sexta-feira, 29 de setembro de 2017

La Reina de España (2016)

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A Rainha de Espanha de Fernando Trueba é uma longa-metragem espanhola que foi uma das mais nomeadas à última edição dos Goya da Academia Espanhola de Cinema e a sequela de La Niña de Tus Ojos (1998), um dos filmes mais premiados do respectivo ano que agora se encontra prestes a estrear no país.
Quase vinte anos depois de La Niña de Tus Ojos, encontramos Macarena Granada (Penélope Cruz) como uma estrela de Hollywood. De regresso à sua Espanha natal para as filmagens de uma longa-metragem sobre Isabel, a Católica, Macarena reencontra todo o elenco do seu anterior filme espanhol bem como enfrenta o regresso de Blas Fontiveros (Antonio Resines), o seu realizador e antigo amante.
Numa Espanha agora dominada pelo regime franquista, onde os sonhos foram destruídos e a esperança adiada, conseguirá este grupo de profissionais de cinema resistir aos ventos de mais uma ditadura?
Se com La Niña de Tus Ojos (1998) encontramos uma companhia de actores e profissionais de cinema embebidos num espírito de esperança revolucionária capaz de fazer mover montanhas - ainda que para o espectador esta realidade estava longe de concretizar-se pelo seu conhecimento da História do país - e, no fundo, sendo esta esperança o directo resultado da magia possível de ser executada com a concretização do seu filme, a realidade é que o contexto do qual saem da Espanha de então é tão amistosa como aquela que vão encontrar na Alemanha nazi onde a brutalidade e a repressão representavam o ideal de uma nova ordem que iria dominar os destinos dos dois países - e da Europa - durante muitos anos, com La Reina de España a realidade agora confirmada do país contrasta com o resto do mundo. Encontramos uma Espanha desmotivada e enclausurada na ditadura e um mundo "lá fora" onde a esperança volta a fazer parte do sonho (possível) daqueles que o conhecem.
Os dois filmes distanciam-se assim do contexto social em que foram "feitos". Da Europa dos anos 30 onde tudo se vislumbrava negro e repressor onde o tal sonhos deixava de existir de La Niña de Tus Ojos à realidade ainda triste de uma Espanha enclausurada de La Reina de España. Os dois distanciam-se portanto to contexto em que o mundo se encontra mas aproximam-se pela realidade sentida de uma Espanha que estava perdida agora com a confirmação de uma ditadura que mata o sonho, que mata a imaginação e ainda que permite o (cinema) social como tema de uma comédia manobrada e trabalhada para agradar. O mundo "lá fora" mudou... mas mantém-se a mesma opressão para aqueles que agora têm de viver com ela sem hipótese de conhecer esse mesmo mundo.
Em La Reina de España encontramos as mesmas personagens. Agora figuras forçadas de um regime hóstil para o qual a imagem é tudo o que conta, controlados pela arbitrariedade de uma censura operante e permissivos à mensagem subliminar que tentavam passar, ambos (con)vivem com o tal sonho perdido na sua memória. Mais velhos, com menos expectativas e com realidades próximas que tentam esconder com a cumplicidade que os caracteriza, Trueba cria um conjunto de perfeitas personagens exemplares do regime de então. Vidas perfeitas - e previsivelmente privilegiadas - que, no entanto, ocultam as suas preferências políticas, ideológicas e sexuais, todas elas consideradas inimigas de um Estado castrador e controlador. Se com La Niña de Tus Ojos existia o sonho de criar pelo cinema, em La Reina de España existe a necessidade de criar - dentro dos parâmetros permitidos - como forma de subsistir num mundo onde apenas sabem fazer o que conhecem.
Se em 1998 Trueba conseguiu impôr um pouco dessa magia do cinema muito graças aos desejos deste grupo de profissionais e amigos que imaginavam que criavam um mundo melhor que os distanciava das amarguras de uma Guerra Civil, conferindo-lhes humor, dramatismo, paixão e ilusão, em La Reina de España temos sim a confirmação de "Macarena" (Cruz) como uma actriz dentro do star system de Hollywood que, no entanto, vive o desgosto de um pai perdido nas garras franquistas e uma Espanha distante e ausente do seu destino... no fundo, uma filha que não consegue encontrar o seu lar e apenas ali regressa como um elemento agora naturalizado norte-americana e, como tal, impossível de deter e manobrar como mais um dos seus bonecos. Se então Trueba criou uma história que olhava para a Alemanha nazi como o regime brutal que foi, agora recupera o imaginário de uma Espanha franquista dominadora e igualmente opressiva. Se num assistimos à brutalidade contra os judeus, agora temo-la contra os indivíduos supostos simpatizantes comunistas e, como tal, inimigos do Estado. Mas ainda temos tempo para reflexões McCartistas norte-americanas, para afirmações contra o franquismo e em prol de uma liberdade ainda distante e sobretudo um hino pela cúmplice amizade que um conjunto de amigos não esqueceu ou perdeu mesmo com os anos passados - no filme tal como na realidade distanciam-nos dezoito anos -, mas também pela memória daqueles que vieram de toda a parte do mundo para lutar por uma Espanha plural como desejava a então República da década de '30.
Temos ainda tempo para um frente-a-frente entre "Franco" e "Macarena"... a santa/actriz e o político. A libertária e o ditador. A mulher e o homem (políticos?!) que se confrontam como um directo reflexo de uma sociedade dividida entre estigmas e pressupostos. O ditador que se impõe (e impôs) durante muitos mais anos (mais vinte) e a mulher actriz símbolo de uma liberdade (individual, sexual e até política), que tinha voz fora de um país onde já não era bem-vinda mas que ainda tem como seu... eternamente seu - não é por razão ao acaso que a sua interpretação em La Reina de España é enquanto Isabel, a Católica... mulher chegada a Granada (o apelido da sua personagem), terra recentemente conquistada aos muçulmanos ocupantes.
Com alguma da magia de La Niña de Tus Ojos já perdida. La Reina de España consegue, manter uma certa empatia com o seu espectador pela recuperação quase intacta das personagens que o conseguiram encantar no final do século passado - que é, como quem diz... há toda uma vida atrás - perdendo, no entanto, algum misticismo e graciosidade que então impunham... talvez a confirmação do seu regime, a compreensão de que a Espanha que idealizaram não é aquela em que vivem ou até mesmo o desencanto natural que o avanço da idade comporta, transformou-os (a todos) no tal adulto que os anos assumem e não nas "crianças" que esperavam sempre ser. Diz-se que quem regressa de uma guerra é toda uma pessoa diferente daquela que para ela partiu... La Reina de España confirma que esta afirmação é verdade... uma vez vistos os seus horrores e jamais se poderá encarar a vida de uma forma cor-de-rosa.
Graciosa como sempre, Penélope Cruz suporta o filme como sendo seu - tal a cumplicidade sentida com quem está por detrás da câmara -, mas são os secundários como Loles León ou Antonio Resines - também ele apagado e desligado da intensidade dramática que o caracterizam - que dão algum espírito a uma história que talvez não seja o final esperado para o sucesso que foi La Niña de Tus Ojos. Mas, ainda assim, La Reina de España é o filme que se impunha fazer... onde e quem são eles quase vinte anos depois do seu grande sucesso e da confirmação de que o mundo (seu) poderia ser algo diferente. Triste e potencialmente desencantado, La Reina de España apenas emerge de uma sombra pelo imaginário do sonho que o cinema pode transmitir... não que o filme seja cinzento mas assim o é o seu universo, o seu mundo e o rumo que o mesmo ainda iria tomar.
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6 / 10
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