domingo, 13 de março de 2016

Le Tout Nouveau Testament (2015)

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Deus Existe e Vive em Bruxelas de Jaco van Dormael (Bélgica/França/Luxemburgo) é uma longa-metragem com argumento da autoria do realizador em parceria com Thomas Gunzig que apresenta a capital belga como um espaço deserto para preencher os caprichos de entretenimento e devaneios de Deus - o próprio - em satisfazer a sua maldade para com aqueles que "comanda".
Mas este Deus (Benoît Poelvoorde numa belíssima composição que é digna de figurar entre o melhor do ano) não vive só. Abandonado pelo filho JC - como é brevemente apresentado -, Deus vive com a mulher (Yolande Moreau) e a filha Ea ((Pili Groyne) que vive desesperadamente com a vontade de escapar e conhecer o mundo em primeiro mão... mas Deus precisa de ser castigado.
Gunzig e Van Dormael apresentam uma história repleta de imaginação e sátira que dão ao espectador uma interessante e sempre bem humorada perspectiva sobre o mundo de acordo com Deus... mas com a rebelião de uma filha que tudo tentará para contrariar a sua vontade. Vontade esta que passa, não pela compaixão com aqueles que criou à sua imagem, mas sim pela necessidade de os ver sofrer, perder, morrer e viver em tormento e assim garantir a eterna aliança com a tal entidade divina que, não conhecendo, sentem comandar as suas vidas e os seus destinos resignando-se pela forma como, na prática, tudo aparenta ir correndo mal.
Do Génesis ao novo Novo Testamento, Le Tout Nouveau Testament conquista o espectador logo a partir do momento em que este imagina toda a Humanidade controlada a partir de um comum apartamento no centro de Bruxelas (ring a bell?!) sendo, portanto, uma forma sarcástica de abalar a "fé" do Homem na tal entidade divina cuja forma todos desconhecem mas que, por um acaso do destino, uma rebelião bem engendrada que a todos (na Terra) permitia conhecer o dia da morte e uma fuga através da máquina de lavar - tudo se lava para começar melhor -, se vê forçada a conviver com o resultado da sua criação - a Humanidade -, e perceber que nem tudo corre tão bem (ou é assim tão bom) como as suas vis regras ousaram condenar aqueles que lutam por passar mais um dia com todas as adversidades com que deparam. Ridicularizando alguns dos lugares comuns desse dia-a-dia - tal como a pilha de pratos que apenas se parte depois de lavados ou a fatia de pão que cai sempre com a parte com doce para baixo -, esta longa-metragem de produção belga recicla o ideal de apóstolos humanizando-os através da potencial existência de mais uns quantos evangelizados por uma criança (mulher) e conferindo à nova entidade Deus(a) - agora também mulher -, a harmonização para um mundo melhor, mais tranquilo e onde todas as espécies possam finalmente viver em comunhão... mesmo que as suas uniões possam ser um pouco... in extremis (que o dia Catherine Deneuve e o seu par afectivo-sentimental...).
Num mundo dito normal onde todo o sofrimento parece ser a prática comum para uma (con)vivência diária por entre a Humanidade, o que aconteceria se essa existência pouco pacífica fosse finalmente ameaçada não só com a ideia do próprio fim - marcado por alguém que desconhecem - como também pela possibilidade de tudo poder ser feito porque, afinal, esse pode não estar tão próximo quanto se poderia imaginar?!
Dotado de alguma inteligência emocional e de uma simples mas humana - ou humanizadora - forma de encarar os defeitos (ou características?!) individuais, Le Tout Nouveau Testament revitaliza um por vezes perdido género de comédia que é inteligente, pertinente e assumidamente actual, conferindo-lhe a capacidade de fazer sor(rir), personagens comuns iguais a tantos de nós independentemente das suas especificidades e ainda fazer reflectir sobre este mundo no qual habitamos, revelando que não é nem tão perfeito nem tão imperfeito... afinal, ele é apenas um reflexo daqueles que nele vivem e nas experiências individuais conferidas por cada um de nós. Ele (mundo)... e talvez esse "Deus"... desconhecido, improvável, irascível mas também Humano... afinal, tudo o que por cá se passa foi, como é a seu tempo revelado, "criado à sua própria imagem"... com todo o pudor (ou falta dele) e com toda a intempestividade que a todos caracteriza mais não é do que uma criança crescida e com muito poder que decide jogar um perigoso jogo de personalidade... não será isto tão comum a tantos de nós que facilmente reconhecemos "por aí"?
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7 / 10
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