quarta-feira, 17 de julho de 2013

Stoker (2013)

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Stoker de Chan-wook Park é um intenso e inesperadamente macabro filme que conta com a participação de Nicole Kidman e Mia Wasikowska nas interpretações principais.
O mundo de India Stoker (Wasikowska) é subitamente abalado quando Richard (Dermot Mulroney), o seu pai, morre num trágico acidente de automóvel e quando chega para o seu funeral Charlie (Matthew Goode), o tio que nunca soubera ter que, ao mesmo tempo, se instala na casa como se de lá nunca tivesse saído. A completar o elenco familiar temos Evie (Nicole Kidman), a sua mãe disfuncional com quem nunca partilhara qualquer tipo de afecto e que se mostra incondicionalmente próxima do seu cunhado que olha para India de uma forma muito cúmplice e interessada.
A sua presença que parece fazer despertar em Evie a mulher que há muito se anulara, afecta também India que, aos poucos, denota comportamentos cada vez mais sexuais assim como da descoberta de uma feminilidade que aparentava estar reprimida e que "usa" de forma agressiva para com todos os homens com quem se cruza sendo que, ao mesmo tempo, desconfia de toda aquela inesperada simpatia e mistério que a presença de Charlie exala, ao mesmo tempo que se deixa encatar por tais características.
O desfecho da estranha relação que surge entre estas três personagens só poderá culminar no pior que delas esperamos e que, aos poucos, se faz anunciar mas não suficientemente explícito.
O argumento que foi escrito pelo actor Wentworth Miller (uma curiosa e agradável surpresa), tem um significativo conjunto de elementos simbólicos tradicionalmente ligados aos filmes de suspense e terror e que podem ser encontrados um pouco por toda a obra, e podemos logo de imediato encontrá-los na mansão que "Evie" e "India" habitam que assume um ambiente perfeitamente fantasmagórico polido e que poderá eventualmente esconder vários "podres" do passado. Se por um lado se assume como opulenta, rica e com um estilo clássico, não é menos verdade que nada é revelado ao acaso e todos os segmentos em que ali entramos estão cuidadosamente preparados para nos sentirmos num espaço que nos cativa mas que, ao mesmo tempo, nos faz sentir como se estando a ser preparados para ali ficar presos. Apenas nos filmes clássicos de terror sentimos igual experiência, onde os jogos de luz e a respectiva decoração envolvente nos remete para um imaginário vampírico (é preciso relembrar o título do filme?) de outros tempos.
No entanto é também de realçar o latente desejo entre as personagens "Evie" e "India" para com "Charlie". Se para com a primeira "Charlie" apenas a seduz como forma de poder manter-se por perto, para com "India" a proximidade e cumplicidade que se faz sentir inicialmente vai, aos poucos, para lá de afecto e admiração roçando sim o desejo carnal que, considerando o género, pressupõe que uma vez consumado o perigo irá emergir e apoderar-se ou destruir tudo o que se cruze no seu caminho. É este mesmo desejo carnal que faz despertar uma puberdade e adolescência reprimida em "India", fazendo-a perceber que por detrás de um aspecto frágil e envergonhado se esconde uma mulher prestes a ver-se como tal e preparada por fazer realizar a sua própria sexualidade que surge incontornavelmente através de uma crescente violência mais ou menos gráfica, que se assume como uma sua característica ganha através de uma relação proibida que sente crescer com a presença do seu tio.
São estes pequenos mas decisivos traços psicológicos que vamos obtendo também através de segmentos que muito nos reflectem sobre tão curiosas personagens. "India" na sua aula de pintura que ao desenhar um vaso não sobre o objecto em si mas sim ao seu interior ou quando nos encontramos no velório do seu pai, todos os espelhos e relógios são tapados como forma do tempo e das imagens não serem encaradas tal como são, tendo assim parado algures no espaço. Qual a imagem que tanto se receia ver? Aquela que o espalho pode revelar ou aquela que os seus olhos podem realmente ver nessa mesma imagem reflectida e que pode, a dado momento, assustar por perceber aquilo que realmente é?
É esta mesma reflexão inconsciente sobre o seu subconsciente que nos leva de imediato a perceber que está ali algo mais por descobrir e pronto a ser colocado à prova que a presença de "Charlie" saberá pertinentemente explorar. E assim o faz com as ofertas de boleia, de um chapéu, de um gelado ou insuspeitos presentes que mais não são do que tentações do mal prestes a revelar-se, mostrando-nos que o predador, essencialmente nocturno, está a testar e rondar a presa antes de finalmente a conseguir fragilizar e atacar. A questão é... quem é a verdadeira vítima... a haver uma?!
A contribuir para este ambiente tenso e algo macabro temos ainda um conjunto de elementos sonoros e visuais que nos cativam pela sua originalidade e vertente artística, nomeadamente o tocar da campaínha e as interferências sentidas com a luz mostrando uma interligação entre momentos, espaços e personagens ou melhor, como todos se desenrolam numa sequência de acontecimentos que anunciam um desfecho final, o som do afia que a certo momento parece estar a afiar um pedaço de carne ou mesmo o toque do telefone que se reflecte nas campaínhas que se encontram na campa do único rapaz que olhou, em tempos, com alguma dignidade para "India".
A tríade de actores protagonistas não poderia ter sido mais acertada e as personagens que compõem parecem ter sido propositadamente pensadas neles. O "Charlie" de Matthew Goode consegue ser assustadoramente perigoso só de olharmos para ele, e cedo percebemos que a sua chegada não é tão inocente quanto aquilo que quer aparentar, e confirma que o mal pode e quer ser sedutor com o intuito de conquistar aqueles com quem se cruza e que de uma ou outra forma lhe resistem. Por sua vez, Nicole Kidman e a sua "Evie" representam aquilo que de mais fútil e mesquinho pode existir numa pessoa. Potencialmente gélida em oposição a um marido dedicado e preocupado, a sua personagem mostra-se incapaz de amar e de se entregar, o que aos poucos fez transmitir a imagem de uma mulher indiferente e seca que era adversa à ideia de abraçar sequer a sua filha "India" para a qual tem um dos mais intensos e perturbadores momentos de todo o filme. É no entanto esta, interpretada por Mia Wasikowska, que se revela aquela incapaz de receber um afecto, ou até de os expressar, àqueles com quem convive, exceptuando a sua linhagem paterna por quem sente uma quase incestuosa atracção. Aos poucos, e à medida que desperta para uma sexualidade reprimida e agora fruto de uma violência exacerbada que comete contra aqueles que de mais perto com ela convivem (independentemente de serem ou não relações afectivamente próximas), que a sua "India" se revela como um novo tipo de vilã adolescente (ou pós) cruel e sedenta de sangue que encara a morte como uma nova forma de excitação sexual.
Todos, sem excepção, têm ainda uma curiosa particularidade ao passarem boa parte deste filme sem uma expressão visual que nos permite "ler" a sua alma, isto é, raros são os momentos em que o seu olhar transmita uma emoção para além do vazio e são raros também os momentos em que vejamos qualquer um destes actores a pestanejar, concentrados eles próprios no que lhes é exterior que observam com excessiva atenção.
Finalmente a direcção de todos os aspectos técnicos encontram, graças ao fio condutor de Chan-wook Park, uma perfeita harmonia e sintonia que compõem o ambiente ideal de um invulgar filme de terror como a sua direcção de fotografia por Chung-hoon Chung que transforma todo o ambiente em momentos que precedem uma intensidade extrema, ou seja, as cores e a ausência de luz mantêm o filme num clima de tensão imediata do qual aparenta não poder sair mantendo os espectadores numa tensão extrema. A ajudar para a dramatização destes segmentos temos uma intensa música original de Clint Mansell que consegue extremar todos os pequenos detalhes numa perfeita harmonia entre movimentos e sons fazendo com que tudo pareça fazer parte de um mesmo elemento e apenas atingindo o seu clímax já bem perto do final quando tudo está prestes a encarar um inesperado desfecho.
Ainda sem data de estreia em Portugal graças aos sucessivos atrasos a que foi sujeito, este filme demonstra ser um dos mais fortes e bem sucedidos filmes de suspense que este ano viu ou verá estrear, dotado de um conjunto de actores, argumento e elementos técnicos e artísticos que se complementam funcionando com um só e que consegue em diversas ocasiões ser fiel ao espírito de um filme que pretende causar-nos terror sem que ele aparente ter um aspecto medonho para o qual não possamos olhar. Bem pelo contrário, aqui se o mal existe, ele tem como único objectivo seduzir-nos... E consegue.
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"Evelyn Stoker: You know, I've often wondered why it is we have children in the first place. And the conclusion I've come to is... At some point in our lives we realize things are screwed up beyond repair. So we decide to start again. Wipe the slate clean. Start fresh. And then we have children. Little carbon copies we can turn to and say, "You will do what I could not. You will succeed where I have failed." Because we want someone to get it right this time. But not me... Personally speaking I can't wait to watch life tear you apart."
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10 / 10
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