sábado, 30 de maio de 2015

Crime (2015)

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Crime de Rui Filipe Torres é uma longa-metragem portuguesa de ficção e a mais recente a encontrar estreia comercial que tem gerado alguma curiosidade por ser livremente inspirada - não oficialmente - no mediático homicídio de um cronista social português que, para efeitos preventivos, o nome será aqui omitido mas com o qual todos estão devidamente familiarizados.
António (João d'Ávila) e Rodrigo (Ruben Garcia) são um casal não assumido que se encontra num quarto de hotel. A horas de embarcarem para uma viagem que se espera mítica em Nova York, Rodrigo espera pela fama que não encontra em Portugal e António com um jovem namorado rendidos aos favores que este lhe proporciona. Mas, quando as tensões sentimentais e a diferença de idades se interpõem no caminho, a tragédia é apenas um detalhes que os espera ao virar da esquina.
Devido à atenção mediática que causou a morte do já mencionado cronista social que tantos amavam e tantos outros odiavam, Crime era aquele filme que inevitavelmente haveria de surgir no panorama cinematográfico português. Um caso real, presente e que ainda hoje é motivo de tantos comentários e opiniões seria motivo para, esperava qualquer um de nós, fosse levado ao grande ecrã para uma algo sumarenta história que iria continuar a dar uma oportunidade a cada espectador tecer as suas próprias conclusões e comentários sobre o caso. No entanto, a história acabou por se algo diferente...
Ao contrário do esperado, Crime não reacendeu a discussão sobre o caso mas, por sua vez, levou a que aqueles que foram ver o filme - contando comigo estava apenas mais uma pessoa na sala - discutissem a qualidade cinematográfica deste... trabalho. Se nos últimos anos temos vindo a assistir a uma qualidade inquestionável de obras cinematográficas que não só têm aproximado o público português do cinema falado na sua língua, não é menos verdade que aqui aqueles que tiverem a ousadia de entrar na sala de cinema têm apenas uma de duas oportunidades: a primeira é resistir e pensar que isto é um pequeno precalço no cinema nacional ou como segunda opção pensar que Crime é um dos mais sérios e graves atentados que qualquer profissional pode cometer na sua carreira. Dito isto, concentremos o espectador na primeira opção - o cinema português é bom e recomenda-se - e este comentário na segunda - estamos perante um atentado - e que se siga para bingo.
Crime falha nos mais variados momentos. E quando digo que falha não é apenas na sua execução mas sim em pequenos detalhes que nem o mais elementar dos jovens estudantes de cinema cometeria num dos seus trabalhos académicos. Esqueçamos aquelas pausas quase embaraçosas que um diálogo entre duas pessoas pode ter... aqueles momentos em que ao conversar com outra pessoa ficamos sem tema de conversa imediato para um diálogo construtivo e que podem - e são - normalmente incomodativos e embaraçosos. Temos desses aqui e não são poucos - quase telenoveleiros até - e o espectador fica naquela posição de "sigam que pode ser que isto melhore"... mas não melhora... Mas mesmo esquecidos estes momentos que quase dão para ir tomar um cafézinho e concentremo-nos naqueles falhas que não são admissíveis num filme... Passemos a eles...
Quando "Rodrigo" desatento aos caprichos do seu companheiro prefere estar numa qualquer rede social - evitemos os nomes também - a actualizar os seus pensamentos, verificamos que o seu perfil recebe actualizações de alguém chamado "Ruben"... ora... o nome do actor que interpreta a anteriormente referida personagem. Ninguém pede perfeição - claro que pede - mas existem pequenos grandes detalhes que arruínam a credibilidade de uma obra que se pretende artística e este é um deles... e quando algum desses detalhes escapa é bom que não se concentre a câmara em cima do mesmo durante muito tempo a ver se passa sem ninguém notar... é que permanecer a filmar um erro é inevitável que alguém vá eventualmente dar por ele.
O segundo erro fatal de Crime é a sua captação de som. Não só é lastimável para a compreensão de alguns diálogos onde o eco é uma constante, como também se torna inoportuno um ou dois segmentos ou assistimos a um conjunto de legendas em inglês - porque existem é algo que me ultrapassa (não me venham com a ideia da internacionalização pois isto não chega nem sequer a Badajoz) mas até ajudou no momento - sem escutar qualquer tipo de diálogo entre os dois actores.
Finalmente - pelo menos entre os mais significativos - o terceiro grande erro desta peça cinematográfica prende-se com os segmentos em WC - poderia estabelecer aqui uma relação mas não o irei fazer - onde "Rodrigo" se encontra e tem os seus momentos mais angustiantes e reflexivos. Fechado naquele espaço o espectador deveria centrar-se na tensão dramática que a personagem de Ruben Garcia atravessa mas, por sua vez, concentra-se sim mas nas sombras e vultos reflectidos nos mosaicos de parede onde assistimos às instruções para que o actor reproduza. Inadmissível por muito pouco pretencioso que se queira um filme...
Como se todos estes erros e detalhes não fossem suficientes para queimar a hipótese do espectador ter aqui um filme interessante e com o qual pudesse criar uma maior proximidade ou empatia para com os trágicos acontecimentos nos quais este filme (não) se baseia, eis que surge a pérola no meio da desgraça quando os vários momentos da narrativa são interrompidos por aquilo que se pretende ter com misteriosas captações da lua ora branca ora vermelha como que se aguardasse a próxima vinda de Satanás à Terra e tudo ao som de uma igualmente tensa e fantasmagórica música capaz de fazer inveja ao mais negro dos filmes. Por momentos, e considerando que estava praticamente só naquela sala de cinema, dei por mim a olhar para o lado pois pensei que, das duas uma, ou estava a ser filmado para os apanhados ou então estava presente um qualquer teste alucinogenio facultado aquando da compra do bilhete. Nenhum deles... estava mesmo a viver um momento The Omen meets Birdcage e tudo estava surreal demais para ser verdade.
E no momento em que se espera que nada possa ser pior... Pode. Durante a acção de Crime, "Rodrigo", a personagem interpretada por Ruben Garcia, decide sair daquele bolorento quarto de hotel e aproveitar a noite da cidade. Dirigindo-se a um bar "despovoado" encontra "Olga" (Marina Albuquerque) - cujo nome da personagem só conhecemos nos créditos finais - que habilmente brinca aos olhos de quem quiser ver com um enorme e prateado dildo que retira da sua mala. Ainda que este momento pudesse conter algum tipo de sensualidade para o filme pela forma como ela tenta seduzir "Rodrigo" - não sei bem onde ou como mas enfim... - tudo se tornou um dos mais hilariantes momentos desta peça - filme? - que se queria séria e intensa mas que impossibilita qualquer um de nós de não soltar uma mais ou menos ligeira gargalhada.
Dito isto, entre luas fantasmagóricas, dildos prateados, masturbação pós-homicídio, maus diálogos e o uso exacerbado das palavras "New York", Crime resume-se a muito pouco. Resume-se aos seus erros, às suas pretensões não-assumidas, à sua vontade de fazer algo diferente mas que se ficou pelas tentativas falhadas de se tornar sequer num filme - menos ainda um que seja interessante. Resume-se a uma história que se ficou pelas banalidades de uma qualquer revista cor-de-rosa onde todos tentam e querem ter opinião e uma razão mas que se esqueceu das pessoas por detrás da tragédia... a que morreu, a que matou e todas aquelas que poderias ter sido representadas como sofrendo as consequências de um acto bárbaro. Esqueceu ainda a perversão do acto concentrando-se numa qualquer disfunção eréctil que o mesmo parece ter despertado no homicida e que o leva a tentar satisfazer-se depois de ter morto. Crime é, acima de tudo, um momento parolo que teve como base um dos mais mediáticos e assustadores crimes de ódio que Portugal conheceu - mesmo que não tenha decorrido em terras nacionais - dos quais nada soube retirar e que não respeita a memória das vítimas... àquela que foi barbaramente assassinada e que aqui é retratado como um infeliz com sonhos grandes demais e a família de um homicida que é vetada à inexistência.
Acto bárbaro esse que aliás, se resume apenas e só à existência deste filme. Filme que tem nome mas não tem categoria e que usa o talento de três magníficos actores para um conjunto de banalidades e verborreia absurdamente desconexa não lhes entregando material para explorar e criar três personagens - que de ficção pouco tiveram - que lhes possibilitaria entrar nos fantasmas físicos e psicológicos que aqueles que existiram realmente possuíram.
Como uma última nota a Crime... são projectos destes que nos Estados Unidos ou outro mercado maior condenariam a carreira de três brilhantes actores ao insucesso e esquecimento... felizmente em Portugal a nossa memória é curta e Garcia, d'Ávila e Albuquerque são três actores grandes demais para que este filme os prejudique verdadeiramente... mas para bem da sanidade de todos nós desejo que esqueçam muito rapidamente este projecto e que alguém se lembre de lhes entregar personagens capazes e dignas do seu enorme talento porque por aqui... o material escasseia.
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