segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Traça (2016)

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Traça de Miguel Bonneville é uma curta-metragem experimental portuguesa que esteve presente na secção competitiva de Curtas-Metragens na vigésima edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorreu até ao passado dia 24 de Setembro no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Dividido em três momentos específicos, Traça é baseado nas biografias de Jean-Marc Gaspard Itard, Marie Antoinette e Friedrich Nietzsche que apesar das suas histórias distintas partilham, no entanto, momentos de uma devastação sentimental que, de certa forma, os une.
O primeiro desses momentos I - Síndrome de Víctor retrata a convivência entre Jean-Marc Itard e o jovem que adoptou e que tentou educar durante cinco anos para os costumes de então sentindo, no entanto, que a sua missão falhará. Itard deixará a Victor uma carta para ser lida após a sua morte no qual explicita os motivos da sua desistência nos quais se denota uma relação que vai para lá de uma simples amizade. Deixado ao critério do espectador - existindo já um relato cinematográfico desta relação na obra L'Enfant Sauvage (1970), de François Truffaut - Traça parece alertar para uma relação que poderia oscilar entre os laços de familiaridade àqueles que sendo sentimentais sempre condicionaram a proximidade entre ambos ignorando o autismo de que se suspeita ser a principal condicionante de aprendizagem deste jovem.
O segundo momento II - Brioche reflecte sobre a relação entre Marie Antoinette e Fersen - seu amante - e a carta que esta lhe deixou na esperança que após a sua morte lhe chegasse às mãos. Este relato que mescla os sentimentos de uma paixão sentida com uma despedida que se aproxima, revelam os desgostos de uma então raínha deposta, incompreendida e humilhada pela mudança de um regime que a desprezava. Com a única certeza de um amor sentido e vivido, Marie Antoinette despede-se não só de Fersen como principalmente de um mundo que olhou para o seu estatuto social e não para a mulher que se escondia por detrás das paredes de um palácio.
O terceiro e último segmento de Traça é III - Autópsia de Deus relata a relação de Nietzsche e Lou Salomé afectada por uma possessiva irmã do filósofo e a incompreensão deste para a "falta de intelectualidade" na mulher que amava. Distanciados por uma incompatibilidade que os afastava da dita normalidade, Lou responde sabiamente que "os deuses (venerados) apenas anseiam a normalidade" como que uma resposta de que nem os ditos superiores o anseiam ser.
Com interpretações de Victor Gonçalves (Itard), Vanda Cerejo (Marie Antoinette) e António Afonso Parra (Nietzsche), está presente em todos estes registos para a posteridade um assumido desgosto sentimental que estas figuras da História sentiram e desabafaram nos seus instantes finais. Com a percepção de que o mundo - ou época - que viveram não os compreendeu, e que os próprios se sentiam fora dos lugares comuns que forçadamente viviam, Traça regista, a título experimental, estes precisos instantes finais onde a lucidez abafa o pensamento e clarifica aquilo que se esperou, desejou e do qual foram privados em boa medida. Os preconceitos, as mentiras piedosas que precisavam ser vividas e até mesmo a força das aparências numa sociedade conservadora demais para os seus espíritos livres são aqui retratados com inteligência e precisam nesta obra de sentidos de Miguel Bonneville que retira o espectador da ficção (quase sempre retratada) despojando-o de cenários de época mais ou menos luxuosos e trabalhados para o centrar na imagem da mensagem do "testamento" em vida que lega não bens materiais mas sentidos ensinamentos para aqueles que, no futuro, os desejem realmente conhecer.
Inteligente e mordaz, assumidamente sentimental sem recorrer aos lugares comuns de uma vida nem sempre emocionante, Traça é um intenso filme sobre um preciso momento... aquele que regista uma despedida sempre sentida.
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"Marie Antoinette: Estudar a arte de mentir tem as suas vantagens, principalmente quando somos obrigados a viver na chamada vida real."
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7 / 10
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