sexta-feira, 1 de maio de 2015

Uma Rapariga da sua Idade (2015)

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Uma Rapariga da sua Idade de Márcio Laranjeira é uma longa-metragem portuguesa de ficção - ou talvez não - presente na Competição Nacional de Longas do IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema Independente a decorrer em Lisboa e que termina no próximo Domingo.
Mariana (Mariana Sampaio) é uma rapariga que procura o seu lugar. Os tempos de uma loucura adolescente começam a passar e impõe-se uma certa "idade adulta" que tende a definir todo o seu futuro. Desde que saiu da sua Viana do Castelo natal rumo a Lisboa onde vivia com Alex (Alexander David) que se sente num limbo entre dois lugares que tanto lhe dizem; num a família e no outro os seus amigos. De volta a Viana do Castelo, Mariana tenta encontrar o seu (antigo) espaço e pensar no que fazer da sua agora jovem adulta vida enquanto que Alex chega com toda uma nova experiência ganha em Nova York.
No final Mariana questiona-se sobre não só qual será o seu lugar mas principalmente quem será ela numa altura em que todas as decisões parecem ter de ser tomadas!
A dupla Márcio Laranjeira e Mariana Sampaio são os autores de um argumento que consegue captar de forma sincera, emotiva e directa muitos dos anseios e expectativas de toda uma geração que se encontra agora nos 30's. Jovens aquando da entrada de Portugal na então Comunidade Económica Europeia e filhos daqueles que encontraram nesta "Europeização" o fruto de um sonho dourado que iria garantir uma superior qualidade de vida para os mesmos, Uma Rapariga da sua Idade reflecte assim sobre aquilo que os agora já não tão jovens trintões encontram neste Portugal do século XXI.
Se outrora a tal esperança - e sonho - de um futuro melhor garantia a todos uma vontade de trabalhar e lutar por um conjunto de ideias sem esquecer que a idade permitia uma certa loucura e sensação de que era a hora de disfrutar da vida, agora chegou o momento de perceber que nem tudo é fácil, que nem todos os sonhos podem ter uma resposta positiva ou, pior que isso, que a situação económica e social do país não permite a independência e construção de vida/família se tornem numa realidade. É esta incapacidade de tornar reais alguns desejos, na sua maioria até francamente básicos e inerentes ao processo de crescimento de todos nós, que transformam toda esta geração na qual eu próprio me incluo, em seres desprovidos de um rumo que se questionam sobre o que realmente fará sentido - se é que algo - sem saber que rumo seguir. No fundo, Uma Rapariga da sua Idade coloca o espectador num cruzamento onde os quatro caminhos são indefinidos e onde todos eles aparentam não ter qualquer tipo de respostas.
"Qual é o meu lugar?" é o pensamento que sentimos ecoar numa "Mariana" perdida não só no tempo - etário - como principalmente geográfico. "Mariana" saíra de Viana do Castelo onde nascera e crescera rumo a uma Lisboa onde se iria formar e potencialmente construir a sua vida. Os 20's passaram e deram lugar aos 30's e na incerteza de uma vida estabilizada - talvez um trabalho, uma relação ou quem sabe até um filho - encontra-se longe da idade das farras que percebe ainda caracterizarem alguns dos seus amigos mais próximos mas, ao mesmo tempo, apesar de se sentir amadurecida também não vê (ou sente) que socialmente esse factor esteja reflectido na sua vida. Agora em Lisboa, sem trabalho ou forma de subsistir, "Mariana" sente que tem de voltar à sua terra natal à qual já não sente pertencer. Percebe que tem de voltar a casa dos pais os quais não quer encarar pois permanece no seu subconsciente que, ao fazê-lo, está a assumir que falhou nas suas escolhas tomadas naquela idade das ambições e sonhos que agora não lhe são possíveis. No fundo este seu regresso mais não será do que a compreensão de que estes ficaram perdidos pelo caminho e que tem de optar por algo mais "real" que ela não consegue perceber o que será ou sequer se existe dados os tempos conturbados que o país mais ou menos silenciosamente atravessa.
O abandono de Lisboa - segmento sabiamente apelidado de Idade do Esquecimento -  com a noção de que falhou perante os seus sonhos e expectativas leva-a à recordação/conhecimento de uma lenda antiga - ao do rio Lethes - em que o exército romano de Brutus que o atravessasse imediatamente esquecia o seu passado... Conseguirá "Mariana" esquecer todas as suas passadas experiências ou, por sua vez, irá recordá-las de forma amarga como a não concretização do seu projecto de vida?
Já em Viana do Castelo - a Idade da Agonia como a materialização do seu "fracasso" - "Mariana" reencontra "Alex" que a visita vindo de Nova York com os seus próprios conceitos sobre a inércia de toda uma população que aparenta estar parada, sem objectivos e a viver um conjunto de lamentos sem acção. "Alex" não acredita neste país - que é também o seu - ou naqueles que por cá se encontram questionando as acções - ou falta delas - de todos. "Estão parados à espera de quê?" pergunta ele a certa altura, ao confirmar que tal como quando saíra de Portugal, todos assistem numa aparente tranquilidade ao definhar de um país que não reage à sua morte mais que anunciada. "Por vezes parece que estamos parados mas podemos estar a fazer coisas!" responde-lhe ela... Mas que coisas? Se todos estiverem com planos, ideias ou realmente a materializar "algo", porque não avança um país que precisa de ideias e de uma força motora? Porque não arrancam esses projectos? Tal como as pessoas imóveis nas paragens de autocarro a quem inicialmente o grupo de amigos atira limões, também eles ao fazê-lo estão vazios de projectos para além dos mais básicos e elementares... Ter um trabalho, muito possivelmente mal remunerado, desprovido de projectos e ideias mas que, no entanto, possibilita o pagamento das contas mensais que se acumulam e para os quais se vive de forma quase "escrava" para não perder o tal "nada" que orgulhosamente todos mantêm.
Se inicialmente temos uma sua - de "Alex" - aversão à passividade lusitana e à forma como as pessoas parecem - segundo ele - não querer assumir responsabilidades, não é menos verdade que aos poucos e à medida que a festa se avizinha, é ele o primeiro a denotar comportamentos mais infantilizados e tão típicos daquilo que o próprio condena enquanto que "Mariana", por sua vez, continua a evidenciar um comportamento perdido não só no tempo como no espaço. Ela é, desde o primeiro instante, alguém que se encontra num limbo sem saber se deve dar um passo em frente ou outro para trás.
Sem objectivos, seguranças ou certezas, "Mariana" torna-se cada vez mais melancólica, emotiva e insegura. Percebemos que ela procura em "Alex" o conforto que não tem face à sua vida mas, ao mesmo tempo, também compreendemos que não o irá obter. Numa época em que o que fora conquistado se perde e aquilo que se avizinha não confere esperança, "Mariana" torna-se no rosto de toda uma geração perdida, insatisfeita, insegura e de certa forma humilhada pelo esforço não recompensado do trabalho de toda uma vida que em tempos havia sido dito "ir ser recompensado".
Os lugares mudam com o nosso afastamento dos mesmos. Apesar de ser o mesmo, o quarto onde passámos a nossa adolescência ganha outras cores e dimensões no dia em que lá temos - por obrigação - de regressar. As pequenas recordações que lá deixámos espelham agora sinais de uma mente sonhadora e perdida em desejos que percebemos agora serem devaneios de alguém que não percebia o mundo em que vivia. As ruas que conhecemos desde criança e que pareciam labirintos onde nos poderíamos perder são agora espaços pequenos demais para andar mas, ao mesmo tempo, sabemos que deles não podemos sair. A aceitação de um pequeno mundo que agora temos como nosso quando o demais está para lá daquele "rio" é uma miragem que diariamente tortura pois é a confrontação diária daquilo que não podemos cumprir. A (in)dependência é agora uma impossibilidade e uma certeza... A certeza que que o desejo não se pode concretizar e que a limitação é a única condição garantida. O medo de ser esquecido todo um percurso por agora se encontrar no outro lado do rio sente-se, vive-se e para lá de uma experiência é uma certeza.
Uma Rapariga da sua Idade é assim o retrato não só de "Mariana" mas de toda uma geração perdida, com objectivos que são difíceis ou impossíveis de concretizar. Uma geração que corre o risco de ser apagada, esquecida, obliterada. Uma geração limitada pela crise social, económica, cultural e principalmente de valores, de ideais e de ideias. Uma geração que não tendo futuro, o espera... Espera por não esquecer... Espera pelos seus sonhos e principalmente espera por si e pela sua afirmação.
"Alex" parte... "Mariana" não regressa. Ambos estão em lados opostos de um mesmo rio. Ele com vontade de seguir viagem... ela com vontade de a fazer no seu próprio espaço (independente) mas no seu território (Portugal).
Como o filme espelho de uma geração presente, Uma Rapariga da sua Idade é uma sentida e também ela emotiva visão conturbada da consciência da realidade que já bem perto do final nos mostra uma "Mariana" determinada em seguir o seu caminho mas, ao mesmo tempo, a adquirir a plena consciencialização de que não está no seu lugar mas que, ao mesmo tempo, também não faz qualquer ideia de que lugar seja esse.
Mariana Sampaio, actriz e argumentista de Uma Rapariga da sua Idade, é uma alma grande estabelecendo uma imediata relação empática com o espectador que a sente bem como aos seus desabafos. Ainda que estes não sejam coordenados fluentemente, qualquer um de nós que se encontra nesta geração perdida sabe e percebe todas as suas pequenas grandes incertezas. Sabe que aquilo que ela procura é o mesmo que todos nós procuramos... o nosso espaço, o nosso caminho, os nossos objectos e a nossa independência e capacidade de decidir acarretando com as próprias consequências. É esta relação imediata que Sampaio estabelece com o espectador que a faz ser (ter) um pouco de todos nós. As suas preocupações, medos, incertezas, expectativas, dependências, emotividade e emoção são o espelho fiel de um pouco de todos nós e, como tal, garantem-lhe uma das mais cruas, sentidas e honestas interpretações dos últimos anos. Ali, ainda que com o devido trabalho enquanto profissional e actriz, Sampaio reflecte as ansiedades e medos de toda uma geração mesmo aquelas que estão por dizer como, por exemplo, a maternidade/paternidade sentidos muito concretamente no momento em que a química com Alexander David está mais presente como é o caso do momento em que assistem ao fogo-de-artifício nas Festas da Nossa Senhora da Agonia. Percebemos que ambos sentem algo forte um pelo outro mas, ao mesmo tempo, também percebemos que a sua concretização será impossível pelas inevitáveis diferenças de percurso que têm de tomar.
Não sei que percurso terá Uma Rapariga da sua Idade a nível comercial. Infelizmente deve ser um filme que por Portugal continuará a ser "esquecido" por um mercado que tenta esconder as realidades de uma geração em vez de as colocar a descoberto e ao alcance de todos dando preferência ao mais recente blockbuster desprovido de significado e sentido mas que facilmente esgota bilheteiras... No entanto, aquilo que sei é que Márcio Laranjeira - produtor, realizador e argumentista - entrega nesta sua primeira longa-metragem uma das mais honestas, sentidas e emotivas obras do cinema português capaz de expôr(-se) bem como às inseguranças desta geração talvez perdida mas que enquanto assim fôr "filmada" não será esquecida.
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"Mariana: Ficamos para lá daquilo que aguentamos."
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