quinta-feira, 21 de maio de 2015

Flexibility (2014)

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Flexibility de Remedios Crespo é uma curta-metragem de ficção espanhola e curiosamente um dos mais intensos filmes que visionei nos últimos tempos e que tão bem se adequa aos nossos dias presentes e futuros...
Europa 2017. Quando os trabalhadores de uma fábrica são reunidos de emergência para a salvar do seu encerramento, as diferenças entre estes e os seus donos não são aquelas que esperaríamos à partida. Quando o mundo parece demasiado esgotante, aquilo que nos separa não parece ser assim tanto...
A curta-metragem Flexibility da realizadora e argumentista Remedios Crespo não poderia chegar em altura mais oportuna quando tece um intenso e mordaz retrato de uma Europa sufocada por cortes orçamentais e austeridade que justificam uma desenfreada correria a uma desumanização sem precedentes e que são aqui embelezados com uma gélida ironia. Nesta fábrica e neste futuro distante - talvez não tão distante - encontramo-nos tal como hoje... em crise. Uma crise que parece não abrandar e que nos transformou - aos Europeus - em seres mecânicos que apenas defendem uma ilusória ideia de que ainda são "humanos". Esta humanidade há muito que desapareceu e aos poucos e atrás dos sucessivos cortes, a tal Europa que outrora fora de valores maiores e solidariedade é agora substituída por um novo rosto que apela a um diferente tipo de sobrevivência. Se em tempos trabalho significava independência e liberdade, é nesta Europa um sinal de austeridade, cortes relativamente ao seu capital humano e, por consequência, um corte nos pagamentos daqueles que conseguem resistir.
Mas não é tudo. Em Flexibility o espectador encontra o lado mais desumano e perverso da Humanidade quando assiste a um sem fim de cedências de direitos que apenas garantem o trabalho mas nenhum tipo de pagamento ou sobrevivência para lá das quatro paredes daquela fábrica. Não é que os lucros da mesma tenham deixado de existir... eles mantêm-se. No entanto, como reduzem face aos tempos conturbados que aparentemente existem "lá fora", estes são encarados como prejuízos que apenas podem ser colmatados através de uma de duas soluções... A primeira e mais prática será com despedimentos massivos que garantam alguma "sobrevivência"... A segunda hipótese prende-se com a manutenção de todos os trabalhadores mas, se possível, sem salário. Afinal, não é tão confortante, digno e bom ter trabalho?! Nem que seja a qualquer custo...
E é quando o espectador pensa que a tortura psicológica terminou que percebe que para lá dos cortes - humanos ou salariais - que chega ainda a premissa de que todos os funcionários devem ser multifacetados e sair das suas zonas de conforto obtendo conhecimentos e profissionalização em mais do que uma máquina para poderem estar em vários sítios ao mesmo tempo... A fábrica é agora um animal grande e poderoso demais para ignorar e todos têm de lhe dedicar atenção absoluta... mesmo em seu próprio prejuízo. Que reine a flexibilidade...
Cansados e sem força para reclamarem os seus direitos, Flexibility torna-se então num retrato futurista - e não só - dos novos e orgulhosos escravos... Contentes com um trabalho desumano - ou sub-humano - que lhes permite apenas e só isso... trabalhar...
Lacaios de um poder económico que os amordaçou à sua vontade de sobrevivência, o Homem percebe que está preso a um caminho do qual jamais conseguirá fugir e lentamente, sem que disso dê conta, vive numa prisão que pensa lhe conferir regalias - inexistentes - vivendo num sonho de olhos abertos sobre a possibilidade do que pode vir a obter mas que, no entanto, nunca irá chegar.
Se pensarmos, não estamos tão longe desta "realidade". Foi dito que o trabalho confere dignidade e liberdade pela possibilidade de expandir horizontes que o salário obtido lhe confere. No entanto, aos poucos toda a sociedade moderna vive presa com a ilusão de que é bom trabalhar independentemente daquilo que ganhe... Primeiro um pouco menos... depois mais um imposto... finalmente mais uma taxa. Quando percebe, o homem moderno trabalha apenas com a vã esperança de conseguir pagar as suas contas ao final do mês perpetuando o ciclo dos grandes interesses económicos que não permitem mais do que a subsistência mais básica do Homem. Animais pensantes anestesiados que aos poucos se privaram de tudo... dos seus Direitos e inclusive da sua própria Liberdade.
Igualmente intensa a direcção de fotografia de Juan Gonzalez que confere a todo o espaço em que "nos" encontramos a atmosfera cinzenta, mortiça e apagada que se espera de um espaço sem esperança e morto nos seus ideiais.
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9 / 10
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