quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Tu (2015)

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Tu de Luciano Sazo - também o autor do argumento - é uma curta-metragem portuguesa de ficção que nos apresenta uma mulher (Liliana Leite) naquele que parecia ser um dia como tantos outros... e era.
Ela acorda e faz a sua rotina matinal que, no entanto, está longe de ser apenas vestir-se e ir beber o seu café. O seu dia começa quando vê aquele homem (Luís Eusébio) que ama loucamente. Será que ele também a ama?
Solitária e aparentemente reservada, "Ela" é uma mulher que vê - literalmente - o mundo pela janela. Observa quem passa e aqueles que captam a sua atenção são imediatamente alvo de um jogo a "dois" sem que esse outro interveniente perceba que faz parte da trama. Presa às suas noções de interacção e à vontade que tem de estar perto de alguém, "Ela" parece desconhecer outro tipo de relação que não aquela que ocasionalmente estabelece com a troca de duas ou três palavras.
O argumento de Luciano Sazo parece prender o espectador à noção de que há relações complicadas demais para serem estabelecidas e, como tal, porque não imaginá-las na medida em que tudo acontece... apenas não é concretizado de facto. Quando um "olá" ganha contornos de atracção e um "como estás?" a confirmação de um desejo, Tu parece levar o espectador para uma personagem cuja mente não teve a interacção suficiente com o exterior para perceber que alguns contactos são meramente superficiais e de ocasião. No entanto, é quando continuamos a acompanhar esta mulher - num interessante e algo neurótico registo que a actriz Liliana Leite confere à sua personagem - que percebemos que para ela vários são os focos da sua atenção.
O espectador poderia inicialmente pensar que esta mulher teria sido magoada ou desiludida sentimentalmente mas esta teoria esbate-se quando a vemos imaginar a "primeira vez" que conversou com a tal pessoa com mais do que um homem. Para lá de um difícil (re)começar, aquilo que Tu nos revela é que no silêncio de uma sombra ou resguardada por uma qualquer janela existe uma mulher que fixamente observa aqueles que a sua mente imagina como alguém com quem estabeleceu interacção e com os quais existiu uma empatia que os leva a serem "o tal".
Assim, e num domínio que nos escapa enquanto ocasional mas sim o fruto de uma mente perturbada, aquilo que esta mulher representa não é tanto uma mente magoada mas sim a de alguém que se perdeu algures no tempo e que apenas a sua imaginação a faz crer que todos aqueles homens - sim, o espectador deduz automaticamente que podem ser mais do que dois - são seus eventuais amigos ou até mesmo alguém com quem pode estabelecer uma relação amorosa e sentimental.
Sem nunca confirmar qual o seu destino, "tu" pode ser qualquer um com quem tenha trocado um comentário banal - como a simples troca de um isqueiro - e que para ela por uma eventual desistência de se fixar em alguém se fixa, por sua vez, em todos aqueles que se atravessam o seu caminho. De desespero sentimental a um potencial distúrbio psicológico, esta mulher senta-se no limbo deixando o espectador numa sempre presente dúvida.
A dar continuidade a um conjunto de obras nas quais salienta a destreza das relações humanas, Luciano Sazo destaca-se uma vez mais pela forma complexa com que aborda não só o momento como a condição em que no mesmo se situa o "Homem". Quais as suas condições ambientais, sociais e até mesmo económicas destacando, no entanto, toda uma complexidade narrativa que não especifica nem o passado ou tão pouco o futuro deixando apenas o presente como a certeza que abre vários potenciais caminhos.
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7 / 10
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