quarta-feira, 19 de outubro de 2016

They Look Like People (2015)

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They Look Like People de Perry Blackshear é uma longa-metragem independente norte-americana que nos relata o reencontro entre Wyatt (MacLeod Andrews) e Christian (Evan Dumuchel), um seu amigo de infância com quem há muito não se cuzava.
Perdido num ambiente que lhe parece estranho, Wyatt prepara-se para uma difícil tarefa quando julga que todo o mundo se prepara para uma invasão que substituirá todos os seus conhecidos por outras entidades e pretende salvar aquele que foi o seu único apoio em tempos idos. Numa encruzilhada entre a realidade e aquilo que parece ser o fim da humanidade tal como a conhecemos, conseguirá Wyatt salvar a única alma ainda pura ou tudo não passa de um invulgar distúrbio do qual ele não se liberta?
Os instantes iniciais de They Look Like People são determinantes para classificarmos o filme de Perry Blackshear numa de duas categorias... Ou o espectador está perante um filme cujo argumento se encaminhará para uma história muito semelhante à de Body Snatchers (1993), de Abel Ferrara ou The Invasion (2007), de Oliver Hirschbiegel nos quais entidades alienígenas se preparam para "ocupar" os corpos humanos habitando, dessa forma, o planeta Terra ou, por outro lado, uma história na qual estamos frente a uma personagem cujo distúrbio psicológico é grave o suficiente para considerar e ver em todos aqueles que o rodeiam potenciais inimigos que têm de ser "dispensados".
Numa viagem que revisita o passado dos dois amigos ao mesmo tempo em que conhecemos mais do presente de ambos, They Look Like People assume-se desde o primeiro momento como uma história que pretende ver triunfar o poder de uma amizade consumada. Se por um lado temos um "Christian" que se apresenta como um homem de sucesso profissional, confiante e que tem todas as mulheres aos seus pés, cedo percebemos que lhe falta o essencial... a presença constante de um amigo com quem possa reviver momentos de uma descomprometida descontracção que o mostrem tal como ele é. É o reacender desta chama de amizade com "Wyatt" que o vai, por um lado, revelar em toda a sua fragilidade, nomeadamente a profissional que não é tão segura como aparenta como, por outro, o fazem perceber que está tão disponível para o seu amigo como este esteve - noutros tempos - para com ele. No entanto, se a cumplicidade que "Christian" faz sentir em relação a "Wyatt", já este último parece estar sempre com motivos secundários na relação que exibe em relação ao seu amigo de infância. "Wyatt" é um homem preocupado, inquieto e assumidamente receoso de tudo o todos quanto o rodeiam. Nada é - para ele - como aparenta, e todos poderão ser eventuais alvos a abater caso o verdadeiro confronto se confirme e ele só tenha "Christian" a seu lado - ou talvez não... Numa verdadeira preparação para um futuro inesperado, os comportamentos de "Wyatt" transformam-se num ritual de sobrevivência e nada o impedirá de recorrer à mais cruel das torturas se assim fôr necessário.
Se o espectador começa a acreditar que está de facto perante uma invasão alienígena e que o fim do mundo como o conhecemos está prestes a desaparecer existem, no entanto, diversos outros factores que o impelem a captar uma outra dimensão - e eventualmente mais real - de que "Wyatt" se encontra num ponto de viragem da sua vida onde uma esquizofrenia ainda por detectar está prestes a tomar conta do seu comportamento e do seu pensamento nomeadamente graças à recepção de misteriosos telefonemas que durante a noite o alertam para a chegada de "dias novos". Na prática a dúvida fica lançada pois... quem saberia de tal "invasão" ou sequer o alertaria - um simples desconhecido - para o fim dos tempos? Com que propósito? Como se conseguiria ele - um simples mortal - salvar de tão grande destruição? Numa calma aparente mas severamente atormentado por um conjunto de pensamentos que não o abandonam, "Wyatt" é um homem à beira do seu próprio limite e qualquer factor que seja alheio ao seu controlo pode despoletar uma chacina que (para ele) determinará a sua salvação.
Tendo sempre em mente esta dicotomia, They Look Like People é, no entanto, uma simpática e bem construída história sobre a sobrevivência do Homem não per si mas sim pelos laços que o unem aos demais. Pela forma como este mesmo Homem - no seu sentido lato - sobrevive em comunidade quando parece imperar o individualismo, a força de um poder material que comanda o mundo ignorando, por outro lado, os laços primários estabelecidos que determinam aquilo que conhecemos como família, amigos e, de certa maneira, aquilo que cada um de "nós" realmente é. No fundo aquilo que They Look Like People questiona o espectador é até bem simples... até que ponto estará cada um de nós disposto a ir para salvar a vida de um amigo em necessidade? Compreender os seus problemas... o que o afecta... as suas crises... e, no fundo, aquilo que independentemente dos seus demónios pessoais... faz dele um humano...
A dupla Andrews e Dumouchel funciona de forma perfeita e os momentos em que recuperam muita da sua juventude perdida agora que entram nos seus trinta's é a confirmação de que as amizades subsistem e resistem a todas as adversidades e distanciamentos. E Andrews, enquanto homem atormentado e preso dentro do seu próprio pensamento, consegue interpretar alguns intensos e dramáticos segmentos nomeadamente aqueles em que a sua personagem compreende que algo mais o atormenta do que uma invasão desconhecida.
Inteligente e com uma importante mensagem sobre o sacrifício e a amizade, They Look Like People consegue - independentemente de todas as condicionantes de um filme independente - ter um argumento coeso e uma construção firme e bem estruturado sendo essencialmente uma aposta bem sucedida de toda uma equipa e de um realizador e argumentista que aqui tem a sua primeira longa-metragem.
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7 / 10
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