sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Il Divo (2008)

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Il Divo - A Vida Espectacular de Giulio Andreotti de Paolo Sorrentino é um filme sobre o atribulado percurso do antigo primeiro-ministro italiano na sua ascenção sucessiva a chefe do governo através de uma impressionante e brilhante interpretação, vencedora do Donatello e do European Film Award, composta por Toni Servillo.
Este impressionante filme, que conseguimos facilmente perceber ser obra de um brilhante Sorrentino, começa por ter um excelente atractivo com a sua banda-sonora da autoria de Teho Teardo, também ela galardoada com o Donatello. Inovadora quanto baste e sinistra o suficiente para percebermos os exactos momentos em que devemos assistir com muita atenção às imagens que definem o comportamento daquele tão amado e tão odiado primeiro-ministro que por sete vezes ocupou a chefia do governo.
As imagens não deixam enganar. Estamos perante uma história que, não soubessemos ter sido real, pensaríamos que se tratava de um qualquer sonho muito alucinado que alguém estaria a ter. Mas assim foi a vida de Andreotti enquanto político e chefe de governo.
Andreotti (num magnífico registo de Toni Servillo) sempre pertenceu a um núcleo duro da vida política italiana. A sua vida recatada e de certa forma ausente de grande aparato ou mediatismo é aqui muito bem retratada na medida em que ao mesmo tempo que o vamos conhecendo, vemos também quem eram aqueles que estavam junto do seu núcleo mais próximo e de que forma isso serviu quer para ascender politicamente falando quer parações que o haveriam de lançar num enredo sem fim, quer fosse ele real ou não.
Acompanhamos com este filme a vida deste homem que foi acusado de ser um dos maiores cérebros da ligação ao crime em Itália quer através das suas supostas uniões com a Mafia quer por não ter auxiliado um dos seus grandes "aliados", o também antigo primeiro-ministro Aldo Moro, que fora morto às mãos do grupo terrorista italiano Brigadas Vermelhas.
Temos um pouco de tudo... às intrigas políticas que são praticamente constantes são associados momentos ficcionados de drama onde assistimos a pensamentos verdadeiramente assombrosos daquele homem que sempre aparentou uma calma e tranquilidade mas que na realidade escondia um verdadeiro vulcão. Exemplo disso é o seu discurso ao estilo de uma reflexão pessoal, onde num verdadeiro ataque de verborreia esclarece tudo e todos sobre aquilo que é. Simplesmente assombroso... sim, é a única palavra que me ocorre para descrever este momento.
Gostei igualmente do momento em que chega uma sua nova eleição como primeiro-ministro. A sua pequena viagem pelo palácio onde numa ampla e vazia sala um pequeno gato se coloca no seu caminho. Firme, não se podendo desviar, mantém-se imóvel até o pequeno animal sair do seu caminho. Isto é uma característica do homem que foi primeiro-ministro de Itália e que se mantém viva durante todo o filme. Verdade ou não, acreditemos ou não, este é o retrato do homem Andreotti. Pela paciência, pela persuação e sobretudo pelo enorme poder e dom da palavra que tinha conseguiu o que sempre quis e chegar onde chegou. Sem ver, ou ter, limites Andreotti estabelecia uma meta... e alcançava-a.
Não é um tradicional filme político onde vamos assistir a inúmeras sessões parlamentares onde os destinos da Nação são discutidos. Estes, se é que existiam acima das vontades pessoais, eram discutidos e tidos nos bastidores dos palcos reais. Este filme é sobretudo a ascenção e a queda de um homem que durante décadas de poder e de governação sempre foi um mistério, quase um mito, nas mentes de todos sem excepção. Mesmo daqueles que lidavam e privavam com ele, Andreotti sempre foi um verdadeiro mistério.
Assim, esta é a história de um homem. Um homem que governou. Um homem que mandou. Um homem que teve ligações, mais ou menos honestas ficará a nossa cargo de avaliar depois daquilo que vemos neste filme e do muito ou pouco que possamos conhecer da sua história pessoal e da História de Itália.
Além da brilhante banda-sonora que já referi ter sido vencedora do Donatello, tal como foi Servillo, este filme venceu ainda mais cinco Donatello's, nomeadamente Cabeleireiro, Fotografia, Caracterização (Vittorio Sodano também nomeado a Oscar), Efeitos Especiais e Actriz Secundária para Piera Degli Esposti aqui num registo interessante mas francamente muito secundário, num ano em que Servillo brilhou ainda noutro filme... esse sim sobre a Mafia... o tão falado Gomorra.
De registo são ainda os momentos em que os vários intervenientes são apresentados... quer aqueles que faziam parte do núcleo duro de Andreotti quer aqueles que saíram de cena muito rapidamente num conjunto bem imaginativo e elaborado de assassinatos. As suas imagens e apresentações são feitas de uma forma diferente e caricata que não é costume, nem sequer típico, ver num filme deste género. Gostei bastante de todo esse segmento inicial que dá uma dinâmica diferente e muito própria a todo o filme.
Diferente, muito bem realizado e interpretado este é um daqueles filmes que nos mostra o quão intimamente ligada está a construção da Itália moderna a um verdadeiro banho de sangue, de intrigas políticas, de corrupção e de Mafia pelos olhos de um homem que a comandou durante vários e longos anos.
Como disse mais atrás, este simplesmente brilhante filme é, acima de tudo, a história de um homem que sonhou e conseguiu mandar sem nunca deixar ninguém se aproximar em demasia mas que manteve todos, sem excepção, bem perto de si. Sobre os seus traumas, os seus pesadelos e sobre aquilo que atormentava a sua tão impávida expressão. Porque sim, todos os homens por muito calmos que aparentem ser têm algo que os atormenta... profundamente.
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"Giulio Andreotti: A good man's meanness is always very dangerous."
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9 / 10
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