltei., também em Fugiu. Deitou-se. Caí. sem mantém presente uma certa ideia de violência sendo que nesta última esta se manifesta não na dinâmica das relações entre diversas personagens mas sim naquela que uma única personagem - a jovem mulher - se inflige como manifestação do seu desagrado para com o pai e para com o espaço a que sente estar condicionada.
Muito à semelhança do que acontece com Persona (1966), de Ingmar Bergman na qual o espectador parece viver na primeira pessoa as sensações e emoções relatadas pelas duas personagens principais interpretadas por Bibi Andersson e Liv Ullmann, também nestas duas curtas-metragens de Bruno Carnide, que se complementam de uma estranha forma e que funcionam como um diário de confissões das suas personagens é em Fugiu. Deitou-se. Caí., que o espectador retém (e vive) um desconcertante estado de espírito vivido por esta jovem mulher que, aparentemente, passou pela vida de forma anónima junto daqueles que deveriam ser o seu grupo primário onde estabeleceria a sua auto-confiança deixando-se, no entanto, levar por uma inicial empatia para com a relação desgastada e terminada de um casal - seus pais - em completa rumo de separação e abandono sentimental. Assim, Fugiu. Deitou-se. Caí. transforma-se no cúmulo de uma relação solitária de uma perdida para os demais e principalmente compreendida como tal e que, em última análise, vê apenas na "queda" a solução final para o conjunto dos seus problemas e, como tal, da sua própria existência.
A direcção de fotografia, também a cargo de Bruno Carnide, volta a funcionar como o registo de uma memória experimentada mas distante. O seu granulado que distancia - do espectador - a percepção de momentos vividos confirma que aquilo que é visto é apenas o distante registo de uma memória, de um tempo e de um espaço passados e o argumento - numa parceria de Carnide, com Cátia Biscaia e António Cova - permitem ao espectador inserir-se mentalmente nesta história/relato e sentir, tal como a sua personagem, o desconcertante desdém sentido por alguém prestes a libertar-se do seu espaço e de tudo aquilo que ele comporta.
Assim, se em Calou-se. Saiu. Saltei. (2014) existia uma violência mútua entre personagens que co-habitavam uma mesma experiência, em Fugiu. Deitou-se. Caí. essa violência regista-se na amargura de uma única personagem e na violência psicológica que se auto infligiu. Sobre Bruno Carnide enquanto contador de histórias fica aqui - uma vez mais - o registo de uma forte e madura visão de alguém capaz de contar a violência (gráfica) de forma tranquilamente assustadora e genialmente construída com o recurso a imagens que se assemelham a breves sopros de uma memória uma vez tida.
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8 / 10
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