sábado, 5 de abril de 2014

Bué Sabi (2013)

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Bué Sabi de Patrícia Vidal Delgado é uma curta-metragem portuguesa de ficção que esteve presente no terceiro dia da competição respectiva da quinta edição do FESTin - Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa a decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa, e decididamente uma das mais fortes de toda a competição.
Dara (Inês Worm-Tirone) de origem cigana, Isa (Sofia Furtado) filha de emigrantes cabo-verdianos e Carolina (Marisa Matos) vinda de um meio privilegiado, são três improváveis amigas aos olhares dos demais. Cada uma com a sua origem étnica e social, a possibilidade de serem amigas seria, à partida, impossível. No entanto é pelos pontos comuns e não pelas suas aparentes diferenças que as três se tornaram amigas e cúmplices e nem mesmo os trágicos eventos de uma noite de diversão conseguem colocar em risco a amizade que as une.
Patrícia Vidal Delgado além de realizar escreveu também o argumento de Bué Sabi que em crioulo significa algo como "porreiro", representativo de um estado de espírito tranquilo e protegido de preconceitos violentos e que se centra exactamente no facto de as amizades, as verdadeiras pelo menos, estarem imunes a qualquer estigma, complexo ou preconceito para com a raça, orientação ou proveniência dos intervenientes, centrando-se apenas nos bons momentos, nas empatias e nas semelhanças que os indivíduos encontram e que estão muito para além daquelas primeiras impressões que se podem estabelecer apenas a olhar para o "outro" que, tantas vezes e de tão superficiais serem, podem apenas concentrar-se nas diferenças óbvias.
É este mesmo elemento que torna Bué Sabi contagiante e envolvente fazendo com que qualquer espectador se torne num fã imediato. É algo natural e não lhe resistimos (não que se queira resistir), e o ritmo das imagens aliado às magníficas interpretações e aventuras do trio de actrizes faz com que simplesmente se queira mais daquilo que estamos a observar e que a dinâmicas entre elas se torne cada vez mais central.
No entanto, se por um lado estamos perante uma história que se centra no valor da verdadeira amizade e nas cumplicidades criadas entre "Dara", "Isa" e "Carolina", não é menos verdade que o meio envolve não se resume apenas à sua presença existindo para além delas toda uma dinâmica que não as encara como os mesmos olhos que elas próprias se vêem e que prenunciam que a desgraça e a fatalidade podem estar apenas a um passo de distância. Se para as três amigas a sua amizade mais não é do que natural pela boa disposição com que convivem assim como pela proximidade de gostos e empatias que formaram, existe todo um grupo extra que se divide entre aqueles que desejam a sua companhia e aqueles que as repudiam por serem fora do seu próprio "meio" ou grupo étnico. E é quanto "Carolina" se deixa envolver com o ex-namorada de outra rapariga que todos os problemas ameaçam vir à superfície e revelar que para alguns existem diferenças óbvias que são bem mais importantes do que os elementos que aproximam as pessoas.
No entanto Bué Sabi é muito mais do que um não tão simples relato étnico ou social. Se as diferentes etnias apenas se fazem notar já pelo final desta curta-metragem e as sociais serem quase invisíveis (apesar de presentes) na sua trama, não é menos verdade que estamos perante um filme que também revela a importância não só da amizade como também da sexualidade, da paixão, do amor e do sexo que desperta em todos os pré-adultos entre os quais se estabelecem as primeiras experiências sexuais/amorosas, também elas marcadas pela interculturalidade que deveria ser encarado por todos como um factor de inserção mas que devido às inúmeras auto-resistências é ainda visto por muitos como um elemento menos positivo.
Em Bué Sabi podemos ainda assistir à importância do passado, não tão explorado e que é talvez o elemento menos positivo desta curta-metragem pois priva o espectador de trava conhecimento com as origens e com os feitos deste trio de amigas, mas revela o suficiente para perceber que a sua amizade é também o fruto de experiências e de caminhos que se cruzaram que as levou ao momento em que se encontram. Seria excepcionalmente enriquecedor para este filme curto perceber de onde todas elas vieram e principalmente o que está por detrás de um passado menos claro e com contornos aparentemente problemáticos na vida de "Dara", naquela que é uma forte interpretação da jovem actriz Inês Worm-Tirone e que com uma maior exploração (sim, esta curta deveria ter sido uma longa-metragem), seria certamente considerada a grande interpretação feminina do ano.
Se a "Isa" e a "Carolina" de Sofia Furtado e Marisa Matos funcionam como uma espécie de "girls gone wild" mas com muito conteúdo e uma componente cómica acentuada, afinal vejamos como Furtado entrega uma componente light ao filme e Matos mostra ser a jovem adolescente que rompe barreiras étnicas querendo conhecer o que está para lá do seu mundo mas sempre de maneira divertida e descomplexada, é a "Dara" de Worm-Tirone que se assume como a interpretação dramática e com um passado à espera de ser explorado. É ela que se mostra mais reservada, menos disponível para as saídas entre amigas ou extravagâncias que a iriam colocar em evidência perante os demais e no próprio grupo, e até mais fechada quando um tal rapaz revela interesse nela enquanto pessoa e tudo isto, podemos adivinhar, fruto de uma experiência complicada que o seu passado esconde.
É apenas aqui que Bué Sabi "falha". Não pela excelente exploração dada às personagens na curta duração que este filme tem mas sim pelo potencial que as mesmas fazem notar e no que poderiam ter desenvolvido mas que, graças aos seus escassos vinte minutos, nunca chegamos a conhecer... e quanto o queria. Aliás, quanto o queriam aqueles que estavam presentes na sala que em voz baixa diziam "já terminou?!". Exactamente a minha posição quando vejo os créditos finais a correrem o ecrã e que me fazem sentir alguma indignação e incredulidade por não poder ter mais daquela maravilhosa experiência, não só pelos seus passados mas também pelo óbvio futuro que queria descobrir fruto daquele trágico acontecimento que certamente as irá marcar.
No final, e apenas como uma teoria que infelizmente a sociedade tende a deixar muito escassa, a etnia e a classe social de cada um não deveriam definir os comportamentos sociais e as amizades que se têm como naturais pela semelhança de gostos. No entanto, é a comunidade e muitas vezes alguns daqueles com quem de mais perto convivemos que tendem a assinalar que as diferenças, ainda que absurdas, existem e que são elas mesmas que definem qual o nosso "meio natural", ainda que de natural pouco ou nada tenham.
Depois desta curta-metragem, a qual assumo ser até ao momento uma das minhas preferidas, questiono-me sobre uma importante questão que apesar de ter uma resposta óbvia que tudo limita e não só o próprio cinema, que se prende com o facto do "porquê" deste filme não se ter transformado na longa-metragem que tanto merece?! Se a dita resposta óbvia é provavelmente a falta de dinheiro para que tal aconteça, só me resta questionar como existe dinheiro para filmes de tão pouco conteúdo e que rapidamente caem no esquecimento quando existem estas pequenas grandes pérolas que têm todo o potencial não só para serem filmes com sucesso junto da crítica como principalmente junto de um público nacional que, ao contrário do que se pretende vender, está sedento de bom cinema português com a qualidade fílmica, técnica e interpretativa que Bué Sabi tem.
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9 / 10
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