sexta-feira, 15 de maio de 2015

Desterrados (2014)

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Desterrados de Erick García Corona é uma curta-metragem mexicana de ficção presente na secção internacional da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu na Cantábria, em Espanha entre os passados dias 2 e 9 de Maio.
Andrés (Emiliano Yáñez) regressa a casa aquando do falecimento da mãe. Reunido com Gabriel (Enrique Arrison) e Sofía (Sofía Espinosa), os seus irmãos, apenas o pai parece não querer saber da sua presença naquela casa.
Num ambiente tenso e com segredos do passado e do presente por serem revelados, irá Andrés ficar e finalmente resolvê-los ou irá novamente optar pela fuga do seu próprio passado?
Alexandra Márquez e Erik García Corona assinam uma história que é essencialmente vivida nos silêncios do passado. Os silêncios de uns que não querem saber e os de outros que preferem não falar nos monstruosos traumas que assolam toda a sua dignidade, auto-confiança e até a sua existência, sendo lentamente consumidos pelos mesmos de forma destruidora.
"Andrés", naquela que é uma genial e inspirada interpretação de Emiliano Yáñez, encarna o rosto de um passado vivido e sofrido no silêncio - seu por medo e vergonha mas também naquele tido pelos seus pais que por prática de acto e crime de cumplicidade - tornando-se assim na vítima que resolve um dia enfrentar (tentar) as suas origens e principalmente os seus medos.
Desde o instante em que se cruza com os agentes do seu passado - a sua família - que o espectador vive num misto de alegria e incómodo. Se por um lado percebemos o contentamento dos seus irmãos em reencontrarem-no - apesar das trágicas condições em que o fazem - não é menos verdade que aos olhos do seu pai "Andrés" é aquele que desafiou a sua ordem através da fuga que efectuou de casa à qual possivelmente gerou nunca mais voltar. Ele é um elemento "estranho" dentro daquelas paredes onde nasceu e cresceu. Um estranho que por medo da sua experiência e insegurança a respeito do seu destino, resolveu abandonar o berço e tentar o desconhecido que lhe possibilitaria outras oportunidades (fossem elas o que fossem).
A questão - óbvia a partir de certo momento - gera uma imediata questão... até quando "Andrés" resiste a um ambiente que se mantém tão nocivo quanto no dia em que resolveu partir? E a esta questão responde-se com outra... Poderá a sua presença naquela casa salvar algum dos seus irmãos da garra do maior dos predadores?
A ambiguidade de Desterrados não se prende necessariamente com a resposta a estas questões pois elas são, em certa medida, respondidas com o desfecho desta história, mas sim com os pequenos enigmas que são lançados ao longo da mesma nomeadamente sobre a cumplicidade - também ela silenciosa - de "Sófia" que ora parece incomodada com o crime de que é vítima como de seguida parece não desejar a presença daquele que sabe o seu trauma melhor que ninguém. Ambígua ainda na forma como lança a possibilidade de existência de diversos caminhos e estradas a seguir e que os podem - aos irmãos - levar para fora daquele ambiente mas que, ao mesmo tempo, não conferem a tal penalização do criminoso mas sim a fuga dos jovens sem fecharem este capítulo da sua vida... E sobre esta questão, estarão eles dispostos a perder um pai ou um irmão? Estarão eles dispostos a permanecer no silêncio ou enfrentar uma pseudo-vergonha quando a sua vivência fôr finalmente exposta? Desterrados no exílio forçado ou no seu espaço qual porto seguro ilusório? Afinal, onde são eles realmente o elemento "estranho"?
Magistralmente interpretado e dirigido com a existência de uma estranha alma nestas personagens perdidas no espaço, Desterrados lança um olhar mordaz sobre a culpa do silêncio, sobre a segurança da fuga e do desconhecido e principalmente sobre a forma como estes podem garantir a maior tranquilidade e conforto quando o passado se torna finalmente um acto enterrado.
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9 / 10
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