domingo, 10 de maio de 2015

Timbuktu (2014)

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Timbuktu de Abderrahmane Sissako é uma longa-metragem franco-mauritana vencedora do César de Melhor Filme do Ano pela Academia Francesa de Cinema bem como um dos cinco nomeados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro pela Mauritânia.
Kidane (Ibrahim Ahmed), um criador de gado vive nas dunas perto de Timbuktu com a sua mulher Satima (Toulou Kiki), Toya (Layla Walet Mohamed), a sua filha e ainda Issan (Mehdi Ag Mohamed), o pastor de doze anos que trata dos seus animais.
Quando os jihadistas chegam à cidade alterando radicalmente os hábitos e costumes da população, a tragédia cai sobre a família de Kidane transformando assim radicalmente os seus destinos.
Esta surpreendente e algo inesperada obra cinematográfica franco-mauritana destacou-se desde cedo aquando da sua nomeação à Palma de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Cannes por apresentar uma obra que relata de forma descontraída e por vezes cómico-absurda um assunto sério e que se encontra cada vez mais na ordem do dia no momento em que vivemos.
Sissako e Kessen Tall escrevem um argumento que narra a inicialmente descontraída existência de uma família - e de toda uma comunidade - multicultural que se vêem ameaçadas com a chegada de fundamentalistas islâmicos transformando-se numa sociedade oprimida e que vive no receio e no medo de que os seus hábitos sejam agora considerados como "perigosos perante a lei". Se por momentos consideramos absurdas muitas das imposições que são colocadas na cidade como, por exemplo, proibir a música, cigarros, jogos de futebol ou até mesmo o riso impondo que as mulheres em locais de comércio tenham todo o seu corpo coberto - mãos incluídas - ao mesmo tempo que os novos "fazedores de leis" entrem pelas mesquitas armados e calçados, rapidamente percebemos que esta nova forma de ditadura que se impõe pela força e pelo medo castra de forma silenciosa e extremamente rápida a sua presença controlando os destinos - ou falta deles - de todos aqueles que estão sob o seu jugo.
Outro elemento muito curioso em Timbuktu é a determinante presença da mulher enquanto ser social fundamental na comunidade pois é ela que para lá de comandar os destinos da casa, controla também os destinos comerciais de muitas tarefas e profissões e aquela que é desde o primeiro instante, levada a ser rebaixada na sua posição desautorizando toda a sua iniciativa e claro, toda a sua presença. Meros vultos daquilo que foram em tempos sendo forçadas a esconderem-se em público de todos os olhares agora considerados indiscretos, todas resistem com dignidade aos castigos que lhes são impostos desde cobrirem o seu corpo até serem chicoteadas ou até mesmo apedrejadas em praça pública ao mesmo tempo que todas as sentenças - cada uma mais improvável e absurda que a anterior - proliferam nesta agora nova sociedade que chegou sem que fosse contestada por ninguém... ou pelo menos não o fora de forma expressiva.
Timbuktu deixa ainda ao espectador uma interessante reflexão sobre a chegada ao poder de uma ditadura... Inicialmente tida como não sendo preocupante ou como aquela que irá manter a paz e alguma lei, o que é certo é que aqui - uma vez mais - verificamos como ela se propaga de forma quase pacífica e sem grande oposição visto que os seus actores podem calmamente circular pelas ruas da cidade espalhando aquilo que são - para si - as normas a seguir mas que aos poucos e de forma castradora se assume com medidas de divisão e controlo agressivo sobre as vidas daqueles que agora dominam. Podemos verificá-lo não só nas já referidas "novas leis" impostas sobre a cidade como também pela forma como para lá de oprimirem a mulher a comandam sobre o seu futuro desprovendo-as, dessa forma, de livre arbítrio e pulso sobre as suas vidas agora tidas como insignificantes e cujo único propósito é servir aqueles que "temem a Alá" quando os próprios o desrespeitam a cada passo que dão.
Desta forma, Timbuktu afirma-se como uma peça exemplar sobre os tortuosos e loucos caminhos da ditadura, da opressão e da tensão social. Sobre o domínio e sobre o controlo arbitrário das vidas alheias que inicialmente faz o espectador sorrir pelo absurdo mas, ao mesmo tempo e sem que se tenha noção, consegue assustar pela facilidade com que vence sem ser questionado ou sem oposição que o derrube.
Um breve - mas determinante - apontamento positivo à música original - e também vencedora de um César - de Amin Bouhafa que para lá de melancólica consegue criar toda uma atmosfera cultural essencial para a dinâmica do espaço social e geográfico.
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8 / 10
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