domingo, 22 de maio de 2016

Bunker (2015)

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Bunker de Sandro Aguilar é uma curta-metragem portuguesa de ficção na qual uma jovem adolescente (Clara Jost) vive com os seus pais num parque de campismo. Quando conhece um tipo (António Júlio Duarte) num concerto, o fascínio que ele lhe desperta é proporcional à instabilidade emocional que as suas vidas emanam.
Poderá entre eles existir um amor correspondido?
Seguindo alguma ambiência comum a Undisclosed Recipients, Sandro Aguilar consegue construir com Bunker uma história que é tanto subversiva pelo seu silêncio como involuntariamente (?) futurista pelo seu cenário. Se as duas curtas-metragens apresentam um espaço comum - o concerto - e se em ambas toda a comunicação é momentaneamente abafada pelo volume da música transformando-se num diálogo corporal que tanto é fluído pelo movimento mas também instintivo, animal e por vezes sexualizado e, como tal primário, não será incorrecto afirmar que em Bunker o espectador depara-se como uma história que transcende os limites do próprio espaço/concerto sendo encaminhado para as vidas - ou direi existências - das duas personagens principais.
Se o concerto aparenta ser, como já referi, algo selvagem, não será menos correcto afirmar que as existência d'"Ele" e d'"Ela" também o são fora dali. Os espaços que ambos ocupam enquanto aquilo que podem chamar dos seus lares são o espelho de uma vida marginal à sociedade (se pensarmos que ainda existe uma), e se "Ele" vive num complexo abandonado como que um eremita, já "Ela" vive numa roulotte num parque de campismo onde os seus pais se dedicam a relações de swing. Ambos os locais são imediatamente "transformados" ou equiparados a espaços claustrofóbicos onde a existência se resume a uma sobrevivência recorrem apenas ao essencial e despojada de qualquer posse.
Este clima de uma aparente sobrevivência e no qual a comunicação é apenas ocasional e principalmente feita de sussurros, de escassos olhares expressos de forma instintiva ou animal num local perdido que aparenta ter sido esquecido pelo passar do tempo criam uma atmosfera futurista - semi-pós apocalíptica - onde os poucos sobreviventes de uma qualquer intempérie se refugiam nos lugares que, afastados de grandes núcleos populacionais, resistiram à destruição. Esta não existe como nos é confirmado com o decorrer do tempo, mas o clima está presente, sente-se e os próprios comportamentos das personagens em questão - pais e vizinhos de parque de campismo incluídos - parecem ser auto-destrutivos e isentos da tal vontade de viver que se espera de qualquer um.
A relação entre "Ele" e "Ela" parece ser, também ela, de uma comiseração. Se inicialmente existe uma mútua atracção - talvez, também ela, instintiva - aos poucos distanciam-se e a convivência parece não ter futuro para lá daqueles meros e breves instantes. Os mundos - de ambos - consomem-se (e consomem-nos) revelando a impossibilidade de ambos mundos - interna e externamente.
Dotado de um ambiente decadente - no espaço - e degradante - entre as pessoas -, Bunker é seguramente o mais enigmático e intenso filme de Sandro Aguilar, rico num ambiente presente e ao mesmo tempo distante pela sua vertente futurista (o tal isolamento) já referido e que o coloca num momento incerto, inseguro e instável onde o espectador se perde na eventualidade ou na iminência de factos que levaram todos aquelas personagens àquele espaço e àquele lugar.
Com uma interpretação secundária - mas determinante - de Isabel Abreu enquanto a mãe "ausente" d'"Ela", Bunker prima ainda por uma exímia direcção de fotografia de Rui Xavier e uma direcção de arte de Nádia Henriques que dá um toque especial a toda a degradação sentida nesta curta-metragem.
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8 / 10
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