quinta-feira, 14 de maio de 2015

Soy tan Feliz (2014)

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Soy tan Feliz de Juan Gautier é uma curta-metragem espanhola de ficção presente na secção Nacional da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu até ao passado dia 9 de Maio na Cantábria, em Espanha.
Fran (Olaya Martín) está prestes a terminar o estágio em psiquiatria ao mesmo tempo de cuida da sua mãe que se encontra doente e prestes a ser operada. É quando chega o seu irmão para a acompanhar neste momento mais complicado que Fran percebe que a sua vida estagnou. Poderá alguma vez viver a vida com que em tempos havia sonhado?
O brilhante argumento de Juan Gautier apresenta-nos uma mulher que se esqueceu dela própria. Passou o tempo e passaram os anos e "Fran" nem sequer se apercebeu que tudo, menos ela, esteve em constante transformação. Os mesmos anos que também passaram por ela e que a fazem compreender que a sua vida já não é a de uma adolescente sendo que, no entanto, também não viveu as oportunidades e experiências inerentes a uma idade mais jovem.
"Fran" não tem amizades mas sim "colegas" de trabalho, não tem projectos de família ou tão pouco a noção de que um dia poderá ficar sózinha. Ao optar por tratar apenas e só da sua mãe quase de forma exclusiva esqueceu que, também ela, se encontrava viva e que deveria ter pensado um pouco mais no seu próprio bem-estar. A própria relação estabelecida com "Juan" (Javier Mejia), o seu irmão foi esquecida. Sabem que são irmãos mas ela não parece aceitar o facto dele se ter afastado e construído a sua vida esquecendo-a - na sua opinião - e à mãe, deixando-lhe todas as responsabilidades que são - para ela - de ambos.
Aos poucos, e sem o notar, "Fran" tornou-se numa mulher infeliz, amarga e desgastada pelo tempo apesar da sua ainda muito jovem idade, mas também pela vida e principalmente pela noção dos anos que passaram sem que deles recorde nada positivo ou da liberdade que lhe estava inerente. "Fran" nunca cedeu à percepção de que o tempo que iria passar com a sua mãe seria limitado e que um dia se iria encontrar sózinha e sem a sua companhia até então tida como certa. É a percepção de que o momento em que terá de olhar apenas para si própria que a assusta na medida em que esqueceu como poder fazê-lo. O que será agora da sua vida em que só pode contar consigo?
Todos os seus sentido parecem ter sido toldados por um afastamento do mundo e da realidade em seu redor, e quando alguém demonstra ter por ela algum tipo de afecto ou interesse existe um click que a fazem afastar-se e não se envolver. No fundo, "Fran" pensa em como pode interagir com outras pessoas quando, na prática, ela nem sózinha sabe como agir, o que fazer, como pensar ou até como se comportar!
E quando "Javi" (Pepe Lorente) - o seu colega no hospital que pacientemente espera ao seu lado na "sombra"- a olha com afecto e atenção - aquela que possivelmente julga não merecer - "Fran" tenta com alguma resistência afastar-se percebendo que será este potencial elo de ligação a outra pessoa que lhe dará uma nova perspectiva sobre a (sua) vida para a qual ela não se sente preparada. De olhar apagado, talvez sem qualquer tipo de esperança no (seu) futuro - que tão pouco conhece - que o espectador percebe que "Fran" é uma mulher que se apagou, que se anulou e esqueceu a sua existência, entregando-se exclusivamente a uma existência com os dias contados que, no entanto, ela recusa perceber. Ela é um fantasma de uma vida que desconhece. Vagueia pelo meio dos demais e poucos conseguem perceber que ela lá está. Poucos também ousam olhar pois percebem que aquela mulher fez questão de se anular e é este o cenário que lhe é permitido ter sendo que "Fran" apenas se afirma na sua própria anulação.
A química entre "Fran" e "Javi" é notada desde o primeiro instante pelo espectador e entre estas duas personagens percebemos que estamos perante a génese de uma eventual relação que, confirmando-se ou não, será aquela que a trará de volta à vida que é suposto ter - e da qual se esquecera. Ambos são capazes de se olhar nos olhos e nesses breves instantes - os suficientes - percebemos que ainda existe "algo" em "Fran". Em todo este tempo que a acompanhamos, é apenas na interacção com "Javi" que temos a primeira grande manifestação dos seus sentimentos, a primeira vez que chora e a primeira vez que sorri. No fundo, é nesta dinâmica que finalmente percebemos que ela está pela primeira vez a viver.
Soy tan Feliz chega ao espectador quase de forma soturna graças a uma exímia direcção de fotografia de Miguel Ángel Mora que nos apresenta um tempo tão (pouco) claro quanto aquele que o pensamento de "Fran" vive. Passamos pelas sombras, pelos silêncios, pela escuridão e por todo um espaço que se encontra para lá daquele que seria suposto uma jovem mulher viver. Repleto de melancolia - um aplauso à música original de Cirilo Fernández - Soy tan Feliz estabelece um apelo à compreensão de que podem existir obrigações ou deveres maiores mas que, ao mesmo tempo, nenhum deles pode ser a fronteira ou o limite para perceber que cada um de nós - para lá deles - também existe. Que tudo é uma passagem, um momento - breve - que rapidamente nos escapa sem que nos deixe a noção do que será a vida ou viver e que se não conseguirmos abrir rapidamente os olhos todas essas experiências e momentos nos escapam ao ponto de não reconhecermos aquela pessoa que surge quando nos olhamos no espelho.
Genial a direcção e o argumento de Juan Gautier pela sensibilidade com que apresenta a história de uma mulher (desta mulher) soberbamente interpretado por uma grande Olaya Martín naquela que é uma das mais fortes e inteligentes curtas-metragens dos últimos anos.
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10 / 10
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