quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Escape from Isis (2015)

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Escape from Isis de Edward Watts é um documentário britânico recentemente exibido em Portugal que revela o brutal regime em que milhões de mulheres vivem sob o controle do Daesh e o grupo de homens que se dedica a resgatá-las ao mesmo possibilitando-lhes uma vida em liberdade.
Executado ao estilo de uma reportagem em que os intervenientes são apresentados enquanto personagens activas, este documentário permite ao espectador uma abordagem inicial que enquadra Histórica e politicamente os Estados que vivem com uma crescente ocupação do Daesh e a sua directa influência sobre aqueles que vivem nestes territórios. Ao mesmo tempo, o espectador compreende ainda que esta crescente influência do grupo terrorista no interior de alguns países como, por exemplo, o Iraque se reflecte como uma consequência da instabilidade política do país que, tal como na Síria actual, permitiu aos mesmos ganhar e aumentar a sua esfera de influência.
Dos territórios desolados por anos de guerras civis que desordenaram uma ordem - ainda que totalitária - às populações amedrontados que vivem sob um jugo de poder desumano e desumanizador, Escape from Isis aborda essencialmente as vidas daqueles que ficaram sobre o mando do grupo terrorista e, claro, aqueles que se tornam imediatamente como os mais vulneráveis entre todos... as mulheres. Num regime que pretende instaurar uma ditadura fundamentalista religiosa onde a mulher ocupa o lugar mais baixo de uma hierarquia desumanizadora, este documentário aborda, através de relatos tidos na primeira pessoa, a transformação na vida diária daquelas que se viram de um momento para o outro a viver num território ocupado e levadas a uma condição desumana que as transforma não em pessoas, nem tão pouco cidadãs mas sim objectos que podem ser usados e facilmente descartados quando a sua desobediência - afirmação enquanto ser humano - fala mais alto.
Por medo, revolta ou claro necessidade inata estas mulheres - e por mulher entenda-se qualquer criança com idade igual ou superior a 12 anos -, transformam-se em prisioneiras num regime onde ninguém depõe a seu favor. Da simples negação ao "outro" como sua auto-afirmação ao adultério, o regime do Daesh transforma estas mulheres em banais criminosas que são uma afronta à sua dita "lei" religiosa passíveis de serem punidas primeiro com a ostracização social que as afasta inclusive da sua própria família e, finalmente, com a sua morte por apedrejamento - da própria família à comunidade de homens que a condena sem qualquer julgamento que a possa ilibar do "crime".
Do outro lado da fronteira, principalmente na Turquia, o espectador acompanha ainda a acção de um grupo de homens que se dedica ao seu resgate e salvamento. Quer seja através do "rapto" - leia-se resgate - ou mesmo através do pagamento de avultadas verbas que têm como fim último a continuidade do regime através da compra de armamento -, estes homens descobrem em que localidades estas mulheres se encontram, tentam estabelecer contactos e ligações com os seus captores que as mantêm isoladas num cativeiro onde mais não são do que os referidos "instrumentos" e "objectos" e, finalmente, tentam retirados desses mesmos locais garantindo-lhes uma vida de liberdade nos territórios ou países em que o Daesh não exerce qualquer influência.
Ignorando os processos que este grupo de homens exerce - até para sua própria segurança - Escape from Isis leva o espectador a uma viagem que oscila entre a beleza natural do território e a barbárie dos crimes que são cometidos no mesmo. No final apenas acompanhamos a chegada a uma terra de ninguém onde a liberdade é finalmente uma luz ao fundo do túnel - nunca é garantida enquanto uma fronteira não é ultrapassada -, a chegada destas mulheres aos inúmeros campos de refugiados que se encontram dispersos pelos mais variados países e, finalmente, a contínua acção daquele grupo de homens que não só arrisca a sua condição social como principalmente a sua segurança garantindo a estas mulheres a sua liberdade e aos terroristas do Daesh cada vez menos "mercadoria" - como são consideradas as mulheres - que tenham para negociar e perpetuar a sua acção macabra através do dinheiro que tentam receber.
Poucas vezes um documentário consegue arrancar calafrios do espectador como este Escape from Isis. Não só toda a sua acção é de cortar a respiração desde que começa como o espectador compreende que não está a assistir a uma qualquer situação encenada que aconteceu há inúmeros anos. Pelo contrário, tudo o que este documentário proporciona é um conjunto de situações - não exploradas até à exaustão - que acontece in loco. Um passo em falso pode representar a morte de uma ou várias mulheres. Um pagamento não feito descoberto pode representar a sua própria morte ou pelo menos a desconfiança que encerra uma canal de libertação das mesmas. A identidade nem sempre preservada daqueles que negoceiam pode, por vezes, representar um conjunto de ameaças e represálias que, normalmente, pode resultar na morte. A segurança é inexistente e o espectador sente que caminha numa linha muito ténue que separa essa esperada segurança de uma morte que se percebe quase sempre como uma certeza.
Intenso, dramático, emotivo e sempre revoltante pela desumanização a que um grupo pode remeter toda uma sociedade, Escape from Isis é um documentário contemporâneo, importante, pertinente e sobretudo um mordaz relato de uma realidade que necessita ser denunciada e que se constitua como um registo importante da nossa História - ainda a decorrer. Registo esse que, como referi, denuncie a brutalidade de um regime totalitário e fundamentalista enquanto, ao mesmo tempo, tente sensibilizar as opiniões daqueles que (nas nossas sociedades) encarem o outro, que é, também ele uma vítima, como um perigo tão grave como um agressor em plena actividade.
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8 / 10
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