quinta-feira, 14 de maio de 2015

Todo un Futuro Juntos (2014)

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Todo un Futuro Juntos de Pablo Remón é uma curta-metragem de ficção espanhola presente na secção Nacional da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu até ao passado dia 9 de Maio na Cantábria, em Espanha.
Dois homens num bar conversam sobre o seu trabalho na banca e como venderam acções numa quando indeterminada. Um deles - Carlos Fontaneda (Luís Bermejo) - queixa-se ao outro Juan Luis Cobo (Juan Villagrán) que está a ser incomodado à porta da sua casa por um grupo de manifestantes. Mas ao contrário dos dissabores esperados, esta manifestação trouxe-lhe uma surpreendente revelação.
Ao iniciar Todo un Futuro Juntos, Pablo Remón tem o cuidado de alertar o espectador que a curta-metragem se inspira numa conversa que o próprio escutou num bar. Adaptado livremente para que a ficção tivesse realmente o seu impacto, Remón recria aqui uma história onde a actualidade e o amor encontra uma inesperada e improvável dinâmica.
Numa Europa do Sul onde os despejos e a crise económica se têm feito sentir ao longo dos últimos anos criando uma série clivagem de classes para além de uma ruptura visível na sociedade, Todo un Futuro Juntos preenche a perspectiva que faltava para esta presente realidade... a do "outro" lado... A perspectiva daqueles que se encontram na cadeira do poder onde as decisões são tomadas de forma anónima e impessoal. "Juan Luis", o mais novo, queixa-se de forma impessoal e pouco empática de como são eles o centro de toda uma polémica que lhes é, de certa forma, imposta - também eles afectados porque tomam decisões que lhes são transmitidas vinda do topo e não de "livre" vontade - sendo o "sistema" (esse papão sem rosto) o verdadeiro responsável por tudo o que se passa à sua volta chegando até a pensar ser absurdo criminalizar os banqueiros. No entanto, "Fontaneda", o homem mais velho e director geral do banco, fala-lhe sobre como está a ser assediado à porta da sua residência por um conjunto de manifestantes onde destaca a presença de uma jovem e bonita mulher que olha para ele de forma insistentemente enigmática e por quem se sente atraído. Distante da natural antipatia que qualquer um de nós associa a um empregado bancário - há que dizê-lo - Luis Bermejo incute à sua personagem alguma humanidade tão invulgarmente associada a esta profissão nos tempos que correm revelando que para lá de bancário é um homem que vive, que pensa e principalmente que sente e que tem agora no rosto da tal jovem a personificação do mal imposto que tem de praticar.
Se por um lado Villagrán encarna o mal da sociedade e a indiferença que alguns tendem a denotar face aos reais problemas da mesma, Bermejo entrega um olhar dinâmico e reflexivo sobre esses mesmos problemas aos quais atribui um rosto e que na impossibilidade de os resolver revela passar noites de desassossego, de tormentos, de pesadelos com catástrofes e de morte (a social). No fundo, Bermejo é o início de uma consciencialização social... ou pelo menos assim o espectador o deseja. O amor tudo conquista - pensamos - até o coração mais duro... mas a realidade como todos nós bem a conhecemos está longe de ser tão lírica sendo, no entanto, este o ponto principal desta curta-metragem... fazer crer, esperar ou até mesmo desejar que exista um coração por detrás de uma tão grande desumanização.
Num plano sequência que nos aproxima dos actores como se por um lado o espectador esteja realmente naquele bar a escutar tudo o que eles dizem e por outro conferindo-lhes uma margem de manobra igualmente asfixiante da qual se sabe não poderem fugir, Todo un Futuro Juntos - nomeada ao Goya de Melhor Curta-Metragem de Ficção - vive num misto de ficção e realidade onde por um lado assistimos à dura realidade que povoam as nossas ruas e por outro somos presenteados com uma improvável história de amor que pode mudar o mundo - assim o desejamos - ao transformar a vida de um homem cheio de certezas e agora abalado pela incerteza do dia seguinte. Afinal, pensa o espectador, ainda existe alguma vida por detrás do fato e da gravata... ainda que improvável ou difícil de encontrar... ela existe algures.
"Donos" de duas interpretações ricas em conflituosidade de sentimentos, Villagrán e Bermejo inicial a sua prestação enquanto dois semelhantes e aos poucos revelam-se opostos. De um lado temos a indiferença para toda a realidade alheia e por outro temos a humanização de um homem que possivelmente viveu toda a sua vida sem pensar ou questionar que as suas decisões estavam de facto a afectar as vidas dos demais. Num mundo em que reinam números, prazos, verbas e valores que espaço poderia existir para o sentimento e para a paixão? Curioso o momento em que o "Homem" percebe que está realmente vivo e ainda mais o momento em que percebe que sente... E mais curioso ainda a perspectiva que Pablo Remón nos oferece ao possibilitar que o espectador conheça sobre o que realmente falam todos aqueles "homens engravatados" que trabalham num banco... Será a sua vida apenas gráficos, números e contas?! Ou para lá disso eles têm problemas reais como todos os demais?!
Com uma genial direcção de fotografia a preto e branco por parte de Christophe Farnarier, Todo un Futuro Juntos mescla a ideia de eventual documentário pelo relato inicial que nos dá conta que tem uma inspiração "real" convertendo-se, no entanto, numa deliciosa ficção que nos permite ver "o outro lado"... o tal dos números, impessoal e desprovido de sentimentos que, curiosamente, consegue também ele ver o "lado de cá". Inicialmente como uma sensação estranha, uma impressão ou até mesmo uma comichão desconhecida mas que aos poucos o conquista pela curiosidade, pelo olhar, pelos gestos e pelas motivações... Afinal o amor manifesta-se sempre de formas estranhas... e o "Fontaneda" de Luis Bermejo - numa genial interpretação - descobriu-o agora.
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9 / 10
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