quinta-feira, 16 de março de 2017

Valley of Love (2015)

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Vale de Amor de Guillaume Nicloux é uma longa-metragem francesa que junta no grande ecrã dois dos nomes maiores do cinema francês como o são Gérard Depardieu e Isabelle Huppert.
Isabelle (Huppert) e Gérard (Depardieu) reencontram-se no Vale da Morte, na Califórnia. Depois de um distanciamento de vários anos, ambos foram convidados a encontrar-se naquele local pelo agora falecido filho Michael.
O realizador e argumentista Guillaume Nicloux dá forma a uma impiedosa história sobre a perda e a culpa que desde o primeiro instante ao som de The Unanswered Question, de Charles Ives consome o espectador levando-o a um espaço de melancolia e dor capazes de o transformar numa parte activa desta história. No início, ao seguirmos uma "Isabelle" através de um complexo hoteleiro, sentimos que o seu percurso pelo espaço irá ser tão pesado como os motivos que ali a levaram. A sua indiferença pelo local que lentamente se torna cada vez mais claustrofóbico, cedo se transforma num aprisionamento involuntário que faz denotar a sua obrigatoriedade de estar ali presente. É com o reencontro com um "Gérard" que reconhece imediatamente, que o espectador compreende o que, afinal, a (os) levou àquele espaço.
Ambos receberam uma carta... Uma carta de despedida e que anuncia um reencontro com "Michael" - que o espectador nunca conhece - o filho de ambos que se suicidara meses antes. "Michael" deixa um missiva com instruções. Têm de se encontrar num dia, numa hora e num local específicos, como forma única de se poderem reencontrar. "Michael" garante que irá regressar mas, no entanto, não é tanto na perspectiva dele sobre o seu regresso que se centra Valley of Love mas sim nos porquês de querer os seus pais ali juntos e preparados para o receber.
"Isabelle" passar anos sem estar perto do seu filho. Depois de o abandonar aos cuidados de "Gérard" quando ele tinha uma jovem idade, "Isabelle" constituiu uma nova família tendo ignorado o desenvolvimento, crescimento e actividades daquele filho que passou, para ela, a ser uma peça secundária de uma vida que pretendeu esquecer. Sem nunca conhecer os motivos que levaram a que esta família se desfizesse, apenas sabemos que o afastamento foi deliberado e que deu origem a um esquecimento quase intencional da mútua existência. Por sua vez, também "Gérard" abandonou o filho aos cuidados de um colégio interno ignorando as suas vontades e pensamentos. Incapazes de lidar com o fruto de um amor interrompido, tanto "Isabelle" como "Gérard" sentem uma inesperada obrigação de se reencontrar no mesmo espaço em que o filho havia estado antes de se suicidar como que criando a primeira ligação em vida - deles - que nunca conseguiram estabelecer com um filho do qual pouco (se é que algo) conheciam.
Mas é também sobre a perda do casal que Valley of Love trata. Não existe nenhum ressentimento que se faça sentir nesta história. Pelo menos não um em relação ao ex-casal que, percebe o espectador, ainda partilha pequenos olhares cúmplices fruto de uma memória de um passado que - compreendemos - não ter sido traumático. Resultado talvez apenas de um distanciamento afectivo mútuo, a separação que marca o passado de ambos deixou, no entanto, marcas extremas em "Michael" que se despede de forma amarga mas com uma esperança inesperadamente frígida. "Michael" "espera" a presença dos pais no local que o fez despedir deste mundo mas, ao mesmo tempo, não lhes deixa palavras de afecto que anunciem um reencontro (será?!) entusiasta. Assim, Valley of Love revela a frustração de um casal que não consegue lidar com a memória de um abandono mútuo de "Michael" e a eterna questão sobre o que poderiam ter feito melhor para com o seu filho... pergunta esta cuja resposta acaba por ser evidente aos olhos do espectador que, no entanto, o avalia não num sentido condenatório mas igualmente esperançoso pela confirmação deste agora esperado reencontro.
É também sobre a confirmação do seu "eu" actual que Valley of Love trata... Se percebemos o olhar perdido de uma "Isabelle" que se pergunta sobre os motivos do suicídio do seu filho é também certo que lentamente revela que a sua vida imaginada e eventualmente perfeita... não o é. Com uma nova família desfeita e com a perda de um passado que já se encontrava distante, é apenas o reencontro com o seu antigo amor "Gérard" que poderá dar, de alguma forma, o sentido a uma vida que lentamente se perdeu. No entanto, esta aproximação também ela perdida e com os seus próprios segredos, revela estar longe de lhe poder conferir algum conforto ou satisfação. Ambos estão perdidos não só pelo distanciamento que criaram entre si e para com um filho agora desaparecido da vida como pela impossibilidade de continuarem a viver com um sentido de culpa fruto desse distanciamento assim como pela noção de que não existe qualquer designação possível para o momento e situação que agora vivem... afinal, que nome se confere a um pai que perdeu um filho?
É então este sentido inverso de uma orfandade que ambos agora experimentam como vivendo num improvável purgatório à beira do deserto. Vagueiam pelos espaços vividos pelo seu filho ao calor de um sol abrasador, numa vã esperança de verem confirmado o seu regresso. Percorrem os espaços quase sempre desertificados de vida e num deambular que apenas partilham com as poucas personagens com quem se cruzam - também elas silenciosas - e que os relembrar de uma vida para lá daqueles fronteiras momentaneamente impostas que os fazem sair da sua condição fantasmagórica unicamente centrada num regresso que tarda em ser confirmado.
No final ficam apenas as marcas. As marcas de uma memória? Aquelas auto-incutidas como punição de um afastamento da sua prole? A punição como solução de um encontro que não se irá confirmar? A existência para lá da morte, aquela que é física de "Michael" e psicológica deles, que os leva a lentamente compreender que para lá do desaparecimento do filho, é agora a sua sentida culpa e a compreensão da dor e da perda que os consome e os condena à mesma falta de existência que já reconhecem como certa no seu filho, e que se manifesta como o castigo (ou punição) maior a atravessar nesta purgatório. O perdão chega - psicologicamente ou não - pela quase certeza de que o reencontro se irá confirmar não no mundo terreno em que ainda habitam (?) mas sim pela certeza de que do "outro lado" alguém já encontrou um sentido de paz que até então não se havia verificado.
Intensas interpretações de dois actores maiores que se expõem num sofrimento não admitido, Huppert e Depardieu cativam o espectador pela sua intensidade reprimida em actos mas expressa em olhares, gestos e numa amargura que os colhe tão ou mais lentamente do que a sua permanência naquele espaço próximo desse tal "outro lado", apenas brevemente abrandado pela cumplicidade que os dois actores partilham através das suas pequenas histórias ficcionadas de um passado em que se conheceram e amaram como se nada mais existisse no mundo, compreendendo - o espectador - que não fora pela falta de empatia ou sentimento que se afastaram mas pela compreensão de que não conseguiriam eles próprios resistir à intensidade do mesmo.
Como uma obra que nos consome pela sua complexidade e carga dramática, Guillaume Nicloux expõe toda uma ode à perda e à dor que são não só físicas como sobretudo marcas de uma passagem psicológica que nunca conseguiu - conseguirá - sarar.
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8 / 10
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