quinta-feira, 11 de abril de 2013

Bróder (2010)


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Bróder de Jeferson De foi o filme escolhido para a cerimónia de encerramento da quarta edição do FESTin - Festival Itinerante da Língua Portuguesa que decorreu até ontem no Cinema São Jorge em Lisboa.
Este filme conta-nos a história Macu (Caio Blat), Jaiminho (Jonathan Haagensen) e Pibe (Silvio Guindane), três amigos que seguiram rumos diferentes nas suas vidas e que pelo período de 24 horas se reencontam para o aniversário do primeiro. Enquanto Macu permaneceu no Capão Redondo em São Paulo, onde vive desde que nasceu, numa relação muito próxima com a criminalidade incessante, Jaiminho prosseguiu uma carreira de futebolista em Espanha e aguarda pelo momento de ser convocada para a selecção brasileira, e Pibe inicia num outro bairro uma vida familiar que lhe surgiu de forma inesperada e à qual ainda não se havia habituado.
Estas vinte e quatro horas que se assumem cruciais na vida dos três amigos são não só um reencontro onde são analisados os percursos de vida de cada um que os separam numa distância física e geográfica, mas que ao mesmo tempo se afirmam como decisivos na união que para sempre os liga, comprovando a forte amizade que nutrem entre si, e onde vão definitivamente afirmar a importância que as escolhas feitas em tempos marcam qual o lugar que ocupam no mundo.
Seguindo uma linha já habitual no cinema brasileiro dito "sério", o argumento de Bróder escrito por Jeferson De e Newton Cannito apresenta-nos uma vez mais a vida nas inúmeras favelas, aqui de São Paulo, marcados por uma forte co-existência entre pessoas de respeito e que tentam levar vidas aparentemente normais (dentro daquilo que o próprio ambiente permite enquanto normal), e uma acentuada convivência com a criminalidade e uma desesperada vontade de sobreviver e chegar ao dia seguinte onde tantos em jovem idade não conseguem chegar.
Assim, e tendo como pano de fundo o iminente culminar de uma violenta injustiça, aqui tida como ajuste de contas, para com a personagem de "Macu", este argumento explora na perfeição aqueles momentos e situações que irão ficar para sempre marcados na memórias daqueles que têm a sorte e o privilégio de realmente ver o dia nascer. Os amigos que optaram um dia por alterar o seu destino e rumar a outras paragens sem, no entanto, esquecer quais as suas origens e claro, a família que vive num ruidosamente silencioso desespero, no espaço onde sempre viveram, a aguardar que nada de mal aconteça aos seus por quem zelam com igual paixão mesmo que, por vezes, esse zelo se confunda com pressão e igual violência como podemos constatar na relação que opõe "Macu" a "Francisco" (Ailton Graça).
Sem uma clara predominância de nenhum dos actores, o protagonismo divide-se no entanto entre Caio Blat e Jonathan Haagensen que representam no fundo os dois opostos dos filhos da favela. O primeiro o eterno resistente que ali nasceu e vai morrer mas que tem sonhos grandes e não assumidos para a sua família a quem deseja uma vida melhor. O segundo representa o seu oposto... desprendido de qualquer tipo de ligações físicas com o seu passado é aquele que, no entanto, consegue alcançar e materializar os seus sonhos de criança, obtendo essa vida melhor mas nenhuma ligação a ninguém que sempre amou.
Aos poucos, e muito graças ao drama que a personagem "Macu" alcança, Caio Blat torna-se no actor principal sem ter aquele protagonismo assumido mas que lhe é conferido graças ao seu trágico, e esperado, destino num final muito emocionante e que é ao mesmo tempo triste e solitário, conferindo-lhe uma interpretação ora rude e dura ora frágil e terna.
Falar deste filme é, ao mesmo tempo, falar de duas sólidas interpretações secundárias que conferem a toda esta história a humanidade que lhe poderia ser facilmente esquecida. Refiro-me ao já referido Ailton Graça que interpreta "Francisco", o duro padrasto de "Macu", que se revela até ao último instante incapaz de dizer o quanto sempre o amou, sentimento esse que lhe transparece não só pela força das palavras como também pela emotividade e dedicação do seu olhar, e também a Cássia Kiss, a "Sônia" mãe de "Macu", que é um verdadeiro poço de emoções e sentimentalismo e que tudo dedicou aos seus filhos, mesmo por vezes o seu bem-estar, na esperança de que eles não caíssem na difícil vida de rua das favelas colocando assim em risco a sua sobrevivência, numa tão forte e sentida interpretação que poderia ser facilmente considerada como o "motor" de todas estas personagens, ou seja, aquela a que todos recorrem num ou noutro momento do filme.
Gustavo Habda compõe uma fotografia tão dura quanto o próprio ambiente em si, classificando-o como um espaço onde é duro (sobre)viver e resistir e onde raramente alguém tem tempo (ou espaço) para pensar em celebrações que, a acontecerem, são momentos de rara beleza e entrega entre aqueles que nelas participam.
Bróder, à semelhança do que já havia acontecido com Autocarro 174 ou Cidade de Deus, é um filme que tem tanto de intenso como de melodramático, de violento como de humano, e são estes tão acentuados contrastes que fazem dele um excelente filme sobre o facto de como as diferentes vivências e opções de cada um vão, a seu tempo, influenciar os seus respectivos destinos e, como tal, é um filme que não deve ser esquecido tão facilmente, constituindo uma aposta claramente vencedora de Jeferson De e uma excelente escolha para homenagear o Brasil como um dos países em destaque na cerimónia deste ano do FESTin.
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8 / 10
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