segunda-feira, 4 de julho de 2016

Warcraft (2016)

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Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos de Duncan Jones é uma longa-metragem norte-americana - em co-produção com a China, Canadá e Japão - e a mais recente adaptação cinematográfica de um jogo online seguido por milhões de fãs.
Num mundo em guerra entre Orcs e Humanos, uma horde orc comandada por Gul'dan (Daniel Wu) pretende invadir o planeta Azeroth através de um portal mágico que se alimenta da energia dos prisioneiros que tem em cativeiro.
Numa improvável aliança entre os orcs Durotan (Toby Kebbell), Garona (Paula Patton) com Llane Wrynn (Dominic Cooper), o Rei de Azeroth e o seu cunhado Anduin Lothar (Travis Fimmel), que com o apoio do mago Khadgar (Ben Schnetzer) irá tentar travar a propagação do mal destruindo as pérfidas intenções de Gul'dan e, pelo caminho, pacificar os reinos e os seus diferentes mundos.
Com um argumento da autoria do próprio Duncan Jones em parceria com Charles Leavitt, Warcraft recupera interessantes e bem pensados elementos de obras cinematográficas passadas que aqui encontram uma estranha mas curiosa adaptação. Todo o universo em que o espectador está inserido é uma ambiência familiar de trilogias como The Lord of the Rings (2001, 2002 e 2003) e The Hobbit (2012, 2013 e 2014) onde estranhas criaturas dos mais diversos e profundos mundos se cruzam num mesmo espaço e numa luta pelo poder e controlo dos territórios naquele que, em espaço temporal terrestre, se poderia considerar a Idade Média. A magia e os encantamentos antigos cruzam-se com problemas modernos como a escravatura, o domínio dos mais poderosos em relação aos mais fracos e, de uma forma geral, a corrupção do ser por forças que num lento crescendo ocupam a mente e os corações daqueles que lhes pensam resistir mas que se deixam dominar pelo capricho mais antigo... o próprio poder.
Mas as semelhanças com outras obras cinematográficas não param por aqui. Warcraft recupera ainda uma já conhecida essência de Star Wars - a "fel" que corrompe a "força" do bem - bem como um improvável mas evidente piscar de olho a The Ten Commandments (1956) com a captura do descendente do "traidor" que é, depois deixado escapar elevado por um rio na esperança de que o salvador chegue um dia mais tarde para libertar todos os oprimidos que ousem segui-lo tendo, no fundo, um destino ou propósito comum... a luta do Bem contra o Mal que enquanto dura... perdura.
Tido como o primeiro título de uma saga que poderá ser extensa tal a riqueza das suas personagens, universos e espaços, Warcraft é silenciosamente assumido como o capítulo inicial, ou seja, aquele filme que todo o espectador mais atento percebe ser o primeiro de muitos que irão chegar e que aqui serve quase exclusivamente para a apresentação das suas principais personagens, quais as origens daquilo que ainda irá surgir e, essencialmente, o capítulo que revela as principais premissas base, alianças, rupturas não esquecendo, claro, as relações que irão surgir para lá daquelas traçadas em campo de batalha... Será possível um amor inter-espécies?
Com uma mensagem que acaba por ser eterna e transversal a todos os universos - reais e imaginados -, Warcraft questiona ainda o espectador sobre o que realmente separa diferentes indivíduos? No próprio início da trama uma simples frase esclarece o mais desatento... há anos que se trava uma guerra que ninguém já conhece os seus motivos... No fundo, existirão motivos para uma guerra? Motivos para uma guerra que ninguém entende e cujo único propósito parece ser a aniquilação alheia? No entanto, é também desta guerra sem sentido e sem um propósito explícito para além daquele da tomada do poder, que surge a eterna questão... poderá ser na diferença que reside a salvação de todos os mundos? Poderá ser esta diferença o resultado de uma mútua compreensão e eventual pacificação? Poderá a mesma ser a resposta a uma crescente corrupção e vontade de dominação?! A diferença, tantas vezes tida como objecto de discórdia, acaba por se transformar na resposta para a resolução de todos os problemas... afinal, é na aceitação do próxima e das diferenças/qualidades que o caracterizam que reside uma resposta universal que precede a compreensão de que para mundos diferentes... leis diferentes... com o propósito último do respeito para com todos.
O argumento que visa tocar em todas estas premissas em pouco mais de duas horas de duração acaba, para tristeza do espectador, por abrir vários rumos e caminhos sem que na realidade sejam todos devidamente articulados e encerrados. Em Warcraft aquilo que é evidente, é que ao servir de uma obra introdutória para os futuros e eventuais capítulos, deixa mais perguntas em aberto tentando criar a expectativa do que o que "aí vem" é mais... e melhor. No entanto, sem uma sequela já previamente preparada, o efeito espectacular de Warcraft é toda a sua rica componente técnica que se inicia com os seus efeitos visuais que criam, literalmente, novos mundos para o mundo sem esquecer claro, a magnífica direcção de fotografia de Simon Duggan que leva o espectador a navegar por ricos e verdejantes locais como, de repente, a verdadeiros campos de batalha onde se sentem as cores - ou ausência delas - da morte num misto de exuberantes detalhes que obrigam a mais do que um visionamento. Igualmente exímio o guarda-roupa de Mayes C. Rubeo que, tivesse o filme estreado numa época mais perto do final do ano, seria lembrado na respectiva atribuição de prémios... facto que duvido que se venha a confirmar e a óbvia caracterização fruto da existência de vários mundos e seres distintos.
Com um espírito que se distancia das tradicionais adaptações de videojogos com personagens estereotipadas e ocas - atente-se no potencial dramática que as personagens interpretadas por Paula Patton e Travis Fimmel tem ainda pro entregar não só individualmente mas também em relação à sentida química entre ambos -, Warcraft deixou uma boa sensação como o mais recente filme que mescla aventura, acção e magia mas que, no entanto, precisa desesperadamente que lhe dêem a sua devida continuidade e uma maior exploração e profundidade nas já referidas personagens para que não se transforme de filme sensação em filme desilusão (pela falta dessa mesma continuidade).
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"Anduin Lothar: Some see death as having some greater purpose, but when it is one of your own, it is hard to grasp anything good comes from it."
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8 / 10
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