terça-feira, 5 de setembro de 2017

The Void (2016)

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The Void de Jeremy Gillespie e Steven Kostanski foi uma das longas-metragens exibidas na secção Serviço de Quarto no dia de abertura do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que decorre no Cinema São Jorge até ao próximo dia 10 de Setembro.
Numa noite igual a tantas outras Daniel (Aaron Poole), de serviço numa estrada deserta, encontra um homem ferido que decide levar para o hospital mais próximo quase praticamente desactivado depois de um incêndio. Depois de lá chegarem, estranhos acontecimentos começam a tomar forma e o hospital vê-se rodeado de estranhos encapuçados que impedem a saída dos que ali se encontram.
Numa luta contra o tempo e contra a inevitabilidade dos acontecimentos, Daniel terá não só de desvendar o mistério por detrás daqueles estranhos como restabelecer a ligação com a sua mulher desaparecida dentro daquele misterioso local.
Num registo próximo de The Body Snatchers - (1956, 1978 ou 1993) ou de The Invasion (2007), The Void recupera a linha de filmes onde o corpo do Homem mais não é do que um veículo para uma nova forma de vida que se faz anunciar neste sempre tão cobiçado planeta Terra. No entanto, e contrariamente às obras previamente enumeradas, The Void explora uma nova dimensão desta temática questionando o que será esta "invasão" se o invasor não chegar do espaço mas sim do próprio meio mais ou menos terreno que invoca as profundezas por explorar de um submundo que oscila ente o Purgatóio das almas perdidas e um Inferno onde os seus escolhidos foram todos condenados a um suplício constante. No fundo, o que existirá para lá do meio terreno que conhecemos onde "habitam" estranhas criaturas privadas de uma existência dita normal e que agora anseiam por regressar ao espaço que abandonar nas suas novas e disformes existências?!
Com claras referências bíblicas e religiosas - ou pelo menos profanas (não será que se mesclam?!) - que invocam os quatro cavaleiros do Apocalipse preparados para destruir a existência humana tal como a conhecemos através da fome, pestilência, morte e guerra, The Void não esquece ainda um saudoso The Prince of Darkness (1987), de John Carpenter onde pouco - muito pouco - separa o espaço terreno de uma outra existência profana, macabra e anti-natural que se prepara a qualquer momento para ressurgir através da invocação dos seus seguidores (sempre "inocentemente" misturados no meio de todos nós) disposto a implantar a sua nova ordem e uma ausência de lei que separa a vida (no seu sentido alto) da morte, criando uma eternidade (também auto-suficiente) e uma continuidade do seu "eu", onde reina o caos, a desgraça, uma falsa adoração e uma beleza muito alternativa no hediondo que se esconde por detrás dos supostamente mais "puros" garantindo a todos uma falsa sensação de liberdade na ausência da necessidade da carne como veículo para uma alma que, agora, se aparenta desaparecida.
A materialização dessa suposta nova "ordem" será então a existência terrena e real de um Inferno onde todas as criaturas adoradoras desse profano podem então caminhar enquanto iguais numa exibição do seu macabro, do hediondo e especialmente da sua capacidade de enquanto "caídos" poderem então existir entre todos os demais seres... agora uma minoria sem poder que ou se adaptam... ou serem exterminados pela sua outrora qualidade de "escolhidos" para ocupar a Terra. O tal "Vazio" onde todos estes seres se perfilavam, ausentes de um "céu" ou de um "inferno" tentam então ganhar a Terra - como seus novos (e merecedores) ocupantes -, materializando o pesadelo, o macabro e o hediondo como as novas formas de "vida" até então repudiadas e eliminadas da existência.
Com interpretações feitas à medida para o género de filme que The Void representa e onde, infelizmente, nenhuma se destaca pela diferença - regulares todos eles -, esta longa-metragem vale essencialmente pela capacidade de teorizar sobre esse tal submundo que se distancia de céu, de inferno e do purgatório, onde ninguém espera, ninguém está condenado nem tão pouco será representantes dos tais "escolhidos", manifestando-se apenas como os "outros"... perdidos e filhos do improvável que (des)esperam pela sua oportunidade para habitar o espaço que lhes fora proibido. Simpático mas incapaz de criar algum momento de tensão significativo, The Void vale pela perspectiva que "abre" e pela junção de sagrado e profano, bem como pela forma como apresenta o outro lado... não condenado mas inenarrado... Se uns são escolhidos e outros condenados... o que acontece àqueles que apenas estão permitidos a existir quando todos nós dormimos e mais não são do que um vislumbre nos nossos próprios pesadelos?!
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6 / 10
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