quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Présumé Coupable (2011)

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Presumível Culpado de Vincent Garenq, presente na selecção da Festa de Cinema Francês de Lisboa e um dos filmes nomeados aos Cesar na passada edição nas categorias de Actor e Argumento Adaptado, foi mais uma das muito agradáveis surpresas cinematográficas que o certame trouxe até à capital.
Este filme começa por nos dar uma abordagem ao quotidiano de Alain Marécaux (Philippe Torreton), como um aparentemente normal oficial de justiça, marido e pai de família. Acompanhamos alguma da sua rotina no seu local de trabalho até ao dia em que, enquanto toda a família dormia, são abordados pela polícia para a sua detenção, bem como a da sua mulher, sob acusações de envolvimento em abuso sexual de menores e numa rede de pedofilia.
Não fosse esta temática já por si só suficientemente complicada, quando sabemos que é também uma história verídica e bem recente na memória dos seus intervenientes mais directos visto que se passou na primeira década deste século, torna-se algo de assustador se pensarmos na profissão de Alain. No entanto, esta história verídica assume contornos francamente macabros quando somos realmente confrontados com a realidade... Alain Marécaux estava desde o início... inocente.
Enquanto estamos a assistir a este filme começamos a sentir um natural desconforto pelas imagens que presenciamos. Não, não existe nada que possa remeter para algum tipo de violência sexual mas, no entanto, os acontecimentos são francamente macabros para podermos sequer começar a pensar nessa parte da história. A violência aqui existe sim, mas através dos que operam no sistema judicial sobre aqueles que nessa mesma rede são involuntariamente apanhados e dela não conseguem escapar. A violência aqui parte daqueles com quem nos cruzámos diariamente no local de trabalho, dos familiares, dos agentes da autoridade ou dos agentes judiciais que sem qualquer vontade de investigação e fazer prova sentenciam a uma das maiores barbaridades possíveis um conjunto de indivíduos que são acusados de um crime que nunca haviam cometido e por esse motivo todos os seus limites de resistência física e psicológica são ultrapassados.
Do argumento, escrito por Garenq com base nas memórias autobiográficas de Marécaux sobre aquele período, pouco poderei dizer face à brutalidade dos próprios acontecimentos e de toda a provação pela qual este homem passou. Não basta o facto de ter sido acusado de um crime que não cometeu mas principalmente todas as consequências que daí chegaram começando pela separação da sua família e as alterações de comportamento que isso fez reflectir na educação e formação dos seus filhos, bem como à separação da sua mulher e a perda de toda a dignidade que provocou na sua imagem enquanto cidadão. As provações pelas quais passou, que só o próprio saberá, são aqui retratadas com uma fidelidade que nos fazem criar um nó no estômago de tão incomodativas serem. A revolta interior que nos cria é presente do início ao final e Philippe Torreton consegue recriá-la na perfeição com uma interpretação forte, humana, desprendida de clichés que, apesar de quase sempre silenciosa e emotiva, não deixa de nos transmitir uma profunda dor e sentimento de revolta a injustiça que esperamos poder terminar a qualquer momento.
E se há filmes com uma alma, pelo menos aqueles que acabam por ser significativos na nossa formação enquanto seres cinéfilos, este é um deles. Não só pelo seu retrato das injustiças sociais, judiciais e de certa forma também políticas, mas principalmente pelo magnífico trabalho interpretativo de Torreton, actor que assumo era um desconhecido para mim, mas que dota o seu Alain Marécaux de uma humanidade transcendente. Através da sua genial interpretação um homem que está encurralado. Sem família, acusado de um crime hediondo por uma denúncia infundada, pressionado pelos agentes policiais e judiciários a confessar algo que sabe nunca ter cometido e a assistir em primeira mão à morte de familiares, e principalmente à sua própria degradação enquanto ser humano... tudo por uma difamação não comprovada e que ninguém sequer quer investigar.
Philippe Torreton nao venceu o Cesar e possivelmente este filme passe um pouco despercebido num ano repleto de interpretações dotadas de uma grande humanidade e coração mas não deixa de ser verdade que este é uma daquelas que qualquer um guardará eternamente pela sua composição extrema e magistral.
Não me canso de o dizer, até porque se torna quase repetitivo nas observações que já fiz sobre outros filmes mas é justo continuar a referir que esta edição da Festa do Cinema Francês de Lisboa trouxe um conjunto bem interessante de filmes que não só são belíssimos dramas como são acima de tudo fiéis retratos de uma sociedade que se encontra muitas vezes sem valores e, como tal, sem qualquer rumo ou direcção e que nos deveriam fazer reflectir sobre o lugar que ocupamos nela. Correndo assim o risco de me repetir uma vez mais... imperdível.
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9 / 10
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