sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A Fábrica de Nada (2017)

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A Fábrica de Nada de Pedro Pinho é uma longa-metragem portuguesa premiada na última edição do Festival Internacional de Cinema de Cannes que relata a história de um grupo de operários que descobre que a administração está a roubar máquinas e equipamentos da fábrica em que trabalham decidindo, posteriormente, organizarem-se e impedir o deslocamento da produção e o desmantelamento do seu local de trabalho.
Enquanto ocupam a fábrica numa tentativa quase vã de manterem os seus postos de trabalho, estes operários negoceiam os seus despedimentos e olham para tudo à sua volta que parece rapidamente desaparecer.
A partir da ideia original de Jorge Silva Melo, o realizador Pedro Pinho juntamente com Tiago Hespanha, Luísa Homem e Leonor Noivo escrevem este conto moderno sobre a perda, a mudança e a transformação recorrendo aos trágicos dias da crise económica que "ocuparam" Portugal nos primeiros anos da segunda década deste século XXI. Aquilo que começa por ser uma história aparentemente normal onde um casal faz a sua vida... sexo... preparação para mais um dia de trabalho... família... conversas... rapidamente se transforma num conto sobre a perda e a desilusão. Um conto moderno sobre a impotência de uma família em resistir às adversidades que o mundo lhes coloca e, como sua directa consequência, a incapacidade de se resistir enquanto... família.
Os laços familiares são aqui tão ou mais ténues e sensíveis do que que aqueles estabelecidos com uma entidade patronal e o trabalho de uma vida. Tudo é frágil e pode ser quebrado num abrir e fechar de olhos. Enquanto as responsabilidades laborais cedem e se quebram, as familiares seguem-lhe o rumo pela impossibilidade de satisfazer todos os deveres - morais ou económicos - que advêm de um bem-estar anteriormente sentido. A dispersão da família agudiza-se e o distanciamento entre o casal começa a ser notado na medida em que predomina o sofrimento e os silêncios que daí se originam. Mas, antes desta derrocada familiar tudo começa com a sensação de justiça que aqueles que dedicam toda uma vida a um local de trabalham sentem que lhes é devida. A vontade de agarrar o trabalho como que se este significasse as paredes da sua própria casa - e em muitos casos assim é -, torna-se uma luta que se sente ter de ser travada ao mesmo tempo que se percebe finalmente a incapacidade e impotência que se tem para a mesma. O mundo gira, muda e transforma-se sem que dele se dê conta mas, ainda assim, a luta tem de ser travada... Talvez perdida... mas tem de acontecer.
Tudo aquilo que começa com uma simples "corte" onde entidade patronal e operários se conhecem como que se assisti-se-mos a uma relação próximo e de anos - eventualmente até terá sido -, rapidamente se desmorona e o espectador fica a conhecer aquilo que, na realidade, os mais fracos sempre significaram para os mais fortes... a capacidade de fazerem dinheiro. Uns até podem saber o nome dos outros... o nome da família, dos filhos, como passam o tempo fora daquelas quatro paredes mas, na realidade, estes operários mais não foram do que uma forma fácil (e barata) de enriquecer, removendo qualquer tipo de ligação quando o lucro mais fácil e mais rápido surgiu do outro lado da rua. É então que se dá o início da luta... Se dpor um lado estes operários sempre conviveram e até conheciam os seus hábitos, é agora que vão privar mais de perto, compreender quem não consegue encetar esta luta e até o quanto custa ver o afastamento de alguns que compreendem - ou não podem - travar uma batalha que sabem ou sentem estar perdida. O argumento - sempre o mesmo - em ver a crise como "uma mudança e uma oportunidade"... Para quem? Se toda a vida ali trabalharam, se ali cresceram e se fizeram homens e mulheres... alguns constituíram família e detinham no seu dia-a-dia entre aquelas quatro paredes uma parte significativa de toda a sua vida... para onde poderiam ir agora? Fazer o quê? Dedicar-se a quem? Trabalhar onde?
Se as questões se impõem neste que é um momento de ruptura, então porque não optar por uma contra ofensiva que seja imprevista... até mesmo inesperada? Do manter-se no local de trabalho sem nada fazer até à ocupação do espaço de trabalho como uma não tão rápida solução de controlo, são as famílias que se desfazem num conjunto de sonhos e promessas que agora se compreendem difíceis de cumprir. O distanciamento entre estes é apenas comparável ao ritmo sem rumo com que todos deambulam pela fábrica, onde as conversas se tornam mais intelectuais mas onde os objectivos parecem tardar em se formar. Onde existe vontade mas incapacidade de reagir como que se encontrassem cada vez mais perto de um abismo mas impossibilitados dele fugir. A esperança desvanece... a realidade é cada vez mais dura e crua. O sonho morre... Os objectivos perdem-se.
Os únicos momentos de escape chegam pela vida fora da fábrica - cada vez menos social - mas que quando existe se rodeia de um sentimento e expressividade selvagens, onde se tornam capazes de exteriorizar toda uma revolta e angústia - no caso de "José Vargas" - na música... no seu pai que o espectador brevemente acompanha, no sentimento de reacção contra os "gorilas" que nos (des)governam e nas lembranças de um conflito no Ultramar que ainda lhe tolda a memória.
As esperanças, já bem perto do final, parecem tão vagas e tão utópicas como o breve segmento musical que interpretam onde reflectem de forma airosa sobre o que pode ainda ser o seu dia de amanhã. Rodeados dessa ténue esperança, todos eles esperam poder alcançar esse tal "eldorado" que teima em nada mais ser do que uma miragem... Mas uma miragem que os aguenta à tona. Que os faz conseguir respirar pelo meio de toda uma aparente e real desgraça que espreita lá fora prestes a utilizar qualquer passo em falso para finalmente os "prender". A sobrevivência... deles... da fábrica... do seu sonho... da sua liberdade e até mesmo das suas famílias depende de um novo potencial contrato... Existirá ele ou, por sua vez, será apenas mais uma distante luz que ameaça sem nunca conseguir ser acesa?!
Revolucionário pela sua abordagem fílmica mas especialmente pela forma como se inspirou num exemplo já esquecido - ou desconhecido - da ocupação de um espaço laboral pelos seus trabalhadores, A Fábrica de Nada de Pedro Pinho é - recorrendo a um lugar comum - a tal lufada de ar fresco que se espera quando o espectador se senta na sala de cinema. Esperamos sempre aquela história que nos faça sentir, que nos provoque um sentimento de identificação com as suas personagens ou os seus dramas existenciais - que aqui temos muitos - ou até mesmo com a possibilidade de ver essa tal luz ao fundo do túnel e dela retirar a ideia de que "é possível". O espectador passa por três horas de um filme que poderia não ser fácil de digerir, sem que se aperceba do tempo. O tempo aqui termina. Vibramos com as histórias pessoais das quais apenas conhecemos o suficiente para perceber que estão ali pessoas reais e não ficcionais retiradas de um qualquer conto abstracto. Temos ali o mundo... O mundo dos nossos vizinhos, de familiares, de amigos de pessoas que conhecemos ou não mas que sabemos ser uma parte de uma trágica realidade a que assistimos de mais ou menos perto. Assistimos ao desespero, à esperança, ao afastamento e à proximidade... Aos opostos. Ao medo, à vida, ao "eu" e ao "eles" mas, ao mesmo tempo, encontramos em A Fábrica de Nada um "nós". Encontramos momentos em que compreendemos - mesmo nos mais surreais - que por entre aquelas paredes e máquinas estão ricas histórias de vida mesmo sem terem visto o mundo (a seu tempo) tal como ele é.
Num ano em que o cinema português já foi brindado com a estreia de outro filme sobre a crise e os nefastos efeitos que perpetua na vida de um homem - São Jorge, de Marco Martins -, este segundo semestre brilha com este A Fábrica de Nada que revela não só um intenso realizador como Pedro Pinho mas também a elaborada capacidade de contar uma história não tradicional com engenho, criatividade, humor, tristeza, solidão, alegria e sobretudo muita alma e coração. Com um conjunto de notáveis interpretações que se destacam e completam, seria impossível passar e falar de A Fábrica de Nada sem mencionar a soberba e intensa interpretação de José Smith Vargas que chega como "mais um" dos muitos funcionários que o espectador vai acompanhar nestas três horas, mas que cedo se destaca como um inesperado protagonista que passa de pacato homem de família a um enérgico líder que tanto exibe a sua coragem e determinação como compreende o quão perto está a eminente perda.
A Fábrica de Nada pode ser, no final, uma fábrica de nada mas, afinal, acaba por ser de tanto... e de tudo.
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10 / 10
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