sábado, 28 de novembro de 2015

Cru (2015)

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Cru de João Camargo - também autor do argumento - é uma longa-metragem independente portuguesa dividida em três distintos e importantes segmentos e que situa o espectador no Portugal deste século XXI com uma crise económica em mãos. Mas... será apenas a crise económica que afecta o país?!
Luísa (Leonor Costa) é mais uma desempregada em Lisboa na altura em que a troika chega à capital. Ao mesmo tempo são identificados vários focos de violência - oportuna e inteligentemente focada como tendo sido o seu início na Grécia naquela que parece um renascer das notícias nacionais de alguns largos meses atrás - que afectam não só o país como diversos outros pela Europa.
À medida que o terror se instala nas ruas e os mortos ganham vida, Luísa tenta escapar enquanto tudo à sua volta parece desmoronar sem escapatória possível.
A longa-metragem de João Camargo está, como referi, dividida em três segmentos sendo o primeiro deles uma curta animação sobre o TTIP - Acordo Transatlântico de Comércio onde todos os produtos alimentares vendidos são transgénicos provocando, por isso, graves problemas de saúde pública nomeadamente, claro, àqueles que os consomem e que insere a possibilidade deste ser a rampa de lançamento da epidemia.
Depois desta breve introdução animada, o espectador é levado a um segundo momento que serve não só de homenagem ao género que Cru pretende retratar - o universo zombie muito concretamente àquele criado por George Romero isto é - como também lança o mote ao próprio estilo cinematográfico ao centrar personagens em planos fechados "enclausurando" o espectador numa dinâmica próxima daquilo a que assiste ou, por exemplo, encerrar os sobreviventes em espaços soturnos de onde parece não existir escapatória possível.
Finalmente o terceiro segmento, e aquele que diz directamente respeito à história em questão, leva o espectador a uma Lisboa - mais concretamente os seus arredores na Margem Sul - ocupada não só pela troika e pelas suas medidas de austeridade que lançam o país numa crise económica devastadora como também àquela ocupada por mortos-vivos que agora ocupam as ruas e os espaços sedentos de carne humana.
Numa analogia interessante aos dias de austeridade e dificuldades económicas que se fazem sentir - como aliás foi notório nos demais filmes que focam esta temática - também Cru recupera a tradição do filme de género ao colocar as ruas das cidades repletas de mortos-vivos. Estes não são necessariamente seres regressados da campa onde haviam sido enterrados ou tão pouco sedentos de uma carne humana para regressar a uma vida que, como sabemos, já não têm. Aqui o "morto-vivo" per si mais não é do que uma representação do Homem - animal de hábitos e vícios - que, tal como é dito a certa altura, face a uma época de incerteza "primeiro deixa de falar, depois de ver e finalmente guia-se pelo que ouve". Incapaz de enfrentar o seu futuro e questionar os dilemas que lhe são colocados, o Homem apenas de deixa guiar - levar - pelos ditos daqueles que "bem falantes" o induzem a um determinado pensamento... A crise vem lá longe, nós não somos um determinado país ou até mesmo a austeridade como um preceito fiável, são alguns dos ditos que se tornaram "costume" a uma determinada altura e que foram propagados mais rapidamente do que um fogo.... Todos os diziam sem os sentir e principalmente sem os pensar criando a dinâmica do "eu" respeitoso e do "outro" que era vilanizado e culpado de um crime que não havia cometido.
É numa casa acompanhada apenas por "André" (Filipe Matos) que "Luísa" vai aos poucos descobrindo o novo mundo em que vive mas, ao contrário do seu companheiro, ela é ainda o rosto crédulo e incapaz de perceber que esse mesmo mundo foi modelado de uma forma que a distância da realidade, preferindo acreditar que se as "notícias" relatam a verdade - desde a necessidade de despedimentos em larga escala até à igualmente necessária privatização das águas - então que motivo teriam para a adulterar ou esconder tal e qual ela o é?! É também durante esta temporada que ficam a conhecer que são proibidas as manifestações ou ajuntamentos públicos sujeitos, ambos, à pena capital e que apoiar aqueles que contestam certas ordens vindas "de cima" são, na prática, actos de incentivo ao terrorismo... Se o espectador mais desatento ainda não conseguiu perceber as semelhanças deste argumento com aquelas que o ligam ao mundo real... então esta será sim a altura perfeita para o fazer.
Mas as boas intenções ficam por aqui. É de louvar a vontade de mostrar como zombies aqueles que não pensam nas notícias - e nas realidades - questionando o que estas sistematicamente propagam dia após dia a todos aqueles que escutam copiosamente os noticiários. Aqueles que desistiram de pensar no mundo que os rodeia e nos problemas que o afectam - sociais, económicos, ecológicos, culturais, etc... - e que na prática vivem concentrados num qualquer reality show e por ele se deixam consumir. Mas chega o momento de questionar se estes elementos se mantêm dentro do género e se pretendem fazê-lo com a devida homenagem ao género de terror e, prezando pela originalidade, retratar todo um género aos olhares e às questões do mundo tal como hoje o vivemos. E a resposta é um claro não...
Ao contrário daquilo que é normalmente apresentado neste género cinematográfico, a crise - aqui económica - não é apenas o mote para o propagar da epidemia zombie mas sim um seu elemento recorrente na medida que todos aqueles milhares infectados mais não são do que os muitos desempregados que vagueiam sem destino, sem propósitos ou objectivos e para lá da homenagem ao género - mais concretamente àquele do final da década de 60 e 70 - Cru teria sido um mais fervoroso membro do mesmo se tem abusado mais nas entranhas e nas tripas e um pouco menos na excessiva banda-sonora que por momentos prejudica a dramatização dos diversos segmentos, neste que é o tipo de filme que não pede descontracção mas sim um pouco mais de tensão. Mas mais importante que estes momentos da referida dramatização, Cru falha por todos os demais elementos técnicos e pouca credibilidade que confere aos mortos que vagueiam pelas ruas. Percebo - e acima de tudo respeito - a ideia e a vontade de criar um filme - longa-metragem - de género e que pudesse portanto respeitar e homenagear a essência deste terror mas, no entanto, aqui falha pelas mais variadas componentes técnicas que graças a uma essencial falta de recursos limitam a construção de uma obra que seja credível e que possa alcançar esse espírito de culto que qualquer obra do género espera e merece.
Cru assume-se portanto como um filme que pretende lançar uma crítica social e política a um Portugal - e aos portugueses - perdido no tempo e sem um sentido nacional e de Estado, através de analogias, comparações e alguns nem sempre claros inuendos sobre a dinâmica e a verve nacional do que concentrar-se propriamente no género de terror que pretende representar. No fundo, deixa o sabor e a intenção que, na prática, não chega a cumprir (terá algum de nós medo da história enquanto "clássico" de zombies ou mais pela trágica realidade de Portugal enquanto país?).
No final resta ao espectador uma única ideia... Aquela da resistência social! Conseguirá alguém escapar a esta epidemia propagada mas não por zombies? Conseguirá alguém resistir contra todas - e tantas - adversidades económicas e sociais? E aqueles que escapam... conseguirão eles recuperar alguma da sua já ida liberdade?
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3 / 10
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