sexta-feira, 29 de março de 2013

Tulpa (2012)

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Tulpa de Federico Zampaglione presente na secção Altre Visioni da 6ª edição da Festa de Cinema Italiano de Lisboa, e o último filme que vi este ano, recupera o estilo Giallo há muito desaparecido do mesmo, numa combinação perfeita de elementos.
Tendo então em conta esta tradição recuperada, este filme conta-nos a história de Lisa (Claudia Gerini), uma executiva de sucesso que se prepara para poder ser a administradora de uma empresa de sucesso que de noite tem uma vida alternativa ao revelar ser frequentadora de um misterioso clube de inspiração budista e ao culto da tulpa, entidade que pode ser materialmente criada pela força de vontade através da meditação, concentração e visualização da mesma e que, encarnando os mais reprimidos pensamentos pode desviar na criação de um demónio, local este onde o sexo com estranhos é encarado como uma forma de libertação da ânsia de viver.
O inesperado acontece quando Lisa descobre que estranhos homicídios estão a decorrer e que as vítimas são alguns daqueles que com ela frequentam tão misterioso clube nocturno e, mais concretamente, aqueles que embarcaram em orgias onde esteve presente, e que denotam que alguém está desesperadamente a atormentar a sua vida e que ela própria pode ser uma das próximas vítimas. Ou será que a sua meditação já despertou o demónio interior que Lisa tem e que sempre tentou esconder devido aos padrões socialmente aceitáveis?
Segundo a melhor tradição do cinema Giallo, este Tulpa tem todos os ingredientes indispensáveis para que resulte da melhor forma, ainda que para alguns não preparados ou desconhecedores do filme ele se assuma como algo estranho e sem sentido. Temos a evidente e explícita sexualidade que na melhor tradição deste género nos indica quem serão as vítimas perfeitas do misterioso assassino e que é ele próprio um dos elementos fundamentais do género. Todos estes filmes, sem excepção, denotam uma sexualidade e sensualidade filmica que se fundem imediatamente com o voyeurismo do espectador. Quando despertamos do transe em que as imagens nos colocam, numa nudez explícita e quase gratuita inerentes ao género, percebemos que aqueles momentos não são tão gratuitos assim e que retratam uma certa vulnerabilidade em que as próprias personagens se encontram face ao desconhecido que se prepara para atacar.
E quando isto acontece temos um conjunto de momentos que oscilam entre a bizarria e o gore, também eles sempre muito explícitos e macabros que para além de uma simples morte mostram requintes de malvadez típicos do género cinematográfico que representam, deixando as suas "vítimas" como verdadeiros calvários em plenos século XXI. Sangue, feridas, marcas, chagas e muito macabro são apenas algumas das palavras que chegam à memória daqueles que assistem àquelas por vezes incomodativas imagens que são, de certa forma, verdadeiros símbolos do filme (e género) em questão.
E é também a partir deste momento que todos são suspeitos. os amigos, os colaboradores e colegas, a família (quando existe) e até aquele simpático vizinho do lado que aparenta não fazer mal a uma mosca. Todos são o assassino que persegue a vítima... Até ela própria chega a ser por vezes suspeita, deixando-nos numa constante corda bamba sobre o que poderá resultar daquele espectáculo macabro. Assassino esse que aparece de uma forma também característica do género (outro símbolo), sempre de casaco comprido preto, chapéu e luvas e, sem nunca lhe vermos o rosto ou as formas, fiamos até ao final em suspensão sobre a sua verdadeira identidade ou a respeito da proximidade que poderá ter para com a vítima. Vítima esta que, apenas e só ela, poderá e conseguirá no final descobrir e revelar quem está por detrás de tão hediondas mortes.
Tulpa é um digno representante do género, e o realizador Zampaglione não poderia ter escolhido outra actriz que não a sua própria mulher Claudia Gerini, para dar corpo e muita alma a uma "Lisa" que tem tanto de vítima como de femme-fatale... ora fria e calculista ora mulher sedenta da compreensão de uma alma por vezes perdida no caminho da vida que se assume maior do que a sua própria capacidade de a suportar, e que encontra naqueles meandros um escape para o seu enfadonho quotidiano... Mas todos os caminhos têm um preço, por vezes elevado demais, a pagar... como aqui se comprova.
Intenso e explícito... macabro e muito sexual, com um ambiente geral perfeito graças a uma fotografia por vezes claustrofóbica e assustadoramente intensa da autoria de Giuseppe Maio, que transforma aqueles corredores subterrâneos em labirintos responsáveis pela loucura dos mais desprevenidos, e uma banda-sonora intensa e repleta de vida, digna de ser uma própria personagem do filme que fora composta por Andrea Moscianese, Federico Zampaglione e Francesco Zampaglione que, todos em uníssono conseguem recuperar, na perfeição, um género cinematográfico que tem uma extensa legião de fãs e sem cair no absurdo de onde outras produções nunca conseguiram sair.
Se original se puder aplicar nos nossos dias a uma obra do género... Tulpa é sem dúvida, um filme original.
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7 / 10
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