terça-feira, 1 de maio de 2018

La Llamada (2017)

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La Llamada de Javier Ambrossi e Javier Calvo (Espanha) é uma das longa-metragens presentes na secção Puesta de Largo da nona edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cine que decorre na Cantábria até ao próximo dia 4 de Maio.
María (Macarena García) e Susana (Anna Castillo) são duas adolescentes no acampamento católico de Verão "La Brújula". No entanto, as duas sentem uma paixão pelo reggaeton e pelo electro-latino encontrando ali surpreendentes revelações que poderão modificar o seu destino.
O grande sucesso comercial do ano passado do cinema espanhol, vencedor de Goya e de Feroz, La Llamada é um filme que tão depressa encontra no seu público alguns elementos simpáticos que por ele fazem criar alguma empatia mas, ao mesmo tempo, centra-se demasiadamente em pequenos lugares comuns que não só desmotivam à concentração do mesmo como principalmente o levam a transformar-se numa experiência semi-aborrecida que não só não cativa como ridiculariza o género.
A dupla de realizadores que aqui também assinam a autoria do argumento criam aquilo que inicialmente se caracteriza como uma interessante história de comédia sobre uma etapa de transformação na vida de duas jovens habituadas a uma certa educação católica. Aquilo que parecia como uma garantia sobre os destinos das jovens cedo se transforma num conto não sobre a sua confirmação mas sim sobre as escolhas inevitáveis a que cada uma delas está "obrigada" com o tal "despertar" - religioso e não só - e, ao mesmo tempo, a forma como ambas abraçam essas escolhas que agora lhes batem à porta. Assim, se "María" se depara com estranhas e musicais aparições de um improvável Deus (e toda a sua irreverência musical), "Susana" encontra finalmente a coragem para declarar todo o seu amor à "Irmã Milagros" (Belén Cuesta) que a acompanha nas suas escolhas desde jovem. Estão, a partir deste momento, lançados os dados para que as duas jovens encontrem, reconheçam e enfrentem aquilo que o destino (ou Deus) lhes tem reservado.
Dotado de doses exageradas de um humor nem sempre cúmplice com o espectador, repleto de momentos esperados e lugares comuns sobre a vida de duas adolescentes que com todas as suas incertezas tentam encontram o espaço próprio num mundo que nem sempre está receptivo para com as escolhas individuais, La Llamada perde-se numa colagem de segmentos que nem sempre se revelam coerentes ou tão pouco divertidos como haviam sido previamente "desenhados". La Llamada que revela ter sido criado com toda uma boa vontade de criar aquela história sobre a aceitação pessoal, termina como uma longa-metragem cosida com remendos fragilizados tendo, no entanto, um variado e bem coordenado conjunto de momentos musicais que salvam o pouco que resiste deste filme. Se existe de facto uma "chamada"... não... pelo menos não para o espectador que se perde ao assistir a todo um conjunto de interpretações banais e sem qualquer coerência mas que, na sua essência, escondem um determinado potencial ao entregar para as mãos do espectador duas personagens centrais com crises existenciais - uma artista em potência que se entrega nas mãos de Deus e outra que finalmente ganha coragem para aceitar a sua sexualidade - e ainda uma freira com crise de identidade ao revelar que, afinal, toda a sua vida dedicada à Igreja possa ter sido desperdiçada quando o mundo da música poderá ter ganho a próxima estrela... Assim, e se estes momentos musicais são de facto os mais simpáticos e interessantes de toda esta história sobre a descoberta individual, a realidade é que La Llamada, no seu conjunto, não consegue ser um filme interessante ou, pelo menos, não para lá daquele entretenimento estival que todos nós adoramos ter para não perder muito tempo a pensar na história por detrás das imagens que circulam a um ritmo alucinante... na realidade... algum de nós pensa sequer na história ou deixa-se simplesmente levar por esses lugares comuns esperados e descoordenados?
Ainda que com um conjunto de actrizes adoradas pelo público e já premiados com Goya, La Llamada não prima pela excelência nas interpretações que são, também elas, puxadas à força para que tentem aguentar o impossível. Nenhuma delas - talvez exceptuando os breves momentos entre Anna Castillo e Belén Cuesta - consegue cativar o suficiente para que se tornem memoráveis, limitando-se de uma forma geral a serem presenças semi-alucinadas numa história que aos poucos parece encarrilhar para a auto-destruição limitando-se, no final, a um número musical e a uma redenção ao amor e a Cristo (independentemente) que vencem (no filme) mas não convencem (o espectador).
Com uma Macarena García formalmente mal empregue nesta longa-metragem, La Llamada é pontualmente simpático nos momentos musicais mas não consegue (ou parece querer) ser memorável... nem para o futuro nem para o momento imediato.
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4 / 10
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