quarta-feira, 2 de maio de 2018

Dayless (2016)

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Dayless de Gerardo de la Fuente López (Espanha) é uma das cinco curtas-metragens de animação presente na respectiva secção oficial da nona edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos a decorrer até ao próximo sábado, na Cantábria, em Espanha.
Ele parece odiar a vida... mas esta poderá não odiá-lo. Numa nova concepção do mundo... como será que alguém pode encontrar uma forma feliz para viver?
A curta-metragem de Gerardo de la Fuente, cujo argumento também escreveu, é uma triste mas dinâmica alegoria para um novo e futurista mundo no qual tudo perdeu o seu sentido e a noção de felicidade é apenas uma miragem de um passado que já ninguém conhece. Aquilo que o espectador observa deste novo mundo é uma dimensão mecanizada de toda a vida conforme a conhecemos... da simples deslocação para um local de trabalho até ao momento em que os indivíduos têm de interagir entre si, nada é espontâneo ou natural existindo, para tudo, um obrigatório equilíbrio para que o funcionamento das partes resulte. Tudo está uniformizado e a diferença é inexistente... ou pelo menos assim pensamos.
As distâncias, física e psicológicas, fazem parte desta nova ordem mundial e todos estão privados de qualquer tipo de posses materiais mantendo - para o exterior - toda a sua vida a descoberto e bem visível. Não existe cor nem tão pouco qualquer elemento que diferencia algum destes habitantes dos demais. Os rostos são desprovidos de qualquer expressão e a uniformização é total e absoluta mas, no entanto, o que acontece quando "Ele" resolve finalmente libertar-se desta sua vida rotineira e aceite em comunidade? A cor existe... para lá do seu espaço autorizado, e a vida pode na realidade ser diferente daquilo que todos conhecem mas... o que fazer num mundo tão diferente e desconhecido onde mais ninguém habita? Como sobreviver a esta nova realidade que tudo tem de apelativo mas na qual mais ninguém se encontra? Será bom permanecer naquele espaço ou, por sua vez, regressar a todo um mundo previsível e que já se conhece? Onde nada se tem mas onde tudo está certo, garantido e seguro?!
Incerto e sem qualquer registo, os anos passam... a vida mantém-se sem alteração e a realidade que sempre se conheceu é a única possível de poder aguentar... ou até mesmo suportar! De la Fuente cria portanto a alegoria perfeita sobre um estado de espírito de uma população incapaz de encontrar felicidade nas pequenas coisas ou, nesta sua impossibilidade, de arriscar enfrentar a diferença e o outro lado de uma realidade que procura mas desconhece, que teme mas pela qual anseia e que, mesmo sabendo que existe nesse "outro lado", prefere manter afastado como algo nefasto e capaz de afectar a sua noção de estabilidade.
Detentora de uma forte e actual mensagem, Dayless é portanto o registo de uma vivência cada vez mais mecânica e autómata de uma sociedade que quer por hábito quer por consciencialização se habituou a deixar de viver e principalmente de sonhar.
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8 / 10
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