terça-feira, 27 de maio de 2014

The Last Horror Movie (2003)

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O Último Filme de Terror de Julian Richards é uma longa-metragem britânica de terror vencedora do Prémio da Crítica no Fantasporto que num mockumentary bem violento nos entrega uma original, tensa e moderna - pelo menos para a altura - história.
Max Parry (Kevin Howarth) é um aparentemente pacato fotografo de casamentos que em certo dia decide fazer um documentário em que ele será o principal protagonista. O objectivo de Max é surpreender banais clientes de clube de vídeo ao alugarem um filme onde assistem não à obra em questão mas sim aos selváticos devaneios de Max com as suas mais variadas vítimas (sempre o cliente anterior) enquanto por fim satisfaz os seus apetites canibais com a sua carne.
Num registo de mockumentary, bem violento por sinal mas não graças às imagens mas aos actos que são em muitos momentos sugeridos, o argumento de Julian Richards e James Handel aponta-nos o perigo no mais insuspeito dos locais onde qualquer um se dirige para encontrar o entretenimento banal para o final da noite mas que, sem saber, está a "alugar" o seu próprio fim.
Para lá da mensagem subliminar onde se pressupõe que o video está a eliminar o cinema e todo o ritual de assistir a um filme num espaço condigno, a realidade é que The Last Horror Movie é uma bem pensada história sobre a violência que se assume como gratuita. O facto e a certeza de que qualquer pessoa por mais inofensiva que aparente ser poder praticar o mais hediondo dos actos - desde a violência ao canibalismo - coloca uma interessante questão sobre os nossos hábitos e sobre o controle a que cada um deles está sujeito quando uma terceira parte decide fazer do nosso... seu.
As motivações do serial killer em questão não existem. A barbárie a que decide sujeitar toda e cada uma das suas vítimas depende apenas da possibilidade em fazê-lo e, quase como uma forma de ilibar a sua própria culpa, atribuir ao acaso a decisão de quem será o próximo, ou seja, esse será aquele que alugar de seguida o filme que ele próprio grava que sela a sua própria escolha se continuar a ver ou não as brutais imagens que ele ali deposita.
Pessoalmente considero que The Last Horror Movie não é um daqueles filmes que fique muito para além do tempo em que o visualizamos. É um facto que impressiona em diversos momentos e que assusta e preocupa pela premissa que o mal pode ser praticado simplesmente porque sim... sem motivos exteriores ou justificações para lá do simples facto de poder ser feito mas, ao mesmo tempo, não deixa de ser verdade que exceptuando o sub-género mockumentary onde se cria a obra "real" sem que, na prática, o seja, este filme esgota-se no ensaio sobre a violência, sobre os intervenientes - assassino e vítimas que, ao mesmo tempo, observam todas as imagens da vítima anterior sem se questionarem sobre a violências das mesmas e tornando-se assim cúmplices dos actos - e principalmente sobre aqueles que em nome de uma obra dita "cinematográfica" também consentem sobre os actos que em "tempos normais" repudiariam referindo-me concretamente ao câmara que o acompanha e que não se inibe de filmar assinando o seu próprio compromisso com a causa.
Àparte de "Max", a personagem criada por Kevin Howarth, todas as demais acabam por ser meramente decorativas para a continuidade da história. Na verdade, apenas o referido câmara e a avó do assassino assumem presença mais significativa um por querer experimentar a violência a que assiste e a outra por se alimentar dela sem saber. Mas de todos apenas "Max" parece apresentar uma alma - ainda que bem negra - tendo como seu único propósito justificar não os seus actos - pois como ficou estabelecido faz porque pode -, mas sim os nossos (os espectadores), que têm a todo o momento o poder de parar o filme e terminar com o tormento a que assistimos mas optamos por verificar até onde ele vai... Confirmamos então que, tal como ele, gostamos (ou simpatizamos) com o que faz sem que, no entanto, tenhamos a coragem de reproduzir os seus actos (teorias de "Max").
Inovador - talvez para o seu tempo - mas não tão original como se poderia supôr... Vale pela corrente slasher que entretanto se prolongou com títulos como Saw (e suas sequelas), mas não se confirma como uma obra referência no género ou que grande parte dos espectadores tenha sequer conhecimento... talvez as teorias de "Max" tenham (felizmente) saído goradas.
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6 / 10
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