domingo, 17 de maio de 2015

Mapa de Recuerdos de Madrid (2014)

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Mapa de Recuerdos de Madrid de Daniel Ramírez é uma longa-metragem espanhola que une o estilo documental e a ficção para aquela que é uma sentida homenagem à cidade de Madrid e uma das três longas-metragens seleccionadas para a categoria de Puesta de Largo da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu na Cantábria, em Espanha até ao passado dia 9 de Maio.
Uma cidade é formada por ruas e praças, parques e edifícios mas acima disso aquilo que confere a sua História são as pessoas e as suas histórias, experiências e vivências. É com base nesta premissa que se constrói esta ambiciosa longa-metragem editada a partir do documentário homónimo onde um conjunto de conhecidas caras do meio artístico espanhol dão cor e vida às histórias de muitos daqueles que compõem as cores madrilenas.
Mapa de Recuerdos de Madrid iniciou a sua viagem através de um pedido a todos aqueles que quisessem contribuir com as suas histórias pessoais de quando chegaram à cidade de Madrid, aquilo que lá viveram, quem conheceram e essencialmente de que forma a cidade e a sua estada os haviam marcado. Desde pedido que recolheu milhares de testemunhos foi elaborado o documentário de onde saiu o filme - este que aqui comento - com um conjunto de dez segmentos/histórias aqui interpretados por um conjunto de actores que lhes conferem a sua comédia, drama e no fundo que compõem a memória desses anónimos que resolveram participar.
Desde I'm Free com um desencanto amoroso a Happy Day onde as primeiras memórias da cidade para uma mulher são aquelas de alguém sentado ao seu lado num restaurante que sem dinheiro para comer tentou ficar com os restos de alguém. De Duelo em Mendéz Álvaro onde uma mulher fala sobre os seus problemas pessoais enquanto observa os outros fora do táxi em que se encontra e os compara a touros à procura de um transporte ou Él Era Así onde se confidencia como alguém nunca foi ao hospital ver um amigo ou familiar doente com medo de o encarar numa fase tão complicada da sua vida. De El Sur, 1982 onde se tecem comparações sobre uma vitória eleitoral à vivência numa discoteca a Ángel ou Demónio e se equaciona a dualidade do ser. De Un Ángel en un Retiro sobre as confissões de uma mulher sobre David um tipo forte e elegante de quem gostava e que se ri dela deixando-a com um desgosto amoroso a El Banco de Bravo Murillo e um banco onde todos se sentam para descansar ou Los Tejadros de Madrid sobre o tal encontro sexual que a deixou absolutamente radiante mas do qual se lembra apenas ter recordado os telhados da cidade.
E finalmente Diez Años Ya, aquele que será um dos - senão o - momentos mais emotivos de toda esta longa-metragem e que nos leva ao ido ano de 2004 quando a 11 de Março ocorreu o atentado bombista em Madrid que vitimou dezenas de pessoas. Num relato profundamente emotivo permanecem as memória de um encontro de amigos no terminal de comboios... Alguns seguem viagem e um fica para trás, recordando que depois teve de ir identificar os cadáveres dos seus amigos e que enquanto os seus nomes irão figurar na placa em memória das vítimas não sabe se o seu nome alguma vez lá irá constar. Este relato sentido e aquele que consegue levar o espectador a ter um frio no estômago pela força que as palavras têm consegue por si tornar toda esta história essencialmente de memórias, num registo doloroso e avassalador - brilhante a entoação e o registo dramático de Ramiro Melgar - talvez o mais forte de todo o filme.
Sem uma aparente ligação entre os vários segmentos, pois afinal estamos a observar as diversas memórias e experiências de pessoas singulares - aqui estão reflectidas todo um conjunto de confissões que nunca se conseguiram ter com ninguém. Desabafos sobre o "eu" e sobre a solidão, sobre a alegria e tristeza mas sobretudo sobre a mágoa, a perda, a dor e a morte. Sobre aquilo que ficou por dizer por medo, por vergonha ou falta de coragem. Sobre os traumas que o passado deixou, sobre as feridas que nunca se irão sarar e sobre aquilo que nunca se poderá - ou irá - dizer ao "outro".
Desta forma e sem qualquer artifício ou efeito especial, o espectador encontra-se literalmente do outro lado da câmara a escutar aquilo que foi proferido por dezenas de pessoas anónimas. Pessoas com histórias por contar... com receios que precisavam ser expiados e momentos que precisavam ser verbalizados por alguém que não elas... Alguém que as compreendesse sem julgar e que dessa forma pudessem confessar sem penitência aquilo que há anos os atormentava. É então aqui que reside o poder de Mapa de Recuerdos de Madrid e que Daniel Ramírez e um excelente batalhão de argumentistas sobre expôr de forma íntima e pessoal como se as histórias "deles" fossem as "nossas" criando a aproximação necessária para que este filme conseguisse chegar ao público seu espectador.
Acompanhados apenas pela presença e voz dos actores que dão vida a estas confissões, o espectador desliga-se - literalmente - de tudo o que está ao seu redor... cenário incluído que, na prática, não existe. Estamos ali frente a frente com alguém que decidiu contar uma história; a sua história. Partilhar todos os medos ou alegrias que o acompanham repletos - todos eles - de uma sentida mágoa que apenas se dissipa pela partilha conseguida da mesma.
Ficarmos sentados a escutar as histórias de outras pessoas poderia ser à partida uma aventura difícil de conquistar um público ou um espaço próprio principalmente se pensarmos que ao ver este filme estaremos numa sala escura frente a um ecrã do qual pouco se destaca para lá do próprio escuro. No entanto, ao fazê-lo, imaginamo-nos como alguém disposto a escutar a história de alguém que finalmente ganhou coragem para a libertar - para se libertar - e que, como tal, merece toda a atenção daquele que se dispõe a estar presente em tão importante momento.
Para lá de uma aposta ganha sobre o relato de tais experiências, Mapa de Recuerdos de Madrid é uma sentida - e devida - homenagem a uma magnífica cidade tida como repleta de vida mas que se esquece - por vezes - de mostrar o seu lado saudoso, sentido e introspecto aqui tão bem conseguido.
Um bravo ao realizador Daniel Ramírez por esta pequena grande pérola - o documentário na íntegra são mais de trezentos minutos - e outro a todos aqueles que tiveram vontade e coragem em contar a história... sua e da cidade de Madrid.
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"Todo en esta vida pasa... el dolor también..."
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10 / 10
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