sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Flores (2017)

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Flores de Jorge Jácome é uma curta-metragem portuguesa de ficção e uma das presente na competição oficial da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português, a decorrer em Coimbra, e que se encontra na sua recta final.
Depois de uma catástrofe regional provocada por uma praga de hortênsias que obrigou toda a população do arquipélago dos Açores a abandonar as ilhas, as mesmas passam a ser controladas pelo exército. Um realizador desloca-se para São Miguel de visita ao pai destacado na ilha e conhece dois soldados que acompanha filmando o seu dia-a-dia e as suas memórias daqueles que partiram.
Também com um argumento da autoria do próprio realizador, Flores divide-se em três distintos momentos que se complementam e completam. O primeiro intitulado de Rosa e Andrade centra-se na relação de amizade que une os dois jovens militares. Pedro e André mantêm uma amizade de longos anos. Foi por causa de André que Pedro se alistou e com ele tem cumprido o seu serviço militar agora em missão nas ilhas. Juntos percorrem memórias e a ilha invadida pelas hortênsias que tanto caracterizam o arquipélago e o espectador denota, através dos seus relatos, que a cumplicidade extrema sentida entre os dois pode ir além da amizade que percebemos terem. Pela noite permanece a dúvida mas os seus gestos confirmam(-nos) que existe sentimento.
No segundo capítulo Novas Oportunidades, explora-se a ideia de praga vista pelos portugueses mas encarada pelas populações estrangeiras como oportunidades económicas que floresciam. Enquanto franceses vêem nas flores uma potencial fonte de alimentação para as abelhas que irão, de seguida, produzir mel, os holandeses encaram a possibilidade de exportação das flores a partir da ilha. Pelo meio, André reflecte sobre os seus sonhos e as transformações que identifica nos mesmos.
Finalmente, no terceiro e último momento é em Despedidas que ambos reflectem sobre os nomes dos amigos que já não estão presentes, dispersos pelo continente para onde foram evacuados e enquanto observamos os nomes de todos eles gravados em tábuas, André questiona o realizador se será possível ver o que filmou um dia no continente... Como testemunho (talvez) da amizade com Pedro que queria descobrir como é observada pelos olhares dos demais.
Dotado de intensas subtilezas que transformam toda uma história de um fim - o da população e das ilhas - às mãos de uma invulgar praga que a todos afasta, é na solidão do espaço e no isolamento dos silêncios que estes dois jovens militares acabam por revelar não só a sua fragilidade como também a sensibilidade face à sua amizade e toda uma revelação de sentimentos (talvez amor...) sentido enquanto cruzam os espaços que foram outrora comuns a eles... e aos seus amigos e familiares. Assim, para lá de nostálgico - quase sempre - e capaz de criar, principalmente no seu final, todo um sentimento de pertença a um espaço (o território como uma casa identitária), Flores é ainda capaz de (in)voluntariamente transformar-se numa ode ao amor... a um amor subtil disfarçado de cumplicidade, de amizade e de dedicação ocultados pelos silêncios, pela privação de uma certa liberdade e afirmação apenas pela vontade (supomos) partilhada dos dois amigos.
Jorge Jácome cria um ambiente que seduz o espectador desde os primeiros momentos em que "chega" àquela ilha pensando tratar-se de um filme pós-apocalíptico onde, não sob a intervenção de uma guerra, de uma qualquer destruição ou mesmo de um vírus, toda a população desapareceu. População esta que não desapareceu pela sua extinção mas sim pela urgente necessidade de encontrar um novo lar - por tempo indefinido - e que deixou todo o seu espaço tido como natural e começar de novo noutro espaço no qual, apesar de também sendo seu, não encontra qualquer sinal de raízes ou origens. Por sua vez, este distanciamento do arquipélago permite a que estes dois jovens militares Pedro e André comecem uma nova vida, ausente dos olhares da comunidade, libertando ou expressando os seus sentimentos tendo como cúmplices - ou testemunhas - as próprias hortênsias que ali os fizeram regressar para combater... e potencializar o seu extermínio.
Assim, nesta corrida contra o tempo permanece a necessidade de controlar o espaço, e a dita "praga", compreender os sentimentos - ou pelo menos assumi-los no silêncio dos seus momentos em privado (até mesmo do espectador) - sentir a nostalgia que um espaço desertificado e agora privado da personalidade que os seus habitantes lhe conferem bem como, ao mesmo tempo, compreender que existe a necessidade de se observarem - enquanto cidadãos, amigos, militares e cúmplices - vistos pelos olhos de quem os testemunhou... de quem os observou na sua solidão e isolamento bem como nos pequenos gestos e actos que se tomam e têm para com o outro... de quem se gosta.
Inteligente pela forma como trata da sensibilidade e dos sentimentos sem que, no entanto, os exponha de forma gratuita ou previsível, Jorge Jácome e o seu Flores celebram o espaço pela homenagem que lhe fazem enquanto cenário da sua história, bem como a amizade, ou talvez o amor, expondo o suficiente para que o espectador compreenda que existe algo entre os dois amigos sem que o mesmo seja uma parte interveniente ou observadora na história que é... apenas de ambos. Com uma belíssima direcção de fotografia de Marta Simões capaz de transformar todo esse ambiente natural num espaço nostálgico e de certa forma sofrido pela questão do seu abandono forçado, e uma direcção sóbria direcção musical de Terry Riley que funciona como uma personagem oculta mas presente no espaço, Jorge Jácome é seguramente, não só um genial contador de histórias como certamente um dos mais esperados realizadores de toda uma nova geração do cinema nacional e Flores um dos grandes filmes curtos deste último ano.
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9 / 10
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