sábado, 23 de março de 2013

A.C.A.B.: All Cops Are Bastards (2012)

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A.C.A.B.: All Cops Are Bastards de Stefano Sollima, que aqui assina a sua primeira longa-metragem além do argumento em parceria com Daniele Cesarano, Barbara Petronio e Leonardo Valenti, e que se baseia na obra homónima da autoria de Carlo Bonini, foi o filme escolhido para dar início à secção competitiva da 6ª edição da Festa de Cinema Italiano de Lisboa.
ACAB, que numa tradução literal seria algo como "todos os polícias são cabrões", num revivalismo do slogan skinhead inglês dos anos setenta do século passado importado para a actualidade como uma clara referência à guerrilha nas cidades, nas estradas e nos estádios, é uma história baseada em factos reais sobre as vivências profissionais e pessoais de um conjunto de polícias de intervenção.
Cobra (Pierfrancesco Favino), Negro (Filippo Nigro) e Mazinga (Marco Giallini) são os veteranos líderes de um grupo de polícias de intervenção que para além de parceiros se consideram como irmãos, apoiando-se e defendendo-se tanto na profissão como nas suas respectivas vidas pessoais e vivem em ambas as realidades uma constante violência não conseguindo distanciar-se dos problemas que vivem diariamente da sua vida pessoal que sai invariavelmente afectada quebrando todo o tipo de laços afectivos e sentimentais que podem ser criados.
É a este universo que chega Adriano (Domenico Diele), um jovem recruta que se junta à polícia de intervenção como forma de obter mais algum rendimento para compensar as perdas económicas que a família tem sentido, e assim possibilitar um mais confortável nível de vida. Numa sociedade que se encontra à beira da ruptura e onde a violência e a agressão são as palavras de ordem, este jovem idealista e defensor das regras, da ordem e da lei encontra-se num caminho ambíguo e onde terá urgentemente de escolher qual o rumo a seguir. Se aquele pelo qual os seus valores e ideais apontam ou se outro onde irá defender a sua nova "família" independentemente daquilo que a sua consciência ditar.
Tendo como pano de fundo alguns dos acontecimentos mais marcantes da vida social italiana dos últimos anos, passando pela cimeira do G8 em Génova até à morte de Gabriele Sandri (a quem o filme é aliás dedicado) um adepto da Lazio, este filme ultrapassa a "simples" vivência deste conjunto de homens. Além de se manter como um relato da sua difícil profissão, o aspecto mais brilhante deste argumento é enquadrar a vida destes homens junto de uma sociedade que está moralmente desgastada, oca e vazia de qualquer tipo de referências. Se po rum lado temos estes homens que arriscam diariamente a vida num variado conjunto de situações que passam pela violência em estádios de futebol junto das claques enraivecidas, ou até mesmo junto de manifestantes que podem agredi-los, não deixa também de ser verdade que, muitos deles, estão já também programados para uma excessiva violência "vítimas" daquilo que a própria sociedade lhes imputou.
Não que sirva como total justificação, pelo contrário explica os "porquês" mas não os valida com isso, percebemos que muitos destes homens vivem num país que os encara como a força bruta lançada para as trincheiras quando as situações se complicam mas, em contrapartida, em vez de os valorizar essa mesma lei que se serve deles, acaba por lhes retirar muito daquilo que é seu património (imóvel, familiar (...)) não reconhecendo que a sua vida está diariamente posta em risco e que esse nunca lhes é reconhecido. É aqui que entram em jogo as suas frustrações pessoais... famílias desfeitas, bens que nunca chegam mas são atribuídos a estrangeiros que vilanizam toda uma sociedade "justificando" assim a inserção de muitos junto de grupos extremistas de direita que já por si são adeptos de uma violência radical quase desumana, num ciclo bola-de-neve que parece não ter fim.
Favino, Nigro e Giallini são magníficos enquanto personificação de uma velha guarda fechada em torno de si mesma e adepta de ideais extremistas pró-fascistas onde geralmente tudo o que é novo está impossibilitado de entrar, não sendo nunca questionados e com a sua própria noção de lei. Quase a funcionarem como um so, Favino encarna a força pensante, aquele que coordena os acontecimentos e que age por impulso mas com certezas. Nigro é exímio como o homem impulsivo que apenas se deixa prender às suas próprias certezas, mas que quando as perde se vê imediatamente desamparado e só demonstrando uma perfeição interpretativa quando tem em mãos a personagem ideal, e Giallini é a personificação do homem que em tempos teve tudo quanto ambicionou mas que, de um momento para o outro, se vê atraiçoado pelos seus próprios ideais.
Mas os três não estariam completos sem a força de mudança e aquela que, de uma ou outra forma, os acabaria por fazer tremer, e Domenico Diele é essa força. Bruto e com as suas próprias incertezas e frustrações que o deixam em muitos momentos num limbo, ele encarna a força moral que se encontra perdida. Uma espécie de luz ao fundo do túnel que está sempre presente para alertar que independentemente daquilo que achamos de uma sociedade, por vezes tão injusta, tem de estar sempre (sem qualquer excepção) regido por um conjunto de leis que a regulam. Ou isso ou um vazio de poder estaria de imediato presente na sociedade permitindo a todos fazerem o que dela entendessem.
Com uma intensa e enérgica (tanto quanto a acção) banda-sonora da autoria de Mokadelic que sabe exponenciar toda a adrenalina que constantemente se faz sentir e uma exímia fotografia de Paolo Carnera nomeada ao Donatello da Academia Italiana de Cinema que nos transporta para todos os lugares onde a acção decorre quase como se estivessemos presentes nos mesmos, este filme é intenso, duro, cru e com quota parte de violência quer física, verbal e até mesmo psicológica que, sendo imparcial e mostrando-nos portanto os dois lados da mesma história (e das mesmas personagens), nos permite acesso ao principal, ou seja, perceber os passados de cada um, os porquês do rumo de vida que levaram e as opções que em tempos tomaram e que os levaram ao sítio onde agora se encontram.
Uma intensa primeira-obra que deixa a fasquia, e a expectativa, bem elevada para o próximo trabalho de Sollima mas que o afirma como um cineasta em observação para o futuro.
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9 / 10
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