sexta-feira, 15 de maio de 2015

Die Schwulenheiler (2014)

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Die Schwulenheiler de Christian Deker e Oda Lambrecht é um documentário em formato de curta-metragem alemão que esteve presente na secção Social da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu até ao passado dia 9 de Maio na Cantábria, em Espanha.
O documentário de Christian Deker e Oda Lambrecht é uma investigação na primeira pessoa que o realizador efectua a algumas clínicas na Alemanha onde os seus médicos consideram a homossexualidade uma desordem psicológica e, como tal, propõem-se a "curar" a "doença" e torná-los heterossexuais.
Nesta viagem por um mundo clínico e médico, Deker enquanto repórter e homossexual assumido sujeita-se a um conjunto de visitas para descobrir não só em que consistem os ditos "tratamentos" como também como os mesmos são comparticipados por seguradores num ciclo onde o dinheiro e a dignidade do Homem vivem afastados.
A dupla Deker e Lambrecht conseguem com este documentário efectuar uma visita não só a uma surpreendente e inexplicável actualidade como, ao mesmo tempo, abordar um pouco da contextualização histórica da homossexualidade na Alemanha tido como um país progressista e na vanguarda Europeia. Assim, a dupla de realizadores levam o espectador a conhecer um pouco do passado recente do país onde na década de 60 do século passado mais de cinquenta mil homens estavam detidos nas prisões estatais por "práticas e actos homossexuais" tendo muitos chegado a falecer antes das suas penas - na actualidade - serem retratadas e consideradas ilegais permanecendo assim toda a sua vida enquanto perpetradores de um crime que não o foi.
No entanto, se isto é por si suficientemente espantoso - pela negativa - aquilo que mais surpreende em Die Schwulenheiler é a actual situação vivida no país. Deker sujeita-se a um conjunto de "consultas" onde os médicos aí presentes - cristãos fundamentalistas - lhe propõem resolver a sua sexualidade que mais não é do que uma "desordem mental", e cujos tratamentos serão devidamente suportados por várias seguradoras com quem existem acordos. No fundo, aquilo que o próprio Estado suporta é uma concordância silenciosa permitindo que estas seguradoras estabeleçam contratados com curandeiros - na mais selvagem das designações - mesmo contra indicações das organizações médicas nacionais e internacionais que advertem sobre os perigos que estes "tratamentos" podem provocar quer física quer psicologicamente naqueles que a eles possam eventualmente recorrer.
Num registo intenso e pessoal que ultrapassa todas as noções de humanidade a que um indivíduo se possa sujeitar, Christian Deker faz uma sentida e por vezes emotiva viagem onde não só coloca a descoberto médicos nos quais o paciente deveria depositar toda a sua confiança mas que, na prática, funcionam não como elementos fiáveis mas sim como fundamentalistas dispostos a colocar em risco a vida daqueles que tratam em nome de "programas de cura" - financiados - e que praticam graças aos seus preconceitos.
No final de Die Schwulenheiler, o espectador que poderia olhar para as sociedades mais "evoluídas" de uma Europa em transformação questiona-se até que ponto existe evolução numa sociedade que questiona a individualidade de cada um não com a curiosidade de acolher a diferença mas sim através do dedo acusador de alguém que a recusa.
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9 / 10
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