domingo, 2 de agosto de 2015

Trainwreck (2015)

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Descarrilada de Judd Apatow é a mais recente longa-metragem do realizador de The 40 Year Old Virgin (2005) e Knocked Up (2007) voltando, uma vez mais, às dinâmicas de "casal improvável" que estão tão presentes nas suas obras anteriores.
Amy (Amy Schumer) foi influenciada desde criança pelo seu pai de que as relações vitalícias são um mito. Agora uma mulher comprometida apenas com o seu trabalho, Amy não tem qualquer tipo de relação que dure mais do que uma noite. No entanto, é no decorrer de uma entrevista para a revista em que trabalha que conhece Aaron (Bill Hader), médico de várias estrelas do desporto e por quem estranhamente se apaixona. Conseguirá Amy ultrapassar os sentimentos contraditórios que tem e pela primeira vez ter uma relação séria?
Enquanto espectador que tem como ponto de partida as já mencionadas obras de Apatow que foram verdadeiros exemplos de comédia descontraída e bem sucedida, Trainwreck era apenas uma boa desculpa para voltar ao cinema para mais um bom momento de disposição e algum humor. Não sendo - no final - um resultado que se possa comparar às mesmas, o argumento da autoria da própria Amy Schumer consegue captar alguma energia e momentos interessantes de comédia sendo que, no entanto, consegue suplantar-se nos pequenos segmentos em que se esquece a comédia e se dá lugar ao drama nomeadamente no pequeno momento de redenção entre "Amy" e "Allistair",o enteado da sua irmã, sendo apenas mediano na comédia que deveria ser o seu forte.
Contrariamente a The 40 Year Old Virgin ou a Knocked Up, aqui o casal protagonista é encabeçado pela personagem feminina que aparenta ter todo o argumento escrito à volta da mesma - talvez fruto da entrega da personagem feminina à própria argumentista - esquecendo o facto de que deveriam ambos brilhar e ser centrais na trama e apesar de existir alguma química entre ambos não é menos verdade que esta apenas parece resultar a 100% no segmento final de Trainwreck que consegue ser verdadeiramente delicioso. Amy Schumer, inspirada e com um desempenho que poderia ser um dos mais significativo do ano em comédia, acaba por ser uma versão apagada num filme que não funcionaria se não fossem as demais personagens que funcionam à sua volta e pelo elenco francamente mediático que dele faz parte onde se encontram nomes como o de Tilda Swinton, Ezra Miller, Brie Larson ou até John Cena com uma personagem que poderá estar nos antípodas dos "militares brutos" que povoam o seu curriculum artístico.
Dito isto aquilo que temos em Trainwreck é a "Amy" de Amy Schumer como uma mulher distanciada de uma vida cúmplice a dois - ou até mesmo no seio da sua família - e que influenciada por um negativismo que herdou dos tempos mais jovens do seu pai se entrega num sem fim de relações distantes e impessoais meramente baseadas em sexo e sem qualquer tipo de simpatia, empatia ou química usando e abusando daqueles com quem se cruza... mesmo aqueles que poderiam eventualmente ter representado "algo mais" na sua vida.
No entanto, se formos analisar as demais personagens de Trainwreck, não é "Amy" a única emocionalmente descontrolada que iremos encontrar. Da desinteressada com a "little people", "Dianna" de Tilda Swinton ao alpinista social e sexualmente devasso adolescente "Donald" de Ezra Miller ao homossexual escondido "Steven" de John Cena, Trainwreck não é necessariamente uma apologia à vida descontrolada de "Amy" mas sim a todas estas vidas que na prática não conseguiram ainda encontrar o seu lugar certo e que por repressão, desinteresse ou até mesmo incapacidade, vivem vidas desinteressantes, desinteressadas e aborrecidas passando todo o tempo a achar que são o centro do (seu) universo. Na falta de algo melhor pela sua incapacidade de o terem... para quê preocuparem-se com "algo mais"?
No final - e depois de analisada a mensagem transmitida - aquilo que Trainwreck tenta representar é todo aquele conjunto de pessoas que deambulam pelas ruas com os seus mais variados problemas de partilha de intimidade, de incapacidade de manterem uma relação ou simplesmente medo de se entregarem a alguém sob o risco de saírem magoadas... No fundo todos "nós" que pelo meio das suas inadaptações e receios passam pela vida muitas vezes sem sentir e sem perceberem que nesta breve "passagem" se calhar nunca chegaram a viver. Mas Trainwreck também deixa passar que o principal desta "mensagem" está lá mas em bruto sem nunca ter permitido ser explorada e, de certa forma, sem ter conseguido criar a tal ligação com o espectador que percebe que poderia ter sido muito mais. De forma mais simpática, e ainda que seja um filme que tem os seus momentos, Trainwreck também descarrilou.
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6 / 10
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