quinta-feira, 15 de maio de 2014

The Man in the Glass Booth (1975)

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O Homem das Duas Faces de Arthur Hiller e com argumento de Edward Anhalt conta com uma extraordinária interpretação nomeada ao Oscar de Maximilian Schell como "Arthur Goldman".
Goldman é um excêntrico multimilionário judeu que vive uma vida opulenta num apartamento de luxo em Manhattan.
Sempre na companhia de Charlie (Lawrence Pressman), o seu assistente, Goldman vive no seio da polémica sobre a vida e os costumes judaicos, regularmente recordando o seu passado enquanto sobrevivente do Holocausto, naquela que parece uma cada vez maior insanidade que aos poucos o consome.
No entanto, um dia Goldman é abordado por agentes israelitas no seu apartamento que o pretendem transportar para Israel onde será julgado como criminoso de guerra nazi. As maiores revelações chegam quando durante o julgamento Goldman tenta expiar não só as culpas dos crimonosos de guerra como principalmente as daqueles que lhes sobreviveram.
The Man in the Glass Booth é a adaptação cinematográfico da peça teatral como o mesmo nome e que desde o primeiro instante toca em assuntos e problemáticas francamente delicadas pois coloca em causa o sentimento de culpa per si. Se por um lado a enigmática e excêntrica personagem de "Arthur Goldman" é um homem visivelmente afectado pelo seu passado enquanto vítima do Holocausto, não é menos verdade que não é uma com a qual o espectador crie qualquer laço de empatia. Rude, irónica e até hipócrita, "Goldman" é aquele homem para quem tudo tem valor mas o qual ele não confere ou respeita em igual medida, ou seja e como exemplo, se a sua vida esteve em risco durante o conflito mundial, não é menos verdade que secretamente ele despreza todos aqueles (poucos) que estão ao seu redor tratando-os de forma desprestigiante e obrigando-os a considerar o seu real valor. Dito isto, desde o primeiro momento em que somos confrontados com esta curiosa personagem que a nossa imagem a seu respeito mais não é do que aquela de um déspota que trata tudo o que lhe está socialmente inferior como meros "objectos" dos quais pode pôr e dispôr conforma acha que deve em determinado momento.
"Goldman" tem dinheiro e um estatuto social que o mesmo lhe conferiu. Ninguém se lhe opõe mesmo quando lhes falta ao respeito ou os agride física e psicologicamente com as suas teorias existencialistas que profere com a superioridade que o seu dinheiro lhe confere. Ninguém o contraria ou desdiz e o silêncio auto-imposto mais não é do que a forma de poder continuar a ter um trabalho e uma vida financeiramente mais estável o que, como tal, os impede de responder ou contrariar independentemente do quão excêntricas possam aparentar ser as suas vontades, discursos e ordens.
É então que "Goldman" parece ser afinal "Erik Dorff", o carrasco do campo de concentração de Mauthausen que é procurado e levado para Israel onde será julgado por crimes de guerra e crimes contra a Humanidade. Ele não contraria nenhum, pelo contrário, confirma-os com detalhes que mais ninguém poderia saber, assumindo assim toda a sua culpa até que... algo corre mal com as provas e testemunhas apresentadas.
Quanto estreou este filme gerou imensa polémica por colocar no mesmo patamar de culpa vítimas e carrascos bem como pela forma mordaz e quase sem piedade como aponta os dedos àqueles que nada fazem... os que nada dizem... os que assistem impávidos à carnificina sem dar um última grito de revolta e de denúncia independentemente deste os poder salvar. "Goldman" aponta o dedo a todos, sem excepção, pela sua passividade... pela forma como se aceita a ordem de alguém dito superior e que exerce a força através do seu dito poder que mais não é do que uma ilusão. Anhalt questiona com o seu argumento a forma como todos se colocam numa posição submissa à ordem por mais excêntrica ou neste caso concreto atroz sem que esta seja questionada e contrariada. Queremos mesmo saber quem é a vítima ou o carrasco ou, a dada altura, estão os dois no mesmo patamar? Um por comandar e o outro por obedecer sem questionar aceitando assim o destino que o "outro" lhe confere?
Sem respostas a estas e outras tantas questões, The Man in the Glass Booth torna-se assim num registo sobre a culpa que, contra a nossa vontade e simplesmente por nos obrigar a questionar a sua simples existência, deixa todas as portas abertas para a interpretarmos... para pensarmos. E é a magnífica interpretação de Schell, numa justíssima nomeação a Oscar de Melhor Actor, que consegue assombrar o espectador e deixá-lo impávida com as questões que levanta e que proclama para si próprio sem que, uma vez mais, lhes confira qualquer resposta. Schell ultrapassa todos os limites com a sua interpretação e transforma-se no corpo e no rosto da culpa... de uma culpa por não ter resistido nem enfrentado limitando-se, como tantos outros impotentes, a fazer frente a uma ordem tirânica e selvagem de eliminação sistemática e sem coração que durante anos destruir espaços, memórias e vidas.
Se a primeira hora deste filme, ainda que introdutório e de apresenção de "Goldman" seja, por momentos, algo difícil de digerir, não é menos verdade que a segunda metade de The Man in the Glass Booth seja de cortar a respiração; inicialmente porque a antipatia provocada por aquele homem nos faça desejar que ele seja realmente um culpado, um criminoso e um homem que esperamos poder odiar mas, no fundo, aquilo que ali temos é um homem que simplesmente desistiu de viver, que se entregou à loucura e à excentricidade que a sua culpa lhe conferiram e que o permitiram continuar a viver todos aqueles anos não num qualquer conforto que o seu lar e o seu dinheiro lhe dessem mas sim, por sua vez, num purgatório interminável que jamais lhe iria conferir segurança, conforto e estabilidade... Esta, ele já a perdera há muito tempo.
Schell é poderoso desde a sua encarnação enquanto um homem excêntrico até aos momentos em que se assume como um criminoso de guerra nazi entregando dos mais assustadores relatos da Alemanha do pré-guerra e do conforto que todo um povo (também ele culpado pelo silêncio) encontrou num ditador louco e assassino. No entanto, são os momentos finais em que demonstra toda a sua vulnerabilidade que conferem a Schell a humanidade que a sua personagem não fez notar durante todo o filme. Numa interpretação intensa, mordaz, irónica e bruta, Shell demonstra porque deveria ter vencido este Oscar... ainda que ele não representa a amplitude de uma interpretação que ficará marcada como uma das suas melhores e mais poderosas.
Filmado quase de forma teatral, pela ausência de detalhes que nos importem reter para além da referida interpretação de Schell, The Man in the Glass Booth é um filme difícil de encontrar mas que aqueles que o conseguem devem devorar todo o seu conteúdo e reflectir sobre a culpa per si... a cometida... e principalmente aquela que foi silenciosamente consentida.
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8 / 10
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