quinta-feira, 14 de maio de 2015

El Amor me Queda Grande (2014)

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El Amor me Queda Grande de Javier Giner é uma curta-metragem espanhola de ficção presente na secção Nacional da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que terminou no passado dia 9 de Maio na Cantábria, em Espanha.
Samuel (Izan Corchero) tem dez anos e está perdidamente apaixonado por Lucía (Lucía Caraballo). Lucía, agora com doze anos, tem um plano para se livrar do único obstáculo que a separa dos seus desejos de se tornar uma escritora, crítica de cinema e claro... rica.
Usando todo o seu charme e sedução, Lucía vai tentar convencer Samuel a ajudá-la no seu grande plano e, naquele banco de jardim, fazem-se promessas de amor eterno, cumplicidade e união apenas possíveis quando existe uma grande paixão.
Num mundo cinematográfico que facilmente se divide em comédia e drama, Javier Giner entrega-nos uma elaborada e assumidamente vincada comédia negra que tece a sua homenagem não só ao cinema negro de Hollywood como também se sente uma clara referência às comédias Almodovarianas dos anos 80 não deixando, ao mesmo tempo, de assumir um cunho muito pessoal do realizador e argumentista tornando-se esta curta-metragem a sua obra de referência.
Giner cria duas personagens perfeitas. Por um lado temos o jovem inocente - "Samuel" - que perdido de amores por uma rapariga é capaz de olhá-la como se mais ninguém existisse e equacionar até entrar nos seus planos maquiavélicos sem questionar o quão perigosos são. Por outro temos "Lucía", a perfeita vilã moderna que num misto de Bette Davis e Anne Baxter - brilhante caracterização de Paula Culebras, Teresa González e Elvira Guijarro - encarna o mal com rosto sedutor e inocente capaz de seduzir o mais desatento. A jovem Lucía Caraballo consegue não só conter elementos de comédia na sua interpretação como, ao mesmo tempo, denotar um fatalismo manipulador como se o seu plano fosse a sua última hipótese de poder vir a ser alguém - tantas preocupações para tão jovem idade - e seduzir o jovem "Samuel" através do ciúme que a sua paixão desperta. Sem esquecer que estamos perante uma história de crianças - no sentido destas serem os seus protagonistas - Giner cria um argumento que leva o espectador para a mais negra das histórias onde, na prática, se planeia um assassinato para prosseguir com uma vida mais "feliz" e "desimpedida".
A intensidade de Lucía Caraballo é desarmante. Por vezes questionamo-nos enquanto espectadores sobre a capacidade de um actor/criança entregar à sua personagem a carga dramática esperada para que a mesma seja credível. Caraballo comprova que não só é já uma actriz de força como não me espanta que nos próximos anos seja uma referência do cinema espanhol. A sua "Lucía" é uma femme fatale, aliás, uma enfant-fatale. "Lucía" sabe o que quer, como o quer e principalmente como o conseguir. Não se importa como, ou quem, o irá fazer... O importante é que o façam e que no processo percebam que a estão a agradar. Os seus propósitos são claros e os seus métodos e fins objectivos... Tudo é, para ela, feito com um fim maior que é, na prática, a sua felicidade e enquanto jovem que é, apenas a sua mãe parece ser o tal grande obstáculo que a privam da sua concretização. Caraballo entrega-se à sua personagem e transforma-a numa criança perigosamente manipuladora - depois disto quem disser que as crianças são todas inocentes... mente - e a sua segurança representativa fazem-na uma força a ter em conta. Não encontramos defeitos na sua interpretação... nem tão pouco a notamos vacilar enquanto manipula. Tudo está naturalmente estudado e sabemos que de uma ou outra forma ela é (será) uma vencedora. A sua "Lucía" é uma vencedora. Quer execute o seu plano ou não sai sempre a ganhar... por um lado pode livrar-se da sua mãe e por outro sabe que tem a seus pés qualquer um dos seus admiradores dispostos a tudo por ela. Apaixonadamente e sem muito esforço - mas muita convicção - o futuro (seja ele qual fôr) está nas suas mãos e por saber que é capaz de manipular "Lucía" fá-lo por satisfação, por prazer como se de um passatempo se tratasse.
"Às crianças que são adultos e aos adultos que são crianças"... É assim que Javier Giner caracteriza El Amor me Queda Grande conseguindo, desta forma, construir uma obra maior em formato de cinema curto e revelando ao mesmo tempo todo o seu potencial enquanto cineasta, enquanto director de actores e contador de histórias. No fundo dirige aqui um filme que é capaz de agradar aos mais novos pela presença de actores da sua idade - aproximando-os da sua cinematografia - e conseguindo que os mais velhos se relembrem das velhas histórias que fizeram a História do cinema. Giner assume-se como uma aposta mais que segura para a contínua excelência do novo cinema espanhol que não esquece as suas origens e que é através delas que se reinventa e constrói todo um potencial por explorar.
Ainda dois apontamentos positivos sendo o primeiro para a música original de Mariano Marín que leva o espectador a sentir a ambiência de um cinema clássico por vezes esquecido onde cada nota representa um sentimento ou expressão próprios, e ainda a magnífica direcção de fotografia de Joaquín Manchado que transforma um pequeno jardim madrileno num espaço onde as suas personagens podem num momento irradiar luz como rapidamente se transformarem em elementos negros quase sem expressão como se num labirinto cada vez mais apertado se encontrassem.
No final o espectador tem apenas um pensamento... Como se poderia imaginar que por detrás de uma história onde manifestações humanas como a manipulação, a chantagem, o ciúme e a intriga tivessem por detrás apenas um único sentimento... o amor?!
Intenso e provocador, El Amor me Queda Grande confere não só aos seus actores Caraballo e Corchero como principalmente a Javier Giner seu realizador e argumentista a obra de referência que a partir de aqui terão de superar. Sim... esta curta-metragem é assim tão boa!
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9 / 10
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