domingo, 20 de abril de 2014

Bílis Negra (2013)

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Bílis Negra de Nuno Sá Pessoa é uma das curtas-metragens portuguesas que foram seleccionadas para o Prémio YORN - Melhor Curta-Metragem Portuguesa de Terror da última edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa e que agora foi também apresentada em competição no Shortcutz Xpress Viseu.
Numa morgue dois ladrões (Tobias Monteiro e Paulo Duarte Ribeiro) surpreendem um médico legista vestido de mulher (João Craveiro) com alucinações sobre a fama e aquilo que pode fazer para a alcançar.
Se por um lado os seus desejos parecem longe de se conseguirem concretizar, não é menos verdade que uma súbita alteração dos acontecimentos vai proporcionar um curioso desfecho.
A adaptação que João Craveiro faz da peça de Uarlen Becker não poderia estar mais na ordem do dia quando assistimos diariamente a comportamentos que nos levam a pensar naquilo a que alguns estão dispostos a fazer para poder encontrar o seu lugar no estrelato. Aqui somos levados a crer que apenas aquele excêntrico médico pretende o seu lugar junto às "estrelas" mas, na realidade, até os próprios ladrões o pretendiam ainda que não estejam dispostos a revelá-lo. Senão vejamos, esta dupla de ladrões, em nome de um desfile de moda de vanguarda cujos modelos seriam cadáveres, estariam dispostos a profanar os corpos para poder mediatizar o seu evento... no entanto, é com os delírios e excentricidades de um médico que aparenta estar farto da vida desinteressante que leva que se espantam e questionam as suas intenções e alucinações.
Este argumento, não só é um mordaz retrato dos dias em que vivemos onde tantos estão dispostos a tudo pelos tais quinze minutos de fama em que a televisão os coloca no centro do mundo, como também o consegue fazer de forma irónica e com uma também ela alucinante comédia que nos prova que nós, os espectadores, estamos dispostos a perder alguma humanidade para verificar até que ponto todos chegam para saciar a nossa própria curiosidade mórbida. Seria tão mais fácil, mas igualmente desinteressante, desligar a televisão quando "tudo acontece"...
Se a dupla Monteiro e Ribeiro nos entregam interpretações mordazes e negras como aqueles dispostos a um acto macabro em nome de um bom e mediático espectáculo, justiça tem de ser feita a João Craveiro que entrega uma alma, ainda que sem grandes valores ou pretensões humanas, à sua personagem como um médico que claramente perdeu o rumo há muito tempo mas que, ainda assim, espera o seu lugar e a sua redenção conquistada por um acidente e uma ironia do destino.
As personagens aqui criadas sob o olhar atento de Nuno Sá Pessoa remetem-me para aquele universo muito particular criado por Alex de la Iglésia onde, não sendo necessariamente vilãs, neles se transformam graças a um passado que não lhes foi generoso e que sempre lhes cobrou mais do que aquilo que lhes conseguiu providenciar, tornando-se assim todo o seu ambiente envolvente como um teste à sua própria alucinação e desejo de ser algo mais do que aquilo em que na realidade conseguiram ser.
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"Ladrão 1: Tu aceitavas ser fotografado nú?
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Ladrão 2: Eu até aceitava... em troca de algum dinheiro e umas participações numa telenovela..."
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8 / 10
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